Terça-feira, Agosto 26, 2003

Cultura
OPINIÃO ALHEIA
Por Henry Galsky

Respeito todas as atividades profissionais. Mas, como em toda a regra há sempre uma exceção, não fico de fora do ditado e expresso aqui minha antipatia pelo trabalho da crítica. Também deixo claro que, para não me contradizer, não tenho preconceitos. Desconfio de todo o tipo de crítica, seja ela qual for. Não consigo entender uma classe profissional que, muitas vezes, consegue destruir o trabalho alheio.

O que mais me irrita é que é o crítico na participa da produção cultural. Nunca vi um crítico fazer um filme ou uma peça de teatro. Já os vi escrever livros sobre crítica, é claro. Aliás, vejo muitas semelhanças entre os críticos e os árbitros esportivos. Um árbitro de futebol, por exemplo. Geralmente, foi um menino apaixonado pelo esporte, mas que sempre jogou mal e nunca era escolhido pra fazer parte do time. Mas ele gostava de futebol e queria participar do jogo de alguma maneira. Pronto. Nasce ali um goleiro. E se nem pra goleiro ele servir? Eis aí um futuro árbitro de futebol.

Creio que os críticos também sejam assim. Gostam de cinema, literatura ou teatro - ou de todos ao mesmo tempo. Mas não são bons escritores, diretores, roteiristas, atores ou dramaturgos. Mas, assim como o menino que vira árbitro, eles também querem fazer parte do circuito cultural. O detalhe quase imperceptível é que há, no fundo, uma grande diferença entre o árbitro esportivo e o crítico cultural: sem árbitros não há partidas oficiais. Eles são realmente necessários.

E foi no domingo que um crítico de cinema substanciou toda a minha implicância - talvez ignorante - em relação à categoria. Lia o jornal mais importante do Rio de Janeiro e passei os olhos pela coluna de cinema. Havia várias críticas a diferentes filmes, mas me detive em dois casos específicos: o filme Lisbela e O Prisioneiro e Didi, O Cupido Trapalhão. O primeiro é elogiado da seguinte maneira: "É tevê disfarçada de cinema, para citar a acusação mais freqüente aos filmes de Guel Arraes. A questão é: em que isso desmerece o filme? Em nada". Já o segundo recebe a seguinte crítica: "Tem algumas cenas engraçadas mas perde-se numa profusão de namoricos de novela". Achei ambos os textos contraditórios. Quer dizer que um filme é bom, apesar de estar difarçado de tevê, e o outro é ruim, justamente devido aos "namoricos" de novela e, em última instância, de tevê? Realmente não entendi nada. Não custa lembrar que as duas críticas foram escritas pela mesma pessoa.

Quero deixar claro que nada tenho contra os críticos. Mas, como já afirmei e diversos alvos de críticas já o fizeram, é curioso levar em consideração a opinião de uma pessoa que não esteve envolvida na obra e com apenas algumas palavras pretende desqualificar um trabalho que exigiu dedicação e, muitas vezes, renúncia .Talvez esse texto seja um grande equívoco e aí peço desculpas aos críticos. Mas é inevitável que uma profissão que se dedica a criticar o trabalho alheio torne-se alvo de críticas - com perdão do trocadilho.



Sexta-feira, Agosto 22, 2003


Cultura
EU, ROBÔ
Por Henry Galsky

No sábado tive o prazer de assistir ao DVD de Animatrix. Sempre gostei de ficção científica e creio que os dois episódios de Matrix constituem um sopro de criatividade no cinema. Nunca havíamos visto nada igual às ideías dos irmãos Wachowski.

Animatrix mostra que Matrix é um ambiente novo e fonte inesgotável de idéias. Para quem assistiu aos filmes, é imperdível, já que complementa os dois episódios. Há também episódios que exploram novos olhares no mundo Matrix.

"O Segundo Renascer" - escrito por Andy e Larry Wachowski - explica como a humanidade foi vencida e finalmente dominada pelas máquinas. Nós as criamos e acabamos nos tornando cada vez mais dependentes de seus serviços. Primeiro, eram pequenos cães-robôs, depois pequenos robôs e, finalmente, andróides com aparência humana, o que teria causado grande controvérsia na humanidade, já que muitos não os toleravam. O problema é que a tecnologia já era avançada o suficiente para fazer com que essas máquinas tivessem vontade própria. Quando, segundo o filme, tentamos acabar com elas, era tarde demais e a solução encontrada foi enviá-las para uma espécie de aterro no deserto.

Mas as máquinas se fortaleceram e constituíram seu prórpio país - cujo nome é 01 e curiosamente localiza-se no território da Arábia Saudita. Elas nos propuseram a paz, mas nós não aceitamos. A ganância humana teria sido a responsável pela guerra travada contra as máquinas. Perdemos e acabamos escravizados naqueles imensas bolhas vermelhas vivendo dentro de um programa de computador: a própria Matrix.

Sempre gostei de filmes sobre o fim do mundo. Por isso, confesso que me surpreendi ao abrir o jornal hoje e ver a foto do primeiro robô com aparência humana, que pesa 52 quilos e mede 1,20 m de altura. É claro que não é um andróide indistingüível de um ser humano. Mas pode ser o início de algo próximo ao "Segundo Renascer" imaginado pelos Wachowski. O robô chama-se Asimo, foi criado pela Honda e anda e gesticula como um ser humano. O melhor - ou pior, dependendo do ponto de vista - é que ele responde com independência. De fato, uma evolução.

A Honda quer começar a alugar modelos de Asimo a partir de janeiro a empresas e instituições públicas. Se tudo correr como o previsto, não vai demorar muito para que nos acostumemos à presença de Asimo em nossas casas, na rua e no trabalho. O problema é saber o que virá depois dele ou no que ele poderá se transformar. O cinema já fez suas previsões. Acabaremos dominados como em Matrix ou os robôs vão se humanizar, como em "O Homem Bicentenário"? Infelizmente, não sou tão otimista.



Terça-feira, Agosto 19, 2003

Política Internacional / Judaísmo
CRISE É OPORTUNIDADE

Nesta última semana, morreu o ex-ditador de Uganda Idi Amin Dada. A ele são atribuídas cerca de 400 mil mortes, dentro e fora de seu país. De maneira inconsciente, Idi Amin alterou a história judaica num bom sentido ao reforçar a responsabilidade de Israel em relação a todos os judeus.

O episódio que ficou conhecido como Resgate em Entebbe chegou a virar filme, que a TV Manchete costumava exibir durante as comemorações judaicas.

De qualquer forma, Idi Amin, ao abrigar os terroristas no aeroporto de Entebbe, forçou Israel a resgatar os reféns em solo ugandense e, assim, consolidar-se como um Estado Judeu de fato. Não só no papel, mas na condução de sua política externa.

Desde a independência, em 1948, Israel se denomina o lar nacional de todos os judeus. Aliás, foi com esse objetivo que o país foi criado, com base no sionismo, o nacionalismo judaico. Logo depois, em 1950, foi criada a Lei do Retorno, que garante a qualquer judeu a cidadania israelense. A lei vale até hoje e é fundamental para finalmente concretizar o sonho de Theodor Herzl, o criador do sionismo moderno: o retorno de todos os judeus a Israel.

Tal sonho, que há apenas 60 anos parecia absurdo, está cada dia mais próximo de se tornar realidade. Hoje, a população judaica de Israel é formada por pouco mais de cinco milhões de pessoas. A população judaica mundial chega a pouco mais (ou pouco menos, já que é difícil definir o que é ser judeu) de 13 milhões de pessoas. Nos Estados Unidos há cerca de seis milhões de judeus. O resto da população judaica - dois milhões de pessoas - está espalhada pelo mundo e concentra-se, principalmente, na Europa e na América Latina. Como principais centros de vida judaica, merecem destaque a França (com cerca de 500 mil judeus) e a Argentina, que até este recente período de crise econômica contava com uma população judaica de igual tamanho.

O caso dos judeus argentinos é bastante interessante. Devido aos problemas do país, muitos deles perderam seus empregos. Alguns chegaram a viver na miséria e, como milhares de outros argentinos, tiveram de entrar na fila da sopa gratuita para ter o que comer. Como se viu no auge da crise, muitos argentinos procuraram antepassados italianos, espanhóis e ingleses para imigrar para a Europa. As imagens eram impressionantes: centenas de pessoas nas filas à espera de audiência nos consulados.

Com os judeus não foi diferente e muitos decidiram imigrar para Israel. O Ministério do Exterior de Israel afirma que ainda há 230 mil judeus argentinos vivendo em situação dramática.

A política do atual primeiro-ministro Ariel Sharon tem como ponto central o estímulo a imigração judaica. O objetivo é que, até 2010, 1 milhão de judeus deixem seus países e decidam viver em Israel. O premiê israelense também ressalta a importância da imigração de pelo menos 500 mil judeus da América Latina.

Talvez, o recente crescimento do anti-semtismo estimule uma nova leva migratória. Como diria meu ex-chefe Ronaldo Gomlevsky, "crise é oportunidade". Neste caso, a oportunidade de vivermos mais uma vez nossa sina histórica: ir e voltar para a mesma terra. A terra de nossos antepassados.



Sexta-feira, Agosto 15, 2003

Comportamento
DECEPÇÃO NO CENTRO DA CIDADE
Por Henry Galsky

Não escrevo novelas. Apenas tento dizer algumas coisas neste blog. Por isso, algumas diferenças entre mim e o autor do grande sucesso das 20h da TV Globo ficam evidentes. A primeira e óbvia é o salário. Enquanto Manoel Carlos expõe na Veja seu salário de 1 milhão de dólares, prefiro não dizer a meus poucos leitores o valor do meu ordenado - não quero espantar meus amigos que talvez se amedrontem com a perspectiva de serem alvos de pedidos de empréstimo.

A segunda diferença é a fonte de inspiração. Enquanto Manoel Carlos mostra o Leblon como o paraíso perdido e civilizado incrustado nesta cidade-porcaria, prefiro ter o Centro da cidade como laboratório. Considero o bairro um microcosmos ideal, o lugar em que os guetos se unem à força. Sim, porque queiram ou não ricos e pobres, brancos e negros e até mesmo parte dos privilegiados moradores do Leblon, todos precisam trabalhar (pelo menos em tese). Como o Centro concentra a maioria das empreas, escritórios de Direito e instituições da burocracia pública, milhões de cariocas gastam pelo menos um quarto de seu dia no bairro. E, por conseqüência, são obrigados a se aturar mutuamente. É por tudo isso que considero o Centro o lugar mais interessante da cidade.

E foi lá que ontem testemunhei uma cena que me decepcionou. Prefiro não descrever o grau da decepção. Aliás, prefiro chamar o que vi de constatação.

Saí da pós-graduação mais cedo, por volta das 20h40 e, como de costume, caminhei até o metrô. Foi quando vi aquela figura feminina que não devia ter mais que 25 anos de idade disparando cuspes no chão. Podem dizer que não há nada de anormal nisso e que é uma prática comum de nosso povo, talvez até comparavél ao futebol e ao carnaval. É quase um motivo de orgulho, um produto de exportação que deveria ser ressaltado pela Embratur para atrair turistas.

Mas a menina que cuspia - e foi isso que me chamou a atenção - trajava uma vestimenta que se tornou de certa forma padrão entre os descolados, cultos, estudiosos, defensores dos valores nacionais e conscientes de seus deveres de cidadãos engajados. A moça usava uma saia enorme bordada, camisa branca lisa e sandálias de dedo. O que me incomodou é que ela não se deu ao trabalho de cuspir no canto da calçada. Pelo contrário. Disparou seus tiros no meio do passeio público (como diria Chico Buarque) entre os poucos pedestres que circulavam pela Avenida Presidente Vargas àquela hora da noite.

Não gosto de generalizações. De forma alguma. Mas tenho de admitir que aquela cena me entristeceu - como diria Holden Caufield, "esse tipo de coisa me deprime pra chuchu". Não resisti e mentalmente tracei um perfil da moça: estudante de comunicação, membro do PSTU, frequentadora da Lapa e de rodas de samba e forró. Foi apenas por uma fração de segundos que tudo isso passou pela minha cabeça. Talvez, ela não seja nada disso. Não gosto de lição de moral, mas, caso ela se enquadre no perfil imaginário que construí, a decepção que senti vai ter sido válida. Não porque a condene pelo simples ato de cuspir. Mas por achar que é preciso coerência entre discurso e prática.


Terça-feira, Agosto 12, 2003

Comportamento
VENDEDOR DE CARROS USADOS
Por Henry Galsky

Um de meus vizinhos de prédio é vendedor de carros usados. De uns tempos pra cá, comecei a reparar em seu cotidiano. Como trabalho durante cerca de dez horas por dia, fiquei curioso ao perceber a sua presença na portaria todas as vezes que volto pra casa.

Antes de mais nada, devo dizer que nada tenho contra ele. Na verdade, ele me parece bastante inteligente. Relaxado e vestindo roupas confortáveis, esse meu vizinho está sempre conversando com o porteiro e com os demais moradores do prédio. Às vezes, cuida da portaria enquanto o titular da função vai ou banheiro, almoça ou simplesmente dá uma volta. É este meu vizinho que costuma abrir a porta do prédio para mim quando volto depois das 22h nos dias de minha pós-graduação.

Confesso que o invejo. Ao contrário de mim, ele não tem sobressaltos ao ver algum problema ocorrer na programação. Deve ganhar razoavelmente bem. Os carros que vende ficam expostos na porta do prédio. Não gasta com transporte. Afinal, usa o elevador do prédio para chegar à portaria. Não come fora. Apenas volta pra casa na hora do almoço - que acontece na hora em que ele bem entende.

Não vende modelos de luxo. São carros de 1996 / 97. Nada muito novo. Nem muito velho. Seu trabalho resume-se a esperar as ligações dos clientes, negociar o preço, vender e comprar outros carros. Presumo que seja simples. Ou, pelo menos, nada que possa ser responsabilizado por perda de qualidade de vida ou saúde.

Esse meu vizinho não teve que estudar por mais de quinze anos. Não fez vestibular, não pagou faculdade e não tem patrão. É um homem feliz, que contenta-se com a simplicidade e exerce uma das funções mais antigas do mundo: troca objetos pelo dinheiro que vai sustentar sua família.

Não me arrependo de ter estudado. Mas tenho absoluta certeza que meu vizinho vive uma vida melhor que a minha. Idealismo profissional está fora de moda e desvalorizado. Temos é que escolher caminhos mais simples para nossas vidas. Um pouco de humildade nunca é demais. Acho que vou fazer concorrência a esse meu vizinho.


Sexta-feira, Agosto 08, 2003

Esporte / Jogos Pan-Americanos
ABRE O OLHO, RIO DE JANEIRO
Por Henry Galsky

Como já disse em outra coluna neste mesmo site, assistir aos Jogos Pan-Americanos é um grande prazer. Mas, nestes Jogos de Santo Domingo, tornou-se um prazer incompleto. As duas emissoras que exibem com regularidade a competição (ESPN Brasil e SporTV) não transmitem as modalidades que, em tese, deveriam constituir uma parte importante da competição, já que ela pretende-se olímpica.

Modalidades como luta greco-romana, vela, tiro, tênis e muitas outras não estão tendo vez nesses jogos. E não é por culpa das retransmissoras - no nosso caso, os dois canais de televisão já mencionados. A responsabilidade é da empresa geradora das imagens, o que, em Santo Domingo, está a cargo da canadense CBC. No site da emissora, não há qualquer explicação para o erro.

Este é mais um dos equívocos e enganos que se repetem com uma constância preocupante em Santo Domingo. Além deste, a falta de organização atrapalha os próprios atletas. Em modalidades como atletismo e basquete as competições começaram atrasadas. No atletismo, houve complicações com cronômetros. No basquete, o problema foi mais grave: por mais de uma vez, a mesa errou na contagem dos pontos, o que poderia ter prejudicado toda a competição.

Houve também falhas estruturais. A delegação brasileira de remo, por exemplo, foi impossibilitada de treinar devido a problemas de transporte dos barcos, já que a alfândega dominicana demorou a autorizar a entrada do equipamento no país. A demora na entrega das medalhas também tem se repetido. O brasileiro Hudson de Souza, que conquistou o ouro nos 5000m no dia 5 de agosto, só súbiu ao pódio ontem, quase 48 horas depois de vencer a prova. Alguns atletas têm boicotado a organização dos Jogos e se recusam a participar da cerimônia de premiação.

Por tudo isso, sei que o Rio de Janeiro terá uma difícil missão a cumprir. A cidade é grande e os complexos esportivos ficarão bastante distantes uns dos outros. A prefeitura e o governo do estado procuram investidores para financiar a ampliação da estrutura viária, que envolve a construção de novas linhas de metrô. Mas, pelo menos, tenho certeza que os Jogos do Rio de Janeiro não vão passar pelo vexame da falta de estrutura televisiva para a geração de imagens. Só nos resta esperar e ver se o projeto olímpico brasileiro vai sair do papel e não repetir por aqui os mesmos erros de organização destes Jogos de Santo Domingo.


Quinta-feira, Agosto 07, 2003

Esporte / Basquete Masculino
BRASIL DÁ SHOW E É BICAMPEÃO PAN-AMERICANO

Com uma atuação irretocável, a seleção brasileira masculina de basquete consquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos ao derrotar ontem à noite a República Dominicana por 89 a 62 (44 a 31).

Mesmo jogando contra os donos da casa, que contavam com o apoio da torcida que superlotou o ginásio, a seleção brasileira não deu a menor chance aos dominicanos. A equipe começou a partida a todo o vapor e não cometeu os mesmos erros da noite anterior, quando venceu com dificuldades os norte-americanos na semifinal. Logo no iníco, Marcelinho acertou dois arremesos de três pontos. Debaixo do garrafão, Tiago Splitter, Guilherme e Anderson Varejão pegavam os rebotes, enquanto Valtinho ligava os contra-ataques com velocidade. A República Dominicana também errava muito, cometia faltas e, no ataque, não conseguia marcar pontos, tanto que passou sete minutos do primeiro período com apenas dois pontos no placar. Assim, a seleção brasileira conseguiu abrir vantagem e terminou o primeiro quarto vencendo por 30 a 10.

Com uma diferença de pontos expressiva, o Brasil relaxou no segundo período. A equipe desperdiçava arremessos e errava passes, o que permitiu que a República Dominicana se aproximasse no placar e chegasse a ficar apenas seis pontos atrás no placar. Foi a vez da seleção brasileira permanecer quase cinco minutos sem pontuar. O técnico Lula Ferreira optou por mexer no time e a estratégia deu certo. Alex, Renato e Demétrius entraram bem na partida e o Brasil voltou a abrir 15 pontos de vantagem.

No terceiro período, a seleção brasileira consolidou sua superioridade. Mostrando-se uma equipe completa, soube criar oportunidades e, com contra-ataques rápidos e uma defesa sólida, conseguiu aumentar a vantagem, que chegou a 28 pontos.

No último quarto, a República Dominicana adotou uma estratégia de risco: os arremessos de longa distância. Com isso, a partida ficou ainda mais fácil e a decisão transformou-se num jogo treino. A medalha de ouro era apenas uma questão de tempo. Tanto que Lula Ferreira colocou todos os jogadores reservas em quadra. O Brasil chegava com facilidade à cesta adversária. A torcida verde e amarela, formada por atletas brasileiros de outros esportes, já comemorava, enquanto a multidão dominicana se retirava do ginásio. Após o término da partida, houve invasão de quadra. Demétrius - que, ao lado de Marcelinho, havia sido campeão nos Jogos de Winnipeg, em 1999 - repetiu o gesto de Oscar no Pan-Americano de Indianápolis, em 1987, cortando a rede da cesta. No pódio, os atletas cantaram em voz alta o hino brasileiro.


Quarta-feira, Agosto 06, 2003

BRASIL JOGA MAL, MAS DISPUTA O OURO NO BASQUETE MASCULINO
Por Henry Galsky

Mesmo cometendo muitos erros, a seleção brasileira de basquete masculino conseguiu vencer os EUA por 92 a 80 (37 a 43) e se classificar para a final dos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo. Na decisão de hoje, o Brasil disputa a medalha de ouro contra a República Dominicana, que venceu Porto Rico na outra semifinal.

O jogo começou muito nervoso para a seleção brasileira. Demonstrando ansiedade, a equipe desperdiçava pontos fáceis e errava passes. Assim, logo no primeiro quarto, os EUA conseguiram abrir uma vantagem de 11 pontos. Tudo parecia dar errado para o Brasil. Apesar da insistência, Marcelinho não conseguia acertar os arremessos da linha dos três pontos, o que proporcionova à seleção americana a chance de manter a diferença em contra-ataques rápidos - no final do jogo, as estatísticas mostravam que o Brasil havia acertado apenas quatro de 27 tentativas de arremessos de três pontos.

Somente no terceiro período a equipe brasileira reagiu. Com a entrada de Demétrius, o time se estabilizou. A virada no placar ocorreu apenas no último segundo, com uma bandeja do próprio Demétrius. Pela primeira vez, o Brasil estava em vantagem no marcador (64 a 63).

No último período, a maior experiência dos jogadores brasileiros foi decisiva. A definição da partida aconteceu apenas nos últimos três minutos de jogo. Guilherme acertou dois lances-livres e a seleçao brasileira abriu três pontos. Marcelinho, que não vinha se apresentando bem, conseguiu acertar dois arremesos de três pontos e aumentar a vantagem no placar. Mais tranqüila, a seleção passou a gastar o tempo e a forçar as faltas até o final. O Brasil estava classifcado, pela segunda vez consecutiva, para a final do basquete masculino nos Jogos Pan-Americanos. A seleção detém o título da modalidade, alcançado em 1999 no Canadá.


Terça-feira, Agosto 05, 2003

A ALEGRIA DE ASSISTIR AO PAN
Por Henry Galsky

Quem me conhece sabe que sou um entusiasta do esporte. Por isso, tenho enfrentado um grande dilema durante esses jogos Pan-americanos disputados na República Dominicana: como trabalhar e conseguir assistir a todas as competições?

Tive de abrir mão, obviamente, de meus ideais olímpicos (não sei se eles ainda existem de fato ou se já foram substituídos pelo ideal Olympikus). Não me arrisquei a pedir uma folga nessas duas semanas de celebração do esporte nas Américas, mas tenho me esforçado para ver o que posso. Após o trabalho, chego em casa, deito-me no sofá e aproveito todas os recursos da tecla surf do controle remoto. Chego a assistir a três diferentes modalidades simultaneamente.

Tenho gostado muito de ver a seleção masculina de basquete. Pela primeira vez em mais de dez anos houve uma reformulação total na equipe e as mudanças parecem ter surtido efeito. O objetivo maior desta seleção, entretanto, é a difícil classificação para as olimpíadas de Atenas no ano que vem. O pré-olímpico vai ser muito disputado, já que todos os países do continente brigam por apenas três vagas. Os Estados Unidos têm presença praticamente garantida, além da Argentina, atual vice-campeã mundial e forte candidata a marcar presença na Grécia. Resta ao Brasil e a todo o resto das Américas disputar a terceira vaga.

Mas, voltando ao assunto, os jogos têm sido bastante emocionantes. E não me refiro apenas ao desempenho dos atletas brasileiros. No domingo admito ter torcido pela dupla de vôlei de praia feminina da Bolívia, mais especifcamente para a atleta Pasivic. A boliviana resume o ideal esportivo da superação. Pasivic é gordinha e não mede mais que 1, 65 m. Mas estava em quadra lutando, mostrando habilidade e força de vontade. A dupla boliviana perdeu para as brasileiras Larissa e Ana Richa, mas o importante é que Pasivic chegou lá, apesar de todos os obstáculos que certamente enfrentou.

Além de tudo isso, é preciso reconhecer o empenho do próprio país sede dos jogos. A República Dominicana tem demonstrado a mesma superação de Pasivic. Criticado até agora pela falta de organização, o país tenta compensar todas as falhas com a hospitalidade e a alegria de seu povo. Por tudo isso, considero os Jogos Pan-Americanos muito importantes. Não apenas pela briga por medalhas ou pela conquista do primeiro lugar geral, que certamente não será brasileiro. Mas, acho importante que, pelo menos uma vez a cada quatro anos, tenhamos a oportunidade de olhar para dentro do continente e reconhecer em países como República Dominicana, Trinidad e Tobago, Martinica e Bermudas vizinhos e parceiros.


Sexta-feira, Agosto 01, 2003

SURPRESA!
Por Henry Galsky

Supresas são sempre desagradáveis. Não apenas o que se chama de supresa desagradável, mas qualquer surpresa.

Penso isso pelo simples fato de que, quando alguém lhe faz uma surpresa, já está com a intenção de tomar o controle de sua vida. Sim, porque há uma grande diferença entre supresa e susto.

Todos nós tomamos sustos. Por isso é que dizemos que ficamos assustados com um tremendo barulho de algo que explode ao nosso lado durante uma festa, por exemplo. Até descobrirmos que trata de uma queima de fogos e não de um tiroteio, ficamos assustados. Mas não surpresos.

E é esse o ponto a que quero chegar. Quem faz uma surpresa é sempre um criminoso metódico. A pessoa que lhe faz uma festa surpresa, por exemplo, nunca pede autorização prévia. Ela avisa a seus parentes e amigos, escolhe um lugar e só aí você entra na história. E, mesmo assim, você é um agente passivo que é conduzido, levado, desviado de qualquer plano que tenha em mente para aquele dia, somente para satisfazer o prazer do sádico algoz que quer ver a sua reação frente a dezenas de pessoas importantes na sua vida (inlusive ele, na maioria das vezes). Essa é apenas uma das diversas categorias de surpresa.

Uma outra e conhecida classe é a que podemos chamar de "profissional". Ao contrário da anterior, que é rápida e normalmente dura apenas algumas horas, essa pode se estender por anos a fio. Muitas vezes, começa com um discurso do chefe de que ele teve que passar por maus bocados antes de atingir sua atual posição. Pois é. Em muitos "superiores" há a cultura da "reprodução do sofrimento", ou seja, o que chamo de "surpresa profissional".

Por ele ter passado por inúmeras dificuldades, considera que deve fazer o mesmo com você. Isso acontece porque todos que conseguem se dar bem na vida depois de anos trabalhando com alguma coisa chata e sufocante acham que não podem dar ao funcionário uma boa função ou salário sem que ele seja obrigado a passar por anos de penúria.

Considero este tipo de prática uma grande idiotice, além de ser uma presunção sem tamanho concluir que um funcionário não vai dar o devido valor a uma função agradável somente por não ter sofrido durante muito tempo.

Há diversas outras categorias de surpresa. As exemplificadas acima compõem o que chamo de "clássicos do mau-gosto". Por isso, evite surpresas e não imponha a seus amigos, familiares ou funcionários momentos (ou anos) de sofrimento pelos quais você não gostaria de passar.