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Domingo, Maio 25, 2003
O ENCONTRO
Por Henry Galsky
Ontem tive o grande prazer de participar de um encontro de minha turma da escola. Havia cinco anos que não nos encontrávamos oficialmente. E, de fato, não via algumas pessoas desde a nossa formatura, em novembro de 1998.
Houve um churrasco na casa do amigo Alexandre Oelsner, em Teresópolis. Encontrar estas pessoas que fazem inegavelmente parte de minha vida foi uma experiência feliz e, pra falar a verdade, poética. Foi como participar de um episódio da série Wonder Years. Voltamos no tempo e o mais curioso é que tive a impressão de que o tempo não havia passado. É como se nossas vidas tivessem sofrido uma interrupção e somente ontem nos demos conta disso. Nesses cinco anos de "separação" formal cada um de nós viveu experiências totalmente individuais e únicas. Crescemos, sofremos, rimos e choramos muito desde 12 de novembro de 1998.
Depois de anos na Escola, saímos para a vida. Foi como sair de um banho quente e entrar num inverno rigoroso. Como muito bem lembrou o amigo Alexandre Figer, na escola todos tínhamos uma história. Na faculdade passamos a ser mais um número, mais um diferente. Chegamos à universidade sem passado diante daquelas pessoas que não conhecíamos. Tivemos que nos construir de certa forma.
Ontem, pude ver a alegria nos rostos dos amigos e amigas de tantos anos. Os risos, as brincadeiras e os abraços eram realmente sinceros. Estávamos todos felizes por voltarmos a ser aquelas mesmas pessoas de cinco ou mais anos atrás. O mais interessante é que, por mais que tenhamos mudado, voltamos a interpretar os mesmos personagens dos tempos de escola. Cada um com seu papel. Foi uma experiência feliz e única que não sabemos quando vai se repetir. Não sabemos como será o futuro, mas sabemos quem somos pois temos consciência de nossas origens. Somos aquilo que vivemos e as amizades que cultivamos. O futuro é uma incógnita e, como diz a música que escuto neste momento, The answer is blowing in the wind.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 7:50 PM - Comentários:
Segunda-feira, Maio 19, 2003
A ESCADA DE PAPEL
Por Henry Galsky
Leio no momento mais um livro de Carlos Heitor Cony. "A Casa do Poeta Trágico" é mais um desses livros geniais que parecem transferir o leitor para dentro dos acontecimentos. Ao lê-lo tenho a impressão de que as lembranças de Cony são minhas, de certa forma.
Acabo misturando realidade e ficção. Algumas vezes me pego pensando no livro como se fosse a recordação de parte de minha própria vida. Em determinado momento, Cony descreve um homem que parece estar eternamente com a aparência do dia anterior devido à barba por fazer e à roupa descuidada. Ele define-o como o Homem-véspera.
Essa é uma definição bastante interessante. De alguma maneira, todos temos um pouco do Homem-véspera. Nutrimos sentimentos que são fruto de nossas experiências passadas, de recordações e de relações inacabadas.
Também damos importância ao que de fato não tem importância nenhuma. Valorizamos nossos cargos profissionais, carreiras e tudo o mais que é, digamos, "classificável". Somos os seres descritos pelos números de nossos crachás - analista I, assistente III, relator júnior ou sênior.
Mas a sociedade parece nos impor e nos carregar como um funil para determinado caminho. O problema é que muitas vezes esse caminho não era o que esperávamos. O pior é que muitas vezes não temos a opção de mudá-lo. Quando se espera demais de si mesmo e das oportunidades da vida, a queda pode ser muito grande. É como subir numa grande escada de papel. Um dia ela vai ceder.
Infelizmente, a sociedade ocidental parece a cada dia criar seus filhos como futuros "reizinhos" do universo. Crescemos como filhos prodígios e possíveis - e prováveis - homens das grandes decisões. Mas aí o tempo passa e o venerável futuro que crescemos esperando parece nunca chegar. A decepção é grande e a sociedade acaba formada por gente frustrada e desestimulada. O certo seria se todos fôssemos criados realisticamente sabendo que as grandes mentes do planeta tiveram um empurrãozinho da sorte e do destino e que correspondem apenas à ínfima parcela de todos nós. Ao invés de falarem para os filhos sobre um futuro brilhante, as mães deveriam lhes exibir filmes como "O Clube da Luta" . Assim, todos poderíamos refletir sobre pensamentos como os do personagem Tyler, que em certo momento dispara: "Por que você é especial?".
A mensagem de falas como essa é bastante simples, direta, didática e eficiente. Não temos um destino glorioso à nossa espera . Aliás, boa parte de todos nós talvez nunca chegue a realizar um terço sequer do que planejamos. Basta olhar em volta para se dar conta de tudo isso. O que lhe faz diferente de seu vizinho desempregado ou do seu primo que não consegue comprar um apartamento próprio. Resumindo: por que você é especial?
 Viva
Voz por Henry Galsky às 4:15 PM - Comentários:
Sexta-feira, Maio 09, 2003
A VIOLÊNCIA E OS BARES DA ORLA CARIOCA
Por Henry Galsky
O Rio de Janeiro é uma cidade realmente particular. Nesse lugar único, vanguarda da cultura mundial - o pessoal da zona sul realmente acha isso - tudo vira moda. E, dessa vez, a violência virou moda. É "cult" falar de violência. Até o pessoal que vive à beira-mar (admito que foi de propósito) passou a se interessar pelo assunto que antes parecia restrito aos párias da cidade - ou seja, todo o resto que corresponde à maioria esmagadora de seus habitantes.
Sem dúvida, os jornais exercem um papel fundamental nessa história toda. Depois de extrair tudo do caso Gabriela, chegou a vez de sugar até a última gota do caso da estudante de enfermagem Luciana Novaes, baleada nas dependências da Universidade Estácio de Sá. Temos, sem dúvida, o direito à informação. O problema é que os casos se sucedem por aqui e nenhuma análise é feita de fato.
Tudo parece conspirar a favor da notícia. Os jornais, é claro, adoram. Nós, entretanto, continuamos a consumir os produtos da mídia em busca de novidades sobre a violência da última madrugada. Entra dia, sai dia, e tudo continua da mesma forma.
Nesta última madrugada, os traficantes comunicaram ao colégio Andrews que não haveria aula. O que surpreende é que o Andrews não fica em nenhum beco de favela. Pelo contrário. O colégio têm sedes na zona sul e a que foi intimada a fechar as portas fica no bairro do Humaitá, pertinho da Lagoa Rodrigo de Freitas. Opa. Aí não pode. Fechar o Andrews já é demais! Figuras públicas e aclamadas pela inteligência de nossa cidade estudaram neste colégio. É o caso do humorista Luis Fernando Guimarães e do ator, diretor e multimídia Miguel Falabela.
Desta vez, esses traficantes passaram dos limites. Cruzaram as fronteiras do mundo conhecido e levantaram a ira do povo carioca! O Rio exige uma reposta. E já houve manifestações enfurecidas. No jornal "O Globo" de hoje, o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino, José Antônio Teixeira, fez seu papel de representante de todas as escolas do Rio de Janeiro e disparou: "Ou os diretores de escolas e as autoridades se reúnem para solucionar o problema ou continuaremos sujeitos à histeria". O problema é que essa mesma histeria que atinge hoje a zona sul já faz parte do cotidiano de milhares de crianças e jovens da zona norte há bastante tempo. Onde esse representante estava quando colégios públicos municipais foram fechados por mais de uma dezena de vezes no último ano?
Mas a cidade é realmente fashion. A manchete do Globo de hoje é "Cultura do medo se espalha no Rio". Obviamente, o Rio não sente apenas medo. O Rio produz uma cultura do medo. Provavelmente, a mesma cultura representada por nossos líderes artísticos como os cineastas Cacá Diegues e Arnaldo Jabor. Como se vê, todo o povo do Rio de Janeiro está repsentado nacional e internacionalmente. E muito bem representado.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 9:30 AM - Comentários:
A PAZ NA RESOLUÇÃO DE CONFLITOS
Por Henry Galsky
Em tempos de inúmeros conflitos ao redor do planeta, é de suma importância para quem lida com as Relações Internacionais compreender alguns dos principais meios pacíficos para a resolução de enfrentamentos. Para escolher a opção a ser empregada é preciso levar-se em conta as particularidades dos países envolvidos e do próprio conflito em si.
A negociação apresenta-se como uma forma de resolução de conflitos bilateral ou multilateralmente. Na prática, vem se mostrando mais eficiente quando executada oficiosamente. Ou seja, os Estados só vão a público anunciar as medidas que serão adotadas após considerável tempo de negociação secreta e, pode-se dizer, informal. Foi assim na rodada de negociações de paz entre Israel e os palestinos no que se convencionou chamar de "Acordos de Oslo", de 1993.
No meio de solução de conflitos conhecido como bons ofícios, um terceiro Estado interfere para promover conversações. É importante ressaltar que ele atua como uma espécie de financiador do encontro entre as partes e estas devem aceitá-lo como tal. O bom oficiante não apresenta ou propõe uma solução para põr fim ao conflito.
A chamada arbitragem de conflito pode ser dividida de duas maneiras: a priori e a posteriori. Na arbitragem a priori, dois países elegem formalmente um terceiro Estado que deverá atuar como árbitro em caso de conflito entre eles. Já a posteriori, os Estados em enfrentamento só elegerão um árbitro após o conflito já ter sido iniciado.
A escolha dos meios pacíficos a serem empregados na resolução de conflitos é bastante particular. A variedade de opções para a tomada de soluções pacíficas mostra a evolução do Direito Internacional e da própria humanidade que, partir da redação da Carta de São Francisco - que deu origem à ONU, em 1945 - deixa claro a busca pela manutenção da paz mundial como objetivo principal.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 7:47 AM - Comentários:
Sexta-feira, Maio 02, 2003
O PASSADO QUE BATE À PORTA
Por Henry Galsky
A década de 80 é conhecida como a década perdida. A guerra fria continuava a regular e dividir as relações entre os países e projetos econômicos milagrosos, como o brasileiro, mostravam-se falsos. Tudo isso é verdade. Por outro lado, o Brasil contava com jovens contestadores e criativos que gritaram para conseguir eleições diretas, inventaram músicas de protesto e um caldo de cultura que nos influencia até hoje.
Veio a década de 90 e os anos 80 continuaram a nortear o pensamento e a cultura dos jovens - mesmo daqueles que, inclusive, nasceram no final da década de 80.
O século 20 terminou e tudo parece inalterado. As rádios continuam a tocar Cazuza, Ira!, Legião Urbana. Os Titãs já se reinventaram uma dezena de vezes e um dos livros mais vendidos atualmente conta a história de vida desses grupos.
Sou um fã da década de 80. Mas creio que o amor a estes tempos deve-se mais à falta de opção do que à real qualidade do que foi produzido há vinte anos. Se aquela década foi perdida, considero a nossa geração formada por jovens perdidos. Recorro à minha própria vida para explicar melhor o que tento dizer. Acabo de falar com um grande amigo da faculdade. Assim como ele, outros 70 jovens de minha turma estão desempregados. São pessoas alegres, cultas, interessadas e inteligentes, mas que não têm oportunidade de mostrar seu valor. Nossa turma era considerada como uma das melhores da história da faculdade e, segundo os professores, tínhamos um futuro promissor.
Acabamos de nos formar. Já são quatro meses correndo atrás de emprego e obtendo sempre as mesmas respostas. Cada dia que passa é um dia a menos para procurar. A faculdade ficou para trás e a realidade esperançosa dos alegres dias ensolarados na Facha parece cada vez mais distante. Quem está empregado também não está satisfeito e recebe salários de nível médio.
Chega um tempo em que você acorda e tudo parece frio. A realidade em preto-e-branco de um dia que você já sabe como vai terminar. Você se lembra de seus sonhos de infância e vê que a possibilidade de realizá-los é pequena. É por tudo isso que amamos a década de 80. Eram tempos mais seguros, mais felizes e despreocupados. Por isso, acabamos nos apegando a tudo aquilo que nos lembra aqueles dias de sonhos. Os dias em que tínhamos esperança de ser tudo aquilo que não somos.
Hoje, nutrimos um medo do amanhã. Medo de que daqui a dez anos acordemos como hoje. Medo de olhar no espelho e pensar que nos arrependemos de tudo o que fizemos. Uma vontade de voltar no tempo e fazer novas opções. Escolher caminhos diferentes e mudar de vida. Na maravilhosa Era da Tecnologia, nosso maior medo é não conseguir ao menos dar a nossos filhos que ainda não nasceram o mesmo que nossos pais nos deram.
Por tudo isso amamos a década de 80. Um tempo em que não havia medo e, por pior que a economia estivesse, sempre se dava um jeito. Agora somos obrigados a assumir a responsabilidade. Mas nada parece adiantar. Como diria um slogan antigo da TV Globo, "O Futuro já Começou". O problema é que querem nos excluir dele. Tentamos entrar, mas a porta não se abre. Por isso, voltamos à segurança da casa de nossos pais e lembramos de um tempo que já passou.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 12:40 PM - Comentários:
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