Quinta-feira, Dezembro 26, 2002

FRASES E PROFISSÕES
Hoje fui cortar o cabelo. Sentado na cadeira me dei conta de que certas profissões têm liturgia própria. No caso dos barbeiros, há uma frase que, pelo menos pra mim, repete-se com frequência: "Posso diminuir a costeleta?".
Causa-me irritação ouvir esta frase. A impressão que passa é que sempre minha costeleta está no tamanho errado. Creio que o barbeiro encara essa frase como uma forma educada de dizer "Seu idiota, posso tentar consertar a besteira que você fez no seu rosto?".
Há também uma outra maneira de interpretar essa expressão. Os barbeiros aprendem essa frase no curso de barbeiros. Embora, para eles, a expressão não tenha sentido, os barbeiros a repetem simplesmente para manter a tradição. Particularmente, não acredito nesta versão. Fico com a primeira interpretação.
Os garçons são mestres em repetir frases. A clássica é "E pra beber?". Sem dúvida, é muito mais útil que a dos barbeiros. Outro dia, experimentei responder "Nada pra beber, obrigado".
O garçom ficou chocado. Era algo que não esperava como resposta.
Tais observações não são nada importantes. Muito menos engraçadas. Mas talvez sejam úteis para futuras análises.




Quinta-feira, Dezembro 19, 2002

Há algum tempo ando ausente do espaço que criei para escrever. É como se me ausentasse de mim mesmo.
É uma sensação estranha que angustia. Enquanto não escrevo penso no que escrever. "Lá está minha página pronta para ser preenchida".
Mas estou ocupado e tenso. Meu avô materno está internado no hospital. Os médicos o examinam e nada encontram - ainda bem que nada encontram.
Por duas noites dormi no hospital. O silêncio, a meia-luz, e a sensação de confinamento tornam o ar rarefeito e dificultam a respiração.
O tempo parece não passar. Quando estou lá, sinto-me capaz de sentir cada segundo circular pelas veias.
Mas tenho aprendido bastante nesta semana. Uma semana de sentimentos opostos, mas não menos intensos.
Preocupa-me a situação de vovô. Mas ontem tive um dia de grande alegria. Graduei-me em Jornalismo numa cerimônia de grande emoção.
Nós, seres humanos, somos assim. Opostos por natureza e insatisfeitos por criação.


Segunda-feira, Dezembro 09, 2002

SONHO BRASILEIRO
Certo dia, vi um jovem que andava pela rua. Olhava bancas de jornais, crianças, homens e mulheres. As vitrines das lojas ostentavam toda a riqueza e luxo de seus produtos. Muitos olhavam e poucos compravam.
Nas ruas, miséria, desemprego e fome.
Movido pela angústia, passou então a quebrar as vitrines, as lojas, e as bancas.
Os pedestres assustados nada fizeram - não havia nada que pudesse ser feito.
Corria de olhos fechados e sem direção. As pessoas olhavam. Até que policiais chegaram e tentaram alcançá-lo.
Como o jovem corria como o vento, perderam-no de vista.
Até que ele abriu os olhos e percebeu que tudo não passara de um sonho. As vitrines continuavam a nos esfregar tudo aquilo que não podemos nem precisamos comprar. Ninguém corre pelas ruas indignado. O desemprego é o de sempre.
O jovem levanta-se, olha pela janela e percebe onde está. No mastro preso ao Banco da frente há a mesma bandeira tricolor tremulando ao vento. O verde da desesperança, o amarelo pálido do conformismo e o azul. Bem, o azul de nosso belo mar que do alto das coberturas da zona sul do Rio de Janeiro é observado por aqueles que têm o poder de decisão neste maravilhoso país que é o Brasil.


Sexta-feira, Dezembro 06, 2002

O mundo dá voltas. Este é um chavão terrível, sem dúvida. Mas que, neste exato momento, encaixa-se perfeitamente bem em minha situação de desespero por emprego. Explico. Em todas as entrevistas a que compareço as respostas são sempre as mesmas: "No momento, não há vagas porque tudo está indefinido no país".
O mercado, segundo os jornais (des)informam, está ansioso para saber quem serão os ministros do futuro governo Lula.
O mundo dá voltas realmente, perdoem-me a repetição. Quem diria que a situação do país estaria indefinida pelo fato de Lula não anunciar seu futuro ministério. E quando eu imaginaria que, de certa forma, meu futuro estaria dependendo do Lula anunciar seus ministros?
É curioso e interessante. Estou pensando em enviar uma carta ao presidente eleito clamando por uma definição. Fico até imaginando o texto. "Caro Lula, acabo de me formar em Jornalismo. Ainda não tenho emprego. Dizem-me em todo lugar que vou que a situação nas empresas encontra-se indefinida pelo fato de o senhor não anunciar seus ministros. Por favor, diga logo quem são para que eu possa arrumar um emprego. Muito obrigado".
Tenho quase certeza que isso é uma balela, uma desculpa esfarrapada que me dão. Ora, esse argumento é facilmente derrubado. Até parece que o Brasil sempre esteve uma maravilha e que agora tudo mudou totalmente.
Isso não é verdade. O Brasil sempre foi palco de incertezas e desemprego. Culpar Lula é uma tentativa de desmoralizar um governo que ainda nem assumiu o comando do país. É simplório e injusto. Não me dar um emprego por este motivo, além de rídiculo, é duvidar de minha inteligência.



Segunda-feira, Dezembro 02, 2002

Certa vez, há pouco tempo inclusive, disse que meus óculos eram meus únicos companheiros.
Não me arrependo. Entra dia, sai dia, lá estão eles presos ao meu rosto. Não me abandonam. Para ser sincero, às vezes parece valer a pena ser míope. Há muita coisa que não merece ser vista.
E assim vou levando. Quando estou cansado - não apenas fisicamente - tiro os óculos. Passo até a enxergar melhor. Olho pra dentro e vejo tudo o que ficou escondido durante o dia.
Penso que todo o mundo deveria ser míope. Na verdade, ocorre justamente o oposto. Muita gente diz enxergar muito bem. Não precisa de óculos. Mera ingenuidade. Essas pessoas precisam de lentes mais poderosas. Não sabem o que sentem, não se entendem e não entendem o mundo. Também não querem entender.
Um belo dia, acordam para a vida e percebem que tudo o que construíram não vale a pena. São bens luxuosos e caros. Mas não têm amizade. E aí, pode ser tarde demais.
Mas há solução. Façam um balanço de suas vidas medíocres e superficiais. Ainda há tempo. Há muito bem para ser feito pelo mundo. Humildade não faz mal a ninguém.