Domingo, Abril 27, 2003

Um prédio é algo realmente estranho. Não apenas pela aparência - que lembra muito uma caixa cheia de compartimentos - , mas também pela convivência entre seus moradores.

Nos dias de hoje, é difícil encontrar um edifício onde vizinhos não se encontrem apenas no elevador. Há muitos anos, vizinhos eram os melhores amigos. Companheiros para todos os momentos. Não é mais assim.
Agora, todos dentro da caixa e cada um em seu pequeno compartimento. Não sei como vive meu vizinho do apartamento de baixo. Não sei se é artista, se escreve ou pinta. Não sei nada sobre sua vida.

A sociedade de hoje é muito estranha. As salas de bate-papo na internet vivem lotadas. É uma multidão de carentes cujos diálogos eletrônicos não evoluem para nada além do simplório.

Os vizinhos, símbolos de um tempo que já passou, recolhem-se a seus apartamentos e se trancam na própria solidão. Reflexo do medo. Não apenas medo de sair de casa e sofrer a violência do cotidiano - aquela que vai parar nas manchetes dos jornais. É muito mais grave. É medo de se expor, de se
abrir para relações humanas verdadeiras.

Não sou psicanalista ou cientista social. Mas, pelo que observo, o mundo, a economia e a publicidade parecem ter conseguido alcançar o objetivo de transformar todo o tipo de relação humana em produto de mercado. Quem quer contato humano procura o "Tele-Qualquer Coisa" que oferece amigos e sexo.

Ninguém parece mais querer travar uma relação genuína. Relações de amizade duradouras em que sejamos obrigados a receber e doar.
Tudo parece ser mais importante. Não temos tempo a perder. O trabalho e a busca por lucro não podem esperar. Afinal, a relação humana não deposita dinheiro no banco.

O ser humano quer pagar para obter relações superficiais. Nada que tome muito tempo. Nada que exija dedicação. E assim o mercado encontra a cada dia populações dispostas a pagar por experiências breves - como as salas de bate-papo -, sem compromisso real e de fácil interrupção. É simples: para encerrar a conversa, basta desconectar.



Sexta-feira, Abril 11, 2003


Política Externa Brasiliera
Por Henry Galsky

A política externa de um estado pode ser definida como aquela que exprime as relações internas de uma nação e expressa seus valores. Ao analisarmos a história do Brasil, podemos identificar as políticas externas nacionais.

Da época da colônia ao início da República, o país preocupou-se em estabelecer suas fronteiras definitivas e reconhecer sua soberania. Somente nos primeiros anos da república, já sob o comando do Barão do Rio Branco, o Brasil passou a definir estratégias internacionais.

Durante a Segunda Guerra Mundial, após a apagada atuação no primeiro conflito, a diplomacia de Getúlio Vargas mostrou-se ambígua e flertou com os nazi-fascistas.

Com Juscelino Kubitschek, o país abriu suas portas ao mercado externo, principalmente no setor automobilístico. Também, em 1958, deu início ao desenvolvimento da Organização Pan-americana (OPA). Participavam ainda da iniciativa ¿ que mais tarde daria origem ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ¿ Argentina e Venezuela.

Jânio Quadros inaugurou uma estratégia de política externa independente. Buscou aproximar-se ao grupo dos países não-alinhados aos Estados Unidos e à União Soviética e aos países do continente africano.

Após o golpe de 1964, os presidentes militares deram continuidade à política externa de seus antecessores. Alguns episódios merecem destaque, como a não assinatura do Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas, pelo presidente Costa e Silva, em 1968; a doutrina de segurança nacional de Médici; e o ¿pragmatismo responsável¿ de Ernesto Geisel.

O último militar a ocupar a presidência, João Baptista Figueiredo, buscou uma aproximação com a Argentina e firmou acordos entre os dois países.

José Sarney, primeiro presidente após a reabertura política, assinou, em 1991, o Tratado de Assunção, o embrião do Mercosul.

Fernando Collor de Mello participou da formação do GATT, o Acordo Geral de Tarifa e Comércio, que, em 1995, originou a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Já seu sucessor, Itamar Franco, participou da assinatura do Protocolo de Ouro Preto, que unia as aduanas dos países do Mercosul..

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pode ser considerado o representante que mais se preocupou com a política externa nacional. FHC incumbiu-se de representar pessoalmente o país no exterior. Foi muitas vezes criticado por isso devido ao excessivo número de viagens internacionais.
Ao longo de sua história, o Brasil apresenta algumas características permanentes na condução de sua política externa.

O país segue alguns princípios, como a não-intervenção e o não-voluntarismo. Considera a autonomia um valor fundamental e assume um caráter unitário no cenário interno e externo. O Brasil é visto internacionalmente como uma país pacífico. Há mais de 125 anos, vive em paz com seus vizinhos. Por isso mesmo, é capaz de exercer ¿ e exerce ¿ a liderança em questões de segurança regionais.

Desde a década de 1990, exerce uma liderança legítima, principalmente em conferências e fóruns sociais mundiais.

Entretanto, falta ao Brasil uma estratégia de política externa mais agressiva ao tratar de seus interesses públicos e privados.

O Itamaraty não se empenha em formar negociadores capazes de dialogar de igual para igual com os países desenvolvidos nos embates realizados em organismos multilaterais, como a Organização Mundial de Comércio (OMC).

O Ministério das Relações Exteriores parece priorizar a forma ao conteúdo. A instituição deixa transparecer uma visão romântica das relações internacionais totalmente descabida nos dias de hoje. Seus representantes são formados apenas para levar a imagem do Brasil ao exterior e acabam por deixar de lado questões fundamentais como comércio e economia internacional.

O Brasil tem hoje um PIB de mais de 880 bilhões de dólares e uma população de mais de 170 milhões de habitantes. Por isso, não pode almejar apenas à liderança regional, nem continuar com a atual e acanhada projeção internacional. Como diria Paulo Roberto de Almeida, doutor em ciências sociais, mestre em planejamento econômico e autor do livro Formação da Diplomacia Econômica no Brasil, ¿a preservação das linhas básicas da política externa brasileira ao longo das décadas deve-se a seu caráter intelectualmente reflexivo, politicamente cauteloso, operacionalmente coordenado e essencialmente discreto¿. É muito pouco para um país como o Brasil.



Quarta-feira, Abril 09, 2003

Tenho estado um pouco calado. Não escrevo há duas semanas. Mas continuo pensativo e observador. Não sei se isso é um bom sinal, mas é uma característica que se repete.

A partir dessas observações escrevi um conto. Foi meu primeiro conto. Não sei se ficou bom ou ruim e, na verdade, isso pouco importa. O que importa é que escrevi um conto e evitei mensagens telegráficas como essas acima.
Em meus pensamentos metalingüísticos e depois de escrever este pequeno conto, percebi que o personagem principal é um auto-retrato. Todos os escritores fazem isso. Cada um retrata suas memórias e se expõe. Pessoas reservadas se transformam. Isso é o fascinante. Pode parecer falta de criatividade falar de si em textos. Mas não é. Cada um expõe o mundo e coloca suas experiências numa bandeja.

Quem lê muitos autores passa a enxergar o mundo através de um prisma. Vários ângulos do mesmo objeto. A cidade para autores como Rubem Fonseca, Machado de Assis e Carlos Heitor Cony é um palco habitado por personagens prontos para serem estudados e analisados. Esses autores são muito mais que romancistas. São analistas da realidade. É muito importante lê-los. Graças a seus livros, passamos a nos enxergar.

Gosto muitos desses autores que retratam o cotidiano de forma simples e direta. Eles nos dizem o que muitas vezes não conseguimos visualizar em nossas vidas por estarmos envolvidos com os problemas e situações que dão origem aos livros. Ler um livro de Cony ou um conto de Rubem Fonseca é como olharmos num espelho que reflete nossa imagem num foco distante. Assim, distante o suficiente, podemos pensar sobre nossas vidas de maneira que não faríamos na confusão do dia-a-dia.