Terça-feira, Novembro 26, 2002

Os dias passam. Isso é um bom sinal. Não adianta lutar contra o tempo. Tem muita gente que tenta. As marcas na face deveriam ser motivo de orgulho. Através delas, o tempo imprime a vida: são sofrimentos, alegrias, decepções. Todos os sentimentos estão lá. Estampados no rosto.
Muitos tentam se livrar destas marcas. É como querer se livrar do próprio passado. Mais um sintoma de nossa sociedade doente, que não valoriza seus idosos. Que não valoriza o passado, a memória.
É apenas isso que tenho a dizer hoje. Nada mais.


Sábado, Novembro 23, 2002

Ontem tive a honra de receber um livro escrito pelo meu amigo Pablo Pessanha. O título é A Craca à Toa. As poesias são muito bonitas. São belas pela simplicidade e, por isso mesmo, emocionantes. Dá pra ver o que pensava Pessanha no final da década de setenta.
Tirei algumas conclusões baseadas no livro. A primeira delas é que acho que cada um de nós deveria ter uma atividade criativa. Pode ser escrever um livro, inventar uma dança, pintar um quadro. Pode ser qualquer coisa.
Também concluí que os jovens são ansiosos por natureza. Anseiam por respostas para suas angústias. Estas, por sua vez, proliferam pelo medo do futuro e pela necessidade de respostas e definições ¿ onde estarei daqui a dez anos, com quem estarei, terei alcançado meus objetivos profissionais e pessoais?
Certa vez escrevi, aqui mesmo porém alguns centímetros abaixo, que a preocupação impede a criatividade. Creio que isso seja relativo. A arte nasce da angústia que nasce da ansiedade que muitas vezes dá em preocupação.
O que escrevo e o que Pessanha escreveu foi e sempre será fruto do transbordamento de emoções. Da necessidade de exteriorizar o pensamento. Por isso, obrigado Pessanha. Percebi que nossas angústias são parecidas. E me dei o direito de concluir: artista é aquele que consegue prolongar a própria angústia por toda a vida.


Sexta-feira, Novembro 22, 2002

Preocupação é reincidente. Estou passando por um período assim em minha vida. Até o momento, continuo sem perspectivas de emprego. Penso nesse problema o tempo todo.
É claro que há momentos em que me esqueço dessa pedra no meu sapato. Mas, pouco tempo depois lá vem esse assunto atrapalhar minha concentração.
Tudo parece pequeno perto disso. É claro que isso é uma bobagem. Há uma infinidade de assuntos mais importantes que isso.
Tenho uma teoria sobre emprego. Creio que daqui a algum tempo estar empregado se transformará num luxo parecido com possuir um carro. Há muitos carros nas ruas. Não faltam engarrafamentos. Parece que todas as pessoas do planeta têm seu próprio automóvel. Mas sabemos que não é assim. A maioria das pessoas não tem seu próprio carro.
Meu medo é que daqui a alguns anos emprego se transforme num bem como os carros nas grandes cidades. Conhecemos muita gente que os tem. Mas também sabemos de muitas pessoas que não os têm e nem estão próximas de tê-los.


Terça-feira, Novembro 19, 2002

MARTINHO DA VILA: "A VIDA DO NEGRO ESTÁ MELHOR"

PARA O CANTOR E COMPOSITOR CARIOCA É MAIS FÁCIL SER MILITANTE HOJE QUE NO PASSADO

Em entrevista ao programa Movimento Urbano, do canal GNT, o cantor e compositor Martinho da Vila afirmou que a vida do negro melhorou no Brasil. Para ele, ser negro hoje é mais fácil que no passado, quando os militantes da causa negra eram vistos com desconfiança pela sociedade. "A militância sofreu muito no passado. Era mais perigoso fazer parte do movimento negro que ser membro do partido comunista".
O compositor, entretanto, ainda percebe sinais de preconceito. Ele diz acreditar que para diminuí-lo a solução seria integrar as diversas raças e etnias que compõem o Brasil. "Ainda existe preconceito. Principalmente, quando o assunto é emprego. Você vai ao shopping e encontra pouquíssimos negros trabalhando", afirma.
Martinho também reclama da elite brasileira que, segundo ele, muitas vezes esquece de sua nacionalidade. "A classe dominante precisa ser mais brasileira. Ela está muito 'internacionalista', entreguista (sic) e com a cabeça muito no exterior", diz.



Quinta-feira, Novembro 07, 2002

Algumas vezes me pego pensando sobre a natureza de determinadas palavras e expressões. Há algumas que parecem ter vida, cor, gosto e textura. No último final de semana, estive pensando sobre a expressão "Fio d'água". Quando leio essa expressão penso logo em algo clássico. Ela é de uma poesia sem igual. Não sei se é pelo fato deste "d" com apóstrofo. Mas o pensamento se encadeia com mármore e quadros expressionistas.
Pode ser loucura. Aliás, deve ser. Pode ser também pela palavra "fio". É isso. Encontrei a resposta. O ser humano inventou uma expressão para quando a água passa em pouca quantidade por algum lugar. Não é um riacho. É água corrente em pouca quantidade. Eis aí uma diferença incrível.
Minha memória também deve contribuir para essa associação que faço. Quando era pequeno, costumava beber a água dos chafarizes do Jardim Botânico. Na verdade, não são chafarizes. São aquelas esculturas de pedra que servem de bebedouro para os visitantes. Aquilo sim é um fio d'água. E agora não tenho dúvida: foi dali que veio minha fixação pela expressão fio d'água.
Não minta: é claro que você sentiu sede ao ler esta coluna. Vá beber um fio d'água.



Será que escrever uma coluna diária é difícil?
Talvez. Pra falar a verdade, penso que sim. Imagine a cada dia escrever mais de 30 linhas sobre um assunto qualquer?
Este é um sonho para boa parte dos jornalistas ou de estudantes de Jornalismo. É também o grau mais alto que o profissional pode alcançar depois de anos de trabalho. É um espaço realmente de grande valor.
Transmitir todos os dias sua opinião a milhares de leitores.
Às vezes penso sobre a dificuldade que encontram articulistas como Luis Fernando Veríssimo para encontrar assunto todos os dias.
E eles conseguem. O trabalho desse pessoal passa então a ter mais valor, o mérito é maior.
Não sei se teria competência suficiente para enfrentar empreitada dessa natureza. Quem sabe um dia?