|
|
Segunda-feira, Outubro 27, 2003
Mídia
A EXCLUSÃO DO DIA-A-DIA
Por Henry Galsky
Somos todos excluídos. Não importa se somos ricos ou pobres. O fato é que, em algum momento da vida, ficamos de fora de alguma coisa por determinação de alguém ou pela conjuntura da situação. O sentimento de "não-pertencer" é um dos mais perversos e destrutivos. A sociedade nunca discutiu tanto esse assunto. Mas este processo parece se reduzir a apenas duas categorias: a exclusão digital e a social.
Em relação à exclusão digital, segundo a agência de notícias Reuters "o primeiro Fórum Mundial da Tecnologia da Informação (Witfor, na sigla em inglês) concluiu que é necessário haver cooperação internacional para que os países pobres não fiquem de fora do fluxo de conhecimento que está levando adiante boa parte da economia moderna". Sem dúvida, é impossível negar a quantidade de informações que circula na internet. Mas, tenho minhas dúvidas se colocar um computador em cada casa ou sala de aula resolveria o problema da educação no país. A internet por si só não resolve o problema. Basta notar que o site mais visitado do Brasil restringe a maior parte de seu conteúdo aos assinantes. Logo, a maioria de nós continua a ler na web apenas superficialidades. Não podemos nos esquecer, é claro, que, desde sempre, as palavras mais pesquisadas da web estão relacionadas a sexo. O site de busca radix oferece diariamente um relatório com as 100 palavras mais pesquisadas na internet. Na lista das dez primeiras colocadas estão, entre outras, "MP3"; "Playboy"; "Contos Eróticos"; "hentai"; "Gay" e "Jogos".
Já a exclusão social abrange um leque de deficiências enorme. Vai desde o desemprego à impossibilidade do Estado de nos prover o básico, como saúde, educação e segurança. Por isso se dá tanta importância ao que se convencionou chamar de Terceiro Setor. Segundo o Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER), há hoje no Brasil 220 mil instituições beneficentes que contam com 10 milhões de voluntários.
Porém, a sociedade não exclui apenas fisicamente. A exclusão pode ser subjetiva. A publicidade já percebeu isso e passou a utilizar bordões cujos objetivos são mexer com esse conceito. Atualmente, há dois comercias bem explícitos. Um deles é bastante inteligente ao demonstrar que seu produto não está disponível para qualquer um. A empresa criou um slogan agressivo, mas eficiente: "Ou você tem ou você não tem". No caso, a maioria dos brasileiros não tem os 54 mil reais necessários para comprar o automóvel.
O outro exemplo é ainda mais direto. No comercial, um cantor de uma banda de rock bastante conhecida simplesmente pára um show e dá uma reprimenda num jovem que ainda não usa os acessórios oferecidos por uma marca de refrigerantes. Após "corrigi-lo" publicamente, o cantor termina o filme publicitário ao virar-se para as câmeras e perguntar enfaticamente: "Você não vai ficar de fora dessa, vai?". Não quero valorizar excessivamente um mero comercial, mas creio que mensagens explícitas como as expostas acima tenham realmente efeito sobre a audiência. Principalmente se ela for jovem. E, no caso da propaganda do refrigerante, os adolescentes formam o público-alvo do produto a ser lançado.
Mas, nem todos os publicitários concordam com esse tipo de estratégia. Um profissional de sucesso no mercado, que preferiu não se identificar, acredita que, nos casos dos comerciais citados, as estratégias de comunicação tenham sido definidas pelas empresas contratantes e não pelas agências de publicidade. "Provavelmente, as agências refletiram um pedido das duas empresas. Mais do que isso: retrataram a filosofia de gestão de cada uma delas", diz.
Como nomeou o filósofo Guy Debord, vivemos hoje numa "Sociedade do Espetáculo". Por isso, não podemos virar as costas e simplesmente tentar negar o papel exercido pelos mecanismos que conduzem essa sociedade, como a televisão, a publicidade e o cinema. Estamos todos expostos aos efeitos desses meios que, muitas vezes, atuam como portadores das pequenas exclusões do dia-a-dia. Pode ser que a falta de "estilo" ou a "não-participação" numa promoção de um refrigerante não causem mal algum. Mas, sem dúvida, o acúmulo dessas pequenas exclusões ao longo dos anos prejudicam a qualidade de vida de uma pessoa que pode nunca ter "estilo" para entrar nesse admirável mundo novo.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 10:24 AM - Comentários:
Segunda-feira, Outubro 20, 2003
Ciência
A CURIOSIDADE QUE PODE NOS SALVAR
Por Henry Galsky
A última edição da revista científica Nature publicou a tese do astrofísico francês Jean-Pierre Luminet de que o universo seria finito e teria forma semelhante a uma bola de futebol. Seríamos habitantes de uma figura geométrica conhecida como dodecaedro e a definição - que até o momento era um pleonasmo - de universo infinito seria apenas fruto de um jogo de imagens refletidas pelas dez faces da figura. Não entendo muito bem disso. Nunca fui muito bem em física na escola, mas o assunto sempre me despertou curiosidade. E é essa a grande questão.
A curiosidade pode nos salvar. Basta pensar que todos os demais assuntos se tornaram menores a partir do momento da divulgação da pesquisa de Luminet. A guerra no Oriente Médio, a disputa pelo governo na Califórnia e, no nosso caso, as declarações dos ministros do governo Lula se tornaram coadjuvantes da tese polêmica. Creio que isso seja um bom sinal. Mais do que simplesmente provar se o universo é finito ou não, a simples leitura da notícia que estampou a capa de jornais ao redor do mundo nos fez parar para pensar. Da onde viemos? Para onde vamos? O que há além do universo, caso seja confirmada a teoria do dodecaedro?
Confesso que me senti mais calmo. O mundo pareceu menor. Deixei, pelo menos por um instante, de pensar em conflitos, fronteiras ou pequenos incômodos do dia-a-dia. Experimentei sensação semelhante ao ler o livro Eram os Deuses Astronautas, de Erich Von Daniken. Tinha 12 anos de idade e, como hoje, lembro-me de ter esquecido das preocupações - que na época se resumiam ao campeonato de futebol da escola e às provas de matemática.
O fato é que estamos todos preocupados em buscar um sentido maior para a vida. Uns o fazem através dos livros. Outros preferem a religião. Aliás, essa busca passa a fazer sentido se analisarmos a etimologia da palavra. Religião vem do latim religare, ou seja, religar. A religião deveria ter como objetivo ligar o homem a Deus. É uma pena que, cada vez mais, ela venha sendo usada como forma de separar os homens e conectá-los às armas.
Mas, como dizia, a notícia sobre o novo formato do universo nos fez baixar a poeira e repensar sobre questões que nos atormentam desde o início de nossa existência. É a prova de que a curiosidade pode nos unir. Que todos possamos estudar e buscar compreender a humanidade e o ser humano. A ciência, ao contrário do que dizem os fundamentalistas religiosos, pode sim ser a conexão humana com Deus. Afinal, como admitiu o cientista que elaborou a tese do universo finito, caso estejamos de fato envoltos pelo surreal dodecaedro, ninguém sabe o que pode existir além dele.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 11:27 AM - Comentários:
Segunda-feira, Outubro 13, 2003
Economia
O GUARDA-CHUVA DA MARCA
Por Henry Galsky
Na última semana mencionei o livro de Naomi Klein. Devo dizer que a leitura desse grande estudo das marcas mudou minha relação com as empresas e me fez abrir os olhos para as estratégias que vêm sendo adotadas por essas companhias cujos objetivos estão muito além de simplesmente vender seus produtos. E foi assim que me surpreendi ao ver num canal a cabo a cobertura de dois diferentes eventos "esportivos": o Quiksilver Crossing e o Oi Kitesurf.
Acho interessante analisar o último evento por sua proximidade com nossa realidade. O que mais me surpreendeu foi a cobertura jornalística dada à marca. Em nenhum momento, o programa omitiu-a - apesar do nome Oi já estar superexposto nas camisas dos atletas, nas faixas ao longo da praia e nas pranchas de kitesurfe. O Oi Kitesurfe 2003 trata-se na verdade do campeonato brasileiro da modalidade. A marca acabou por substituir o verdadeiro nome do evento.
Em Sem Logo, a Tirania das Marcas num Planeta Vendido Naomi Klein mapeia e estuda os diversos casos em que a marca se sobrepõe a eventos por considerá-los sua propriedade. No caso acima acho que isso fica bem claro. Aliás, penso que está óbvia também a estratégia utilizada pela Oi. A empresa de telefonia celular da Telemar vê nos jovens seus clientes preferenciais e o público-alvo a ser atingido. Por isso, patrocina - e "compra", de certa maneira - diversos eventos ligados à juventude, como o Oi Kitesurf. Além disso, patrocina equipes esportivas de diversas modalidades. Mas a insistência no público jovem não pára por aí. A Oi mantém um site exclusivo para essa faixa etária. É o Clube Jovem Oi que oferece desde convites para shows patrocinados pela empresa a convênios firmados com bares, restaurantes cinemas e teatros. Sem dúvida, uma bela experiência virtual de marca.
Porém, é a Quiksilver que protagoniza uma das vivências de marca mais espetaculares. Desde março de 1999 um navio da empresa (cuja foto ilustra esse texto) cruza os mares mais distantes e exóticos. Segundo a Quiksilver há três objetivos distintos na expedição: explorar os oceanos em busca de surfe; documentar o estado dos bancos de corais para o Programa de Suporte Ambiental das Nações Unidas; e compreender as diversas culturas e costumes. A bordo do navio há 13 pessoas. Além da tripulação, compõem a equipe surfistas, um biólogo-marinho, um fotógrafo e um diretor de fotografia.
A publicidade evoluiu. Não há dúvidas quanto a isso. O objetivo não é mais simplesmente vender produtos, mas vender conceitos e idéias. A Quiksilver ou a Oi não pretendem serem identificadas apenas como empresas que vendem telefones celulares ou roupas para surfistas. Querem tornar-se representantes, respectivamente, dos jovens e dos ideais genuínos da natureza e do esporte. Por isso, precisamos estar atentos às mudanças do mundo e lutarmos para manter nossa individualidade e senso crítico.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 3:54 PM - Comentários:
Domingo, Outubro 05, 2003
Cultura
O PRODUTO DO MOMENTO
Por Henry Galsky
Saiu o aguardado disco da cantora Maria Rita. Desculpem-me o engano. Maria Rita não é apenas mais uma cantora. É uma estrela. Pelo menos, é essa a imagem que a imprensa, a gravadora Warner e o mercado publicitário estão tentando - e conseguindo - passar.
O subtítulo de seu CD é bastante explícito: "a partir de agora. Para sempre". Não pensem que é pura pretensão. Mas, pode-se dizer que é o resultado de um trabalho que envolve jornalistas, publicitários e os chamados "promoters" da vida cultural. Maria Rita é o exemplo mais recente de como é possível transformar uma pessoa comum em atual unanimidade da música popular brasileira. Aliás, é bom tomar cuidado com esse adjetivo. Popular não é sinônimo de democrático. Basta lembrar de alguns músicos excluídos da conhecida roda da Música Popular da Zona Sul do Rio de Janeiro.
Quero deixar claro que nada tenho contra a filha de Elis Regina. Não sei de ela é boa cantora ou compositora. O fato é que sou contra os métodos usados para colocar na cabeça de todos nós que Maria Rita já é uma estrela antes mesmo de lançar sua obra. A indústria cultural joga pesado e paga caro. A imprensa incentiva e aceita o pagamento, como demonstrou o Jornal Nacional há apenas um mês. O telejornal da Globo tem por hábito exibir uma matéria leve para encerrar o programa. Naquele dia, nada de pesquisas otimistas sobre a felicidade do brasileiro ou sobre possíveis curas do Câncer. O JN fechou o programa com uma matéria sobre a nova estrela da música brasileira que lança seu CD de estréia (!).
Já não me orgulho por ser jornalista. Aliás, não é de hoje. Mas exibir uma matéria paga no telejornal de maior audiência do país exterminou qualquer respeito que ainda me sobrava por essa profissão que desde os cinco anos de idade decidi que iria exercer. Não me orgulho de mais nada profissionalmente e, nos dias de hoje e pelo que vejo por aí, jornalismo se escreve com minúsculas mesmo.
Mas não sou um visionário. Muito pelo contrário. Denunciar a linha tênue que separa - e cada vez mais une - jornalismo e publicidade é um dos temas centrais de Sem Logo, a Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, da - esta sim merece o título - jornalista canadense Naomi Klein. Este talvez seja o melhor livro que tenha lido nos últimos tempos. Klein analisa diversos casos em que a marca se sobrepõe ao próprio produto e é vendida como uma experiência a ser vivida pelos consumidores. O livro também trata de outros assuntos, como a exploração da mão-de-obra semi-escrava em países subdesenvolvidos. Além disso, a jornalista canadense faz estudos de caso de situações como a de Maria Rita, em que um artista pouco conhecido é apresentado por um grupo de marcas como uma estrela ou "aquilo que todos estavam esperando".
Não tenho esperanças de purificar a arte. Nem pretendo. Mas fico espantado em ver como o público é capaz de absorver determinadas marcas - sim, pois Maria Rita já é uma marca de sucesso - sem ao menos se questionar sobre sua competência. Maria Rita é um caso icônico e espantoso de tirania das marcas. O planeta, como afirma o subtítulo do livro de Naomi klein, já foi vendido. A questão é saber se nós também estamos à venda e dispostos a aplaudir e consumir tudo aquilo que as grandes marcas nos apresentam como bom.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 11:22 AM - Comentários:
|