|
|
Domingo, Junho 29, 2003
TRÉGUA ESTRATÉGICA
Por Henry Galsky
 Nesta semana, o grupo terrorista palestino Hamas comprometeu-se a aceitar uma trégua de três meses com Israel, que, por sua vez, aceitou retirar suas tropas da Faixa de Gaza e de Belém. A esperança de que uma paz duradoura e negociável seja alcançada renova-se no Oriente Médio e no mundo inteiro. Não imaginem, porém, que isso vá fazer com que judeus e árabes mergulhem na tolerância religiosa que um dia existiu na Espanha da Época de Ouro. É um erro pensar que assinaturas de representantes políticos sejam capazes de acalmar ânimos e encerrar o sentimento de ódio.
Entretanto, é mais uma tentativa de convivência. Como disse certa vez o escritor israelense Amós Óz, uma possível relação pacífica entre judeus e palestinos poderá ser comparada a de um casal divorciado. Talvez cheguem a entendimentos sobre a posse de imóveis, bens e guarda dos filhos. Mas nenhum entendimento alcançado numa audiência com um Juiz será capaz de fazer com que reatem o relacionamento. O máximo que poderá ser atingido é um compromisso de não-agressão. Ou seja, dois estados que fazem fronteira, mas que não tenham qualquer tipo de relação ou intercâmbio - seja ele qual for.
Mas, com razão, deve-se duvidar de qualquer acordo firmado com um grupo terrorista como o Hamas, que, há apenas uma semana, continuava a afirmar que os ataques a civis israelenses nunca teriam fim, mesmo após a criação de um Estado palestino. É bom lembrar que o objetivo do Hamas não é apenas criação de um Estado palestino, mas a sobreposição deste Estado a Israel. Explico: o objetivo final do Hamas é acabar com Israel, expulsar toda a sua população e, por fim, construir um Estado palestino em seu lugar. É realmente estranho que um semana depois de ressaltar tal objetivo eles estejam dispostos a aceitar um cessar-fogo em troca da retirada de Israel da Faixa de Gaza e de Belém.
Provavelmente, o Hamas quer um parada estratégica nos ataques a Israel. Depois que o Estado Judeu eliminou boa parte de seus líderes, o Hamas precisa de tempo para promover novas lideranças e, obviamente, reabastecer seu arsenal de terror. Não tenham dúvidas, meus amigos. Os ataques terroristas - ou "assassinatos não-seletivos", como bem disse o embaixador de Israel no Brasil, Daniel Gazit" - não vão parar.
Seria ótimo se um dia a convivência pacífica - no modelo de casal divorciado, de Amós Óz - chegasse a se realizar. Mas não há como negociar com grupos terroristas como o Hamas, que não querem negociação e que afirmam que vão continuar a se explodir enquanto houver judeus em Israel, que eles chamam apenas de "entidade sionista". Não há como pensar em punição para alguém que está disposto a se explodir e a levar a maior quantidade de judeus junto.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 1:55 PM - Comentários:
Sexta-feira, Junho 27, 2003
MEU ENCONTRO COM HOLDEN CAUFIELD
Por Henry Galsky
 Depois de assistir ao filme Matrix, há duas semanas, resolvi dar uma volta no shopping. Entrei na livraria e me dei de cara com "O Apanhador no Campo de Centeio", cultuado livro de J.D. Salinger. Há algum tempo tinha vontade de lê-lo e, por isso, decidi comprar o livro. Foram 33 reais bem gastos.
A obra já causa estranhamento logo no primeiro contato. Na atual edição prateada não há nenhum tipo de apresentação, como é de praxe na maioria dos livros. Não há uma linha sequer na orelha e na contra-capa do livro. Nada de resumos ou informações sobre o autor ou outras obras suas. Creio que tudo isso seja uma figura de linguagem e, como sabemos, a falta de informação já é em si a própria informação.
Não posso negar minha identificação com o livro e com Holden Caufield, o personagem principal. A narrativa de Salinger é em primeira pessoa, o que nos dá a sensação de sermos a platéia mental de Holden, que diverte-se confidenciando suas mentiras e impressões sobre o mundo e as pessoas que o cercam.
Ele tem 16 anos e, expulso do colégio Pencey, resolve viver um breve período de liberdade e aventuras em Nova Iorque até que seus pais recebam o comunicado de sua expulsão. Não vou contar todas as suas aventuras, mas Holden é um rapaz bastante angustiado, decepcionado e revoltado - talvez daí tenha vindo minha identificação com o livro. Salinger constrói um personagem cujo mérito é admitir suas fraquezas, vulnerabilidades e ansiedades em relação a um mundo que parece pouco receptivo.
Cada um de nós tem um Holden Caufield dentro de si. Revolta e angústia é algo que o mundo moderno nos faz sentir a todo instante. "O Apanhador no Campo de Centeio" é um livro que vale a pena ser lido, tanto pela sinceridade de Holden, quanto pela bela ambientação da história numa Nova Iorque da década de 40 que, a partir das impressões de um solitário personagem principal, nos faz lembrar um belo quadro de Edward Hooper, com todo o seu silêncio, solidão e depressão urbana.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 1:16 PM - Comentários:
Quinta-feira, Junho 19, 2003
SONHO BRASILEIRO
Por Henry Galsky
Certo dia, vi um jovem que andava pela rua. Olhava bancas de jornais, crianças, homens e mulheres. As vitrines das lojas ostentavam toda a riqueza e luxo de seus produtos. Muitos olhavam e poucos compravam.
Nas ruas, miséria, desemprego e fome.
Movido pela angústia, passou então a quebrar as vitrines, as lojas, e as bancas.
Os pedestres assustados nada fizeram - não havia nada que pudesse ser feito.
Corria de olhos fechados e sem direção. As pessoas olhavam. Até que policiais chegaram e correram atrás dele.
Como o jovem corria como o vento, perderam-no de vista.
Até que ele abriu os olhos e percebeu que tudo não passara de um sonho. As vitrines continuavam a nos esfregar tudo aquilo que não podemos nem precisamos comprar. Ninguém corre pelas ruas indignado. O desemprego é o de sempre.
O jovem levanta-se, olha pela janela e percebe onde está. No mastro preso ao Banco da frente há a mesma bandeira de sempre tremulando tricolor ao vento. O verde da desesperança, o amarelo pálido do conformismo e o azul. Bem, o azul de nosso belo mar que do alto das coberturas da zona sul do Rio de Janeiro é observado por aqueles que têm o poder de decisão neste maravilhoso país que é o Brasil.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 6:57 PM - Comentários:
Sexta-feira, Junho 13, 2003
GENERALIZAÇÃO
Por Henry Galsky
Algumas generalizações medíocres parecem ter alcançado o status de comprovação científica. Não se sabe ao certo o motivo, mas muita gente considerada importante continua a repetir bobagens absolutas. Um dos casos mais conhecidos e difundidos é a afirmação de que a juventude é alienada.
Não sou aquele tipo de pessoa que se considera um eterno jovem ou que se atribui esta característica como quem tem orgulho de pertencer a um determinado grupo étnico, nacional, religioso ou futebolístico. Mas me revolto a cada vez que escuto esse tipo de generalização. Primeiro, pelo simples fato de ser uma generalização. Quem me conhece sabe que sou totalmente contra essa mania de associar características quaisquer a grupos de seres humanos. Aquela mania nacional de dizer que os pretos são isso, os judeus aquilo e por aí vai. Voltando ao caso específico dos jovens, causa-me revolta a quantidade de gente que sai repetindo essas afirmações sem ao menos parar para refletir. Será que os jovens nada fizeram de interessante nos últimos tempos? E vamos pensar sem nosso habitual ufanismo esportivo.
Há música boa sendo produzida pelo mundo. Grupos como Radiohead ou Cake investem na composição de letras irônicas e, muitas vezes, depressivas como forma de questionar e explicar a realidade . Há uma letra do Cake bastante interessante que ironiza a proliferação das novas religiões (We are building a religion / We are building it bigger / We are widening the corridors / And adding more lanes). Nada mais atual.
A cultura é uma via de mão dupla. Ou pelo menos deveria ser. Democratizá-la é permitir que seus consumidores também possam interfeir na produção. E esta é a chave do problema. Não é apenas da cultura que esse grupo é excluído. A discriminação também ocorre no mercado de trabalho. Os jovens são sempre os alvos preferenciais das campanhas de publicidade, mas curiosamente são as maiores vítimas do desemprego. Na semana passada, a revista veja publicou uma reportagem sobre desemprego no Brasil. Enquanto que, para o total da população, o desemprego atinge uma taxa de 20% - um número altíssimo -, 44% das pessoas com idades entre 18 e 24 anos estão fora do mercado formal.
A conclusão a que se chega é perversa. Para as empresas, estamos aptos a consumir sem parar. Podemos ser bombardeados dia e noite com campanhas publicitárias que querem nos empurrar desde tênis com design arrojado a biscoitos maravilhosos com sabor artificial de banana. Mas, para essas mesmas empresas, não temos condição de pôr em prática tudo que aprendemos ao longo de nossa vida acadêmica. Essa é uma solução pouco inteligente. Sem emprego, não podemos consumir seus produtos. Mas, se não consumirmos, as empresas serão obrigadas a demitir e, então, daremos as mãos implorando por empregos decentes nas portas dos shoppings centers.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 4:37 PM - Comentários:
Terça-feira, Junho 10, 2003
ANIVERSÁRIO
Por Henry Galsky
Faço academia de musculação. E, pra falar a verdade, quando estou lá dentro tenho a impressão de estar perdendo um tempo valioso. De fato, estou. A cada minuto corrido na esteira, sei que poderia estar fazendo algo mais interessante. Escrever para esse site, por exemplo. Ou ler um livro, ou ver um filme, ou qualquer coisa.
Por outro lado, sei que preciso fazer exercício físico. Sempre gostei de esporte. Quando pequeno, já tinha minha vida toda planejada em função disso. Aos 15 anos, seria aprovado numa seleção para o Flamengo. Aos 18, faria meu primeiro gol num domingo à tarde de Maracanã lotado.
Infelizmente, não foi bem assim que aconteceu. Virei jornalista, mas continuo indo ao Maracanã. Por falar em planos, ontem completei 23 anos. Uma idade um tanto quanto estranha. É um número pouco aerodinâmico e feio, ao contrário de 25 ou sete, por exemplo.
Mas, voltando ao assunto. Os planos continuam e a cada ano que se completa temos a impressão de que realizá-los torna-se muito mais urgente. Tenho alguns planos em mente. Na verdade, vários. Sei que, não importa quando, eles vão se tornar realidade.
Ao mesmo tempo, a cada novo aniversário, percebo como essas datas são estranhas. Quando começamos a nos habituar à idade, pronto: lá vem mais um ano para complicar tudo. Um ano novo também é uma nova chance. Um raiar de um dia ensolarado pronto para que possamos transformá-lo no que quisermos.
Aniversários também podem se tornar bastante constrangedores. Coisas do tipo "Parabéns pra você" no meio do restaurante do trabalho podem ser bastante desagradáveis. Ou fazer uma grande besteira no dia do aniversário e gerar comentários como "foi fazer isso logo hoje. Vai ser demitido exatamente no aniversário". Certamente, meu aniversário também me proporcionou escrever um dos piores textos do site. O que posso fazer?
 Viva
Voz por Henry Galsky às 9:28 AM - Comentários:
Quarta-feira, Junho 04, 2003
A PROCURA
Por Henry Galsky
Continuo a procurar. Assim como todo mundo, continuo a procurar. Não sei ao certo o que procurar. Ando pelas ruas. Afinal, não há lugar melhor para quem quer estudar as vísceras de nossa sociedade doente. Os becos, as valas, os bairros do subúrbio. Telegrafando sentimentos, cores, viadutos e faces estranhas, ando sem sentido. A cada centímetro um novo rosto se apresenta.
Nos museus, bibliotecas e nas manifestações leio os livros em que assinam os que comparecem aos eventos. De nome em nome, acabo me perdendo. Parece contraditório, mas essa busca não me leva a lugar algum. Como todo mundo, lá vou eu fazendo generalizações. Procuro um sentido. Vasculho os cantos da cidade justamente para verificar que não vou deixar pedra sobre pedra.
Mas não se espantem. Já encontrei o sentido da vida e não é essa a dúvida que me atormenta. Procuro outro tipo de coisa. Minhas andanças têm objetivo apenas rotineiro. É como ir ao trabalho ou à escola. Vamos sem nos perguntar a razão de nossa ida. Apenas vamos. Uma palavra apenas resume a vida: cotidiano. Todos buscam construir um cotidiano. É por isso que quem quer "chegar lá" passa mais de quinze anos estudando. Apenas para encontrar um cotidiano e se encaixar em algum lugar. Precisamos construir mais lugares para encaixar o cotidiano. Boa parte da população humana procura uma rotina para si.
Eu não. Não tenho o direito de fazer isso. Como a própria vida é viva, não posso prendê-la na rotina. Por isso, escolhi outro caminho. A cada dia, um lugar diferente. A cada segundo, pessoas novas. Meu roteiro não se repete e me orgilho disso. As buscas são úteis por si mesmas. Caminho com a esperança de esbarrar numa grande descoberta - rever um amigo de muito tempo ou conseguir fugir de mim mesmo.
Uns querem casa, trabalho, escova de dente, consulta no médico uma vez por ano. Eu arranjei parceira que não me permite estabilidade. A vida viva que me puxa pela mão a cada novo dia. O raiar do sol é sempre prefácio de um livro desordenado, de páginas em branco que esperam ser preenchidas
 Viva
Voz por Henry Galsky às 9:44 AM - Comentários:
|