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Segunda-feira, Setembro 29, 2003
Cotidiano
ATRÁS DAS GRADES
Por Henry Galsky
Tenho pena por não produzir nada de produtivo. Por mais contraditório que possa parecer, vou tentar me explicar melhor. Pra quem não sabe, faço a grade diária de programação do GNT. Faço questão de salientar que não há nada de nobre nisso. Aliás, sempre trato de explicar a qualquer pessoa que conheço que não há motivo de orgulho em minha atividade diária.
É hipocrisia num mundo tão cheio de problemas trabalhar fazendo grades de programação. Sim, porque não ajudo ninguém com minha profissão. Mas, antes que me julguem, devo dizer que não estou nisso porque gosto ou quero. Ao contrário. Passo doze horas por dia criando, conferindo e por fim fechando a programação que vai ao ar no dia seguinte apenas pela temporária falta de opções. É claro que minha insatisfação acaba por tornar-se uma conseqüência natural e esperada.
O que me incomoda é a verdadeira razão por decidir escrever esse texto. A profunda falta de explicação para essa atividade. É fácil perceber onde quero chegar através da comparação com outras profissões. Um jardineiro planta e o mundo sente e é afetado pelo resultado de sua produção. Um deputado faz as leis e o Brasil sofre com as conseqüências. Eu faço a grade de programação de um canal de tevê e... nada. Não há nada nem ninguém que se importe com o que faço atrás deste computador. Eu também não me importo. Afinal, por que deveria?
Continuo a procurar novas opções no talvez mais fechado mercado de trabalho. O Jornalismo é fechado como minhas grades no final do dia. Mas não é fácil passar metade do dia em função de algo que além de trabalhoso me cansa e não me recompensa. Continuo a procurar algo mais inteligente, prazeroso e produtivo.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 2:09 PM - Comentários:
Segunda-feira, Setembro 22, 2003
Comportamento
CENAS DE DOMINGO
Por Henry Galsky
Os táxis parecem ser fonte de inspiração constante deste site. Também pudera. Os taxistas são os verdadeiros portadores do gosto popular.
Ontem, por exemplo, peguei um táxi da Tijuca ao Largo do Machado. O motorista ouvia e cantava as belas músicas da MPB Fm - que aliás, segundo minhas observações, parece ser a rádio preferida dos taxistas. Tudo corria bem na viagem e as canções de Beto Guedes, 14 Bis e companhia eram acompanhadas com entusiasmo pelo condutor. Até que a rádio começa a tocar Maria Bethânia e o taxista, já sem paciência, desilga o aparelho. Ele vira-se para mim, pede desculpas e diz: "Eu tenho um gosto muito eclético, mas não aturo a Maria Bethânia". Prontamente, respondo que tudo bem, o carro é dele e ouvir ou não Maria Bethânia não faz a menor diferença em minha vida.
Salto do Táxi e pela primeira vez em pelo menos duas semanas tenho tempo para exercitar uma prática que prezo bastante. Andar sem pressa, sem hora e sem destino. Na verdade, tinha um destino: a biblioteca Bialik, no Flamengo. Mas, estava adiantado e ainda havia bastante tempo ocioso. Decidi ir pelo lado oposto e andei em direção ao São Luiz. Caminhava a passos lentos. Quando se está calmo, o tempo e a vida ao redor parecem parar. É uma das melhores sensações que podemos experimentar; sentir a tranqüilidade no ar e nas pessoas em volta.
Entrei no São Luiz por entrar. Não havia nada em cartaz que me agradasse. E, mesmo que houvesse, não teria entrado no cinema. Um compromisso me esperava. Finalmente, rumei para a biblioteca Bialik, mas seguia firme com minha tranqüilidade - era justamente daquilo que precisava. Aliás, decidi que era daquela maneira que levaria a minha vida. Nenhum problema pode ser importante o suficiente para abalar nossa paz de espírito.
Perdi-me propositalmente pelas ruas do Flamengo. Passei pelo Estação Paissandu e por dezenas de bares na decadente Marquês de Abrantes. Todos estavam com as televisões ligadas no jogo do Vasco. O Chaveiro ouvia a rádio Globo e esperava pelo início de Flamengo e Goiás. Continuava a andar com a paz de espírito que, nos últimos tempos, vêm se tornando cada vez mais rara. Finalmente, decidi encontrar a rua Fernado Osório. Fim de um dia execpcionalmente tranqüilo. Início de uma semana normal.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 3:54 PM - Comentários:
Segunda-feira, Setembro 15, 2003
Política Internacional
ARAFAT VOLTA À CENA
Por Henry Galsky
A mídia gastou boa parte de seu tempo de cobertura internacional desta semana especulando sobre a possibilidade de Israel expulsar o presidente palestino Yasser Arafat da Cisjordânia. Gastou o seu tempo porque o próprio governo israelense admitiu que o plano de expulsão não seria posto em prática agora. Não é a primeira vez que Israel admite a possibilidade de exilar o líder palestino.
É interessante observar como o assunto acirrou os ânimos até daqueles que não estão envolvidos diretamente com a questão e, com seus comentários, deixam claro conhcer pouquíssimo o assunto. O nível de simplicidade nas discussões chegou a ressucitar o velho e infundado lugar-comum de política "nazista" de Israel. Parece que as pessoas não sabem ao certo o que foi o nazismo e se utilizam disso apenas para provocar os judeus. Em primeiro lugar, Israel não coloca os palestinos em campos de concentração e os transporta para serem mortos em câmaras de gás, como fizeram os nazistas na década de 40. É bom deixar claro que é o Estado Judeu que fornece água, eletricidade e infra-estrutura às cidades palestinas - é Israel que fornece armamento para a polícia local e, há alguns anos, criou a televisão palestina. Acho que aqueles que acusam Israel de adotar políticas nazistas deveriam assistir a uns poucos minutos da televisão dos palestinos. Também não vi essas mesmas pessoas se exaltarem da mesma forma quando, há apenas algumas semanas, um terrorista suicida matou de maneira fria 22 pessoas ao se explodir num ônibus lotado em Jerusalém. Depois, ficam ofendidas ao serem acusadas de se aproveitarem do momento para colocar pra fora seu sentimento anti-semita...
De qualquer forma, não quero me desviar do assunto principal de hoje. A imprensa tem adotado a simplista visão de "bom" e "mau" na cobertura do isolamento de Arafat. A questão é saber: quem é bom para o quê e quais líderes são de fato representantes legítimos dos interesses de seus povos. Há apenas algumas semanas, o Mapa da Paz foi destroçado (literalmente) após um atentado suicida do Hamas em Jerusalém que deixou 22 judeus mortos. Israel retaliou e voltou a adotar a política dos assassinatos seletivos contra líderes terroristas. Arafat foi acusado por Israel de não contêr e desmantelar as estruturas de terror. De fato, o presidente palestino não age contra tais grupos terroristas e impede terceiros de fazê-lo. Aliás, este foi o motivo da renúncia do primeiro-ministro Mahmud Abbas, que queria obter o controle dos grupos militares palestinos - o que lhe foi negado por Arafat.
Infelizmente, no momento, o Estado de Israel está sob comando de um grupo passional que não sabe fazer política. Como disse o ex-primeiro-ministro Shimon Peres, a estratégia atual de Ariel Sharon acabar por dar voz a Arafat. O sonho do líder palestino é justamente tornar-se um mártir para seu povo e, para isso, nada melhor que ser morto pelo exército de Israel.
O presidente da Autoridade Palestina é de fato um obstáculo para a paz. Para fugir dos argumentos rasteiros que estão sendo usados atualmente, é bom lembrar das negociações entre Ehud Barak e o próprio Arafat em Camp David, no ano 2000. Era outubro e apenas um mês antes a segunda intifada havia sido iniciada. Foi então que o primeiro-ministro israelense fez a proposta que poderia encerrar de vez o conflito. Ehud Barak ofereceu à Autoridade Palestina a devolução de mais de 90% de seus territórios e autonomia sobre os bairros árabes de Jerusalém. O que disse Arafat, suposto representante legítimo dos interesses palestinos? Não. Arafat recusou a proposta de Barak e não aceitou mais negociar. Ele deixou claro que era tudo ou nada. Nesses termos, a negociação ficou emperrada.
É fácil descobrir o motivo pelos quais ele recusou a mais ousada proposta de Israel. Caso aceitasse o que Barak lhe propôs, Arafat estaria morto politicamente, já que não haveria objetivos para sua existência. Um Estado palestino seria finalmente criado e ele já não poderia morrer como mártir. Arafat prefere passar para a história como um mártir a escrever seu nome na eternidade como aquele que decretou o fim do conflito e criou um Estado pacífico para seu povo.
Por outro lado, Sharon e seus ministros são ingênuos ao pensar que a remoção física do presidente palestino poderá aplacar o ânimo dos terroristas. Simplificar a questão é acabar com a razão de discuti-la e o resultado é que se vê nos jornais todos os dias. Arafat volta à cena política com força total e as negociações ficam congeladas.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 2:52 PM - Comentários:
Terça-feira, Setembro 09, 2003
Comportamento
REVOLUÇÕES POR MINUTO
Por Henry Galsky
Um dos sentimentos mais abominados em nossa sociedade é a revolta. Eu, ao contrário, tenho medo da imobilidade aparentemente confortável que afeta muita gente.
A revolta já é em si um sucesso, mesmo que os objetivos pelos quais se adote essa postura não sejam alcançados. O simples fato de se indignar e tomar a decisão de sair do lugar já merece um prêmio ou citação. Não estranhem minha linha de pensamento. Pode parecer estranho, mas não é.
Não é honrosa apenas a grande revolta. Aquela que vira capa de jornal ou passa a ser ensinada na escola. As pequenas revoluções internas ou os questionamentos cotidianos de todos nós já são importantes. Não tenho como objetivo incitar ninguém. Apenas tento estimular a reflexão, a mesma que me afligiu - e continua a afligir - e me estimulou a escrever este texto.
Não consigo imaginar como um ser humano que habita esse mundo pode permanecer passivo diante de tantos e tamanhos absurdos. A pequena raiva do dia-a-dia, se bem administrada, pode nos empurrar pra frente. Nas empresas, por exemplo, certas regras parecem absurdas. O fato do estacionamento só poder ser utilizado por aqueles que ocupam cargos de gerência ou diretoria é estranho, para não dizer hipócrita e ofensivo. A regra parece dizer claramente aos demais funcionários: "virem-se e paguem os caríssimos estacionamentos externos". É interessante notar que pela lógica a ordem deveria ser inversa. Como os cargos mais altos recebem maiores salários, logo eles sim têm condições de pagar para estacionar seus automóveis. Quero deixar claro que o caso acima é apenas um exemplo que se repete em diversas empresas.
Outro caso interessante: por que os cargos mais altos trabalham menos horas - na maioria das vezes - quando recebem melhores salários? Creio que, por receberem mais, os ocupantes de cargos de chefia deveriam dar o exemplo e trabalhar mais. No meu caso, acho que a coisa funciona bem. Meu chefe trabalha muito e merece o salário que ganha. Mas sei que muitas vezes não é assim que funciona.
Há outros exemplos e conclamo a quem quiser que escreva os seus nos comentários deste texto. Como não quero me alongar, devo dizer apenas que as pequenas revoltas pessoais são mais importantes que as grandes revoluções históricas. Elas estimulam a reflexão e ocorrem aos milhões todos os dias. Muita gente abandona tudo para viver melhor, como um jornalista de economia do Globo que decidiu abrir um restaurante em Paraty. Ele parou, refletiu e percebeu que estava insatisfeito com a própria vida. E, convenhamos, não há pessoa mais importante no mundo que nós mesmos. E viva a revolução!
 Viva
Voz por Henry Galsky às 11:08 AM - Comentários:
Segunda-feira, Setembro 01, 2003
Comportamento
FUI DE TÁXI
Por Henry Galsky
Vivi uma experiência preconceituosa. Não fui alvo, mas decidi rebater as ofensas desta vez destinadas aos negros. Tudo aconteceu num dos meios mais comuns de proliferação de generalizações: o táxi.
Creio que os táxis sejam um dos lugares mais preconceituosos da cidade. Simplesmente porque o motorista muitas vezes tem suas idéias sobre a religião e a cor alheia e se sente confortável o suficiente para disparar suas ofensas. Afinal, o carro é dele e o volante está em suas mãos.
Na segunda-feira passada, voltando da pós-graduação, decidi entrar num táxi. Chovia muito, estava tarde e tinha uma nota de dez reais no bolso.
Há alguns passos obrigatórios em que o motorista avalia o passageiro. Ele olha no espelho e estuda o perfil do cara que está no banco de trás. Na segunda-feira, ele olhou pelo retrovisor e viu um sujeito branco e cansado: eu.
Pronto. Ele estava seguro. Não era um negro. A conversa começou com o habitual "só podia ser crioulo", após um negro ter atravessado fora da faixa de pedestres. Depois, seguiu-se a explicitação do preconceito com o enfático "não gosto de crioulo".
Resolvi perguntar o motivo. A resposta veio seca e igualmente imbecil: "tem um crioulo na minha rua que vive me pedindo dinheiro emprestado e não devolve". Indignado, argumentei que tal afirmação era absurda porque não se pode tomar um caso isolado e aplicar no todo.
Ao perceber que eu não cedia ou concordava com as afirmações, o motorista resolveu encerrar a polêmica citando suas esperiências sexuais: "não gosto de negro, mas gosto de negra. Tem até uma lá perto de casa em que dava uns amassos de vez em quando".
Quer dizer que pra isso eles servem? Muito bacana esse cara. E não pensem que ele parou por aí. Não, pra que poupar os detalhes de sua vida sexual extraconjugal com a vizinha? Contou que a conhecia desde jovem e que já havia feito bastante sexo com ela. Aliás, disse que não a encontrava mais porque ela havia casado - ele estar casado não era problema. Também continuou com o "conto erótico" ao lembrar que costumava deitar-se com ela num "matinho lá perto de casa". Minha viagem insólita a bordo do táxi terminou com um "ensinamento": "meu filho, a melhor coisa que tem na vida é fazer sexo (é claro que ele não usou essa expressão) no mato".
Não me arrependi de ter pego aquele táxi. Além de não ter me calado diante do preconceito, recebi uma aula gratuita sobre as propriedaes sexuais da terra molhada em um terreno baldio. Isso é que é fim de noite!
 Viva
Voz por Henry Galsky às 11:45 AM - Comentários:
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