Sexta-feira, Fevereiro 28, 2003

O tráfico de drogas parece ter percebido o poder que tem nas mãos. Desta vez, além de ônibus queimados no subúrbio do Rio de Janeiro, a violência bateu à porta da classe alta. Ou melhor, da classe mais alta da cidade. Duas granadas foram atiradas contra a portaria de um prédio na avenida Vieira Souto, o metro quadrado residencial mais caro da cidade.
O país mudou e a violência dos criminosos também. Agora, não apenas a parcela menos favorecida dos habitantes da "Cidade Maravilhosa" é a única afetada pela humilhação imposta pelos traficantes. É a demonstração que tudo no país está se tornando mais democrático. Nada mais justo.
A cidade parece ter sempre existido em função dos mais ricos. As leis sempre favorecem aqueles que vivem de frente para o mar. Um buraco no Leblon não merece o mesmo tratamento que um buraco em Rocha Miranda. Os problemas da zona sul sempre mobilizam o poder público de maneira diferente.
Também é assim com a violência. Basta lembrar de um episódio que chocou a cidade há pouco tempo: o seqüestro do ônibus 174. O caso ganhou fama internacional e virou filme aplaudido de pé pela intelectualidade da classe alta carioca. Na platéia, universitários inteligentes e preocupados com a problemática social do Brasil. Num ano, resolvem viajar para os Estados Unidos e fazer curso em Nova Iorque. No ano seguinte, após tocar violão numa universidade cubana, dão um pulinho no Fórum Social Mundial em Porto Alegre para dar sua contribuição nos mais diversos problemas internacionais - as seríssimas e fundamentadas opiniões vão desde o conflito no Oriente Médio ao poderio nuclear de Índia e Coréia do Norte. Sem dúvida, são os engajados do futuro do Brasil.
Casos semelhantes e muitos mais bárbaros ao do ônibus 174 acontecem todos os dias no subúrbio do Rio de Janeiro. Mas sempre são tratados de maneira diferente. São como o buraco numa rua pobre de Rocha Miranda. O poder público não se importa e o Arnaldo Jabor não escreve coluna sobre o assunto no jornal. Tomara que as granadas na Vieira Souto tenham tido alguma utilidade para dar fim à hipocrisia em que está mergulhada a política carioca.


Quinta-feira, Fevereiro 20, 2003

Gosto de etimologia. Estudar ou pelo menos conhecer a origem de algumas palavras me parece bastante interessante.
A palavra "duque", por exemplo, é originária de "dux", que significa guia, em latim.
Observando-se com cuidado, conseguimos fazer associações no mínimo estranhas a partir desses conhecimentos.
Um dos compositores do hino nacional brasileiro foi Duque Estrada. Sendo assim, a tradução literal de seu nome era Guia Estrada. Ou, para completar, Guia da Estrada.
Ora, como as palavras evoluem, nos dias de hoje deveríamos ter o direito de conhecê-lo por diversos nomes: Placa da Estrada (pois indica as direções numa rodovia); Polícia Rodoviária (porque numa estrada podemos parar num posto policial e pedirmos alguma indicação); e, por, conseqüência e motivos óbvios Posto de Gasolina.


Sexta-feira, Fevereiro 14, 2003

Não quero estabelecer verdades definitivas sobre nada. Muito menos, sobre a vida. Um assunto de tamanha importância não pode ser analisado por amadores como eu.
Mas, pensando bem, sou eu o objeto desse teatro de acontecimentos, dramas, felicidades e emoções.. Portanto, tenho sim o direito de analisá-la. Afinal de contas, cada um de nós é o personagem principal e fundamental de nossas vidas.
Quando pequeno, costumava fazer planos e enquadrar tudo o que faria no futuro. Aos 18 anos teria meu carro e minha liberdade - na época, um era conseqüência do outro. Aos 22, já seria O Jornalista. Sim, O Jornalista e não um jornalista.
Mas aí, entra ela na jogada: a vida que, como as marés, vem num turbilhão e nos mostra que nada é fácil.
O futuro chegou e, a cada dia, percebo que podemos sim ter planos. O que não podemos é viver em função deles. Eles devem ser móveis e funcionar da mesma forma que o norte da bússola: apontando uma direção e ao mesmo tempo dando as opções de sul, leste e oeste.
Nesses últimos dias, tive que me resignar com uma série de acontecimentos. O famoso imponderável. Os planos não foram deixados de lado. Simplesmente, aprendi a conviver com o inesperado e a sobreviver às ondas fortes de uma maré inesperada e violenta. Não adianta lutar contra o mar revolto. É preciso saber boiar para ter a grata surpresa de acordar intacto na beira da praia.




Segunda-feira, Fevereiro 10, 2003

O Passado sempre me agradou. Parece-me mais seguro. Ele já foi e está feito, mesmo que errado. É uma obra acabada como uma cicatriz: pode ser feia e indesejada mas é imóvel e definitiva. Muita gente vai parar no divã por causa disso - pelo passado, não pelas cicatrizes.
Podemos tentar ao máximo rejeitar o passado. Porém, por mais que nos esforcemos para escondê-lo, ele é mais esperto. Esconde-se primeiro no famoso subconsciente.
Admiro a psicanálise, mas admito que a entendo muito pouco.
Como não há teoria unânime, ela também enfrenta seus inimigos. Meu avô paterno é um deles. Segundo meu tio - filho dele -, para meu avô, a psicanálise é uma conspiração cujo objetivo é provar que ele era apaixonado por seu pai. Coisas do meu avô.
Mas, voltando aos devaneios temporais, o futuro é sempre uma temeridade. Uma incógnita que fascina e amedronta.
Como os que lêem esta página já devem saber, estou desempregado. Digo "estou" justamente por causa do futuro. Nessa confusão de tempos verbais que traduzem o tempo real, o presente se torna um gerúndio que inevitavelmente vai dar num futuro. Um bom e feliz futuro, espero.
A felicidade é outro conceito interessante. Penso muito sobre ela. Mas prefiro não falar sobre isso nesse meu presente-gerúndio. Não quero transformar esse texto num imperativo de questionamentos.