Segunda-feira, Janeiro 20, 2003

AO DOUTOR DRAUZIO VARELLA

E agora, doutor?
Você que faz reportagem
Que trocou a seringa pelo microfone
Que já não se veste de branco
Que faz passagem e chamada na TV Globo
E agora, doutor?

Você que roubou meu emprego
Que fala ao público no domingo
Que grava off
Que escreve texto
E agora, doutor?

Eu que estou desempregado
Que fiz Jornalismo na faculdade
Que cassaram a validade do meu diploma
E agora, doutor?

Agora, doutor Drauzio Varella
Dê-me a chave do seu consultório
Eu preciso trabalhar
Façamos uma troca, doutor
Você está no meu lugar
Então eu fico no seu


Sábado, Janeiro 11, 2003

Já estamos em 2003. Mas, como me atrasei, somente agora resolvi escrever sobre este ano que se inicia. Um aspecto interessante é que a TV Globo parece ter abandonado de vez as previsões para o futuro exibidas no último Fantástico de cada ano.
E parece ter feito muito bem. As previsões eram sempre erradas, quando não absurdas.
Por isso, esforcei-me e fiz minhas próprias ¿previsões¿ ¿ principalmente para o mundo jornalístico.
Em 2003, os comentaristas esportivos vão encontrar um novo assunto para substituir o último do ano passado ¿ contar o número de vezes que Robinho passou os pés sobre a bola no drible que originou o pênalti do primeiro gol do Santos na final do campeonato brasileiro.
Um grande articulista com colunas publicadas em vários jornais brasileiros e exposição semanal na televisão continuará a pedir desculpas pela própria ignorância para tentar criar uma imagem de pessoa humilde ¿ o que de fato é uma mentira. Todos sabem quem é ele. Uma pessoa contraditória, sem dúvida, pois, ao mesmo tempo em que escreve belíssimas frases sobre a juventude brasileira que vive nas ruas e clama por uma solução, nem sequer cumprimenta seus colegas de trabalho. Aí não adianta nada, meu amigo.
Os jornais continuarão a fazer reportagens brilhantes e de importância indiscutível para a sociedade, como descobrir se chefes de polícia são ou não surdos.
Como se vê, este ano não será tão diferente do que passou. Por isso e por enquanto fico por aqui nas previsões. É um nicho de mercado interessante e talvez um modo de conseguir uma renda extra. Agora é esperar para ver se o que disse acima vai acontecer. Eu poderia apostar que sim.



Sexta-feira, Janeiro 03, 2003

Não há motivo específico para começar a escrever. Nem há também objetos de inspiração determinados.
Assim como o texto jornalístico, tudo ou nada pode ser objeto de descrição.
Na poesia já é assim. Carlos Drummond de Andrade fazia apenas uma ressalva: nunca escreveria sobre dor de cotovelo e também abominava aqueles que se valiam de momentos de dor para começar a escrever. Apesar do porém do poeta de Itabira, muitos se aproveitam de determinados momentos para criar. Quem somos nós para censurá-los?
Cada um começa de um jeito e por um motivo.
Quem escreve periodicamente passa a educar o olhar. Se é para escrever poesia, creio até que seja mais fácil. Ela está presente o tempo todo.
Daqui da onde escrevo vejo um prédio ao longe. Ele está coberto com um véu branco que voa ao vento sob o céu azul. Não deixa de ser a descrição de uma cena poética. Basta educar o olhar e prestar atenção.
Artigos semanais são mais difíceis. Principalmente, se não há um assunto específico, como é o caso deste blog.
Lembro-me dos tempos de escola. Adorava as aulas de redação em que escrevia estórias incríveis. Porém, qualquer que fosse o tema determinado pela professora, sempre arrumava uma maneira de falar sobre discos voadores e futebol - sempre adorei e continuo a adorar esses assuntos.
É claro que passava por momentos de pouca criatividade. As maiores angústias aconteciam quando a professora mandava-nos escrever sobre o que quiséssemos. Podem me perguntar: "Se gostava tanto de discos voadores e futebol, por que não escrever sobre isso?".
Não, aí não tinha graça. O interessante era que o tema fosse algo do tipo "Descreva as férias de seus sonhos" e, mesmo assim, eu conseguisse falar sobre futebol e discos voadores.
Acho que aprendi muito com as aulas de redação. Percebi que gostava de escrever e que seria ótimo se no futuro - hoje mais do que presente - pudesse sobreviver fazendo algo próximo ao que fazia naquelas aulas. Ainda não consegui alcançar meus objetivos profissionais. Mas isso pouco importa. Ainda tenho minhas aulas de redação.