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Terça-feira, Novembro 25, 2003
Internacional
 A OPORTUNIDADE DO MERCOSUL
Por Henry Galsky
Os acordos bilaterais assinados entre Estados Unidos e os países do Mercosul apontam para a inevitável formação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). A criação desse bloco de países do continente é contestada diariamente por grupos contrários à globalização e por aqueles que questionam seus benefícios à indústria e ao comércio dos países em desenvolvimento que compõem a maioria dos 34 membros da futura ALCA. No caso brasileiro, especificamente, parece que cedemos às pressões e resolvemos entrar de vez no bloco comercial hemisférico.
As negociações entre Mercosul e Estados Unidos começaram no último dia 19. O Brasil exerce um papel fundamental, já que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, atua como representante do bloco de integração regional do Cone Sul, que, além do Brasil, é formado por Argentina, Paraguai e Uruguai. Para chegar a essas negociações, os Estados Unidos utilizaram-se de acordos bilaterais com os demais países das Américas. O Brasil não resistiu, mas encontrou uma maneira inteligente de deixar claro que o Mercosul não acabou. Os quatro países que formam o bloco e os Estados Unidos poderão ter um número ainda maior de produtos liberalizados, mesmo quando a ALCA já estiver em vigor.
O Brasil deixa claro que a ALCA não vai se sobrepor ao Mercosul. Até porque as duas iniciativas têm objetivos diferentes. Numa escala de integração regional, o que se convém chamar de área de livre comércio ocupa apenas o primeiro "degrau" da união entre países. O estágio mais avançado de integração regional é o da união política completa, que ainda não foi alcançada por nenhum bloco regional. A União Européia pode ser considerada a mais bem-sucedida até o momento, já que está próxima de alcançar uma união monetária total, além de buscar a união política com instituições como o Parlamento Europeu e a Política Externa e de Segurança Comum (PESC).
As negociações para a formação da ALCA não impediram que o comissário europeu de comércio, Pascal Lamy, reafirmasse a intenção da União Européia de fechar um acordo de livre comércio exclusivamente com o Mercosul até o final de 2004. "É claro que a ALCA pode influenciar a posição do Mercosul. Se for o caso, essa é uma questão deles e não nossa", disse.
O que se chama de mercado comum - o objetivo a ser atingido por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai - ocupa o nível intermediário na escala de integração regional. Está acima da área de livre comércio e da união aduaneira e abaixo das uniões econômica e política. Há pouco tempo, cogitou-se a possibilidade da adoção de uma moeda única pelos países do Mercosul e de um sistema único de emplacamento e registro de automóveis. A primeira hipótese só será viável quando os quatro países possuírem economias mais uniformes. Por outro lado, a segunda possibilidade não é impossível de ser atingida, da mesma forma que a emissão de um passaporte comum também não é.
De qualquer forma, os avanços do bloco já foram superiores a todas as tentativas anteriores de integração regional nas Américas. Hoje, todo o cidadão de um dos quatro países do bloco pode viver e trabalhar em qualquer um dos Estados membros do Mercosul sem a necessidade de requerer um visto de trabalho ou permanência. Também há facilidade de livre trânsito, já que para atravessar fronteiras dentro do Mercosul basta que se apresente o documento de identidade.
Sem dúvida, desde a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991, que deu origem ao Mercosul, a iniciativa avançou bastante. O Mercosul é um projeto político inédito na América Latina e, por isso mesmo, suas conquistas não devem ser minimizadas. É o único bloco de integração da região que efetivamente construiu bases sólidas e conseguiu sair do papel.
Enquanto a ALCA pretende ser tão somente uma área de livre comércio, o Mercosul têm objetivos muito mais audaciosos que visam à real integração política, social e econômica da região. Até 2006, por exemplo, o bloco pretende constituir um parlamento do Mercosul eleito pelo voto direto. A aparentemente inevitável criação da ALCA não é uma ameaça direta à existência do Mercosul. Pelo contrário. É a oportunidade que o bloco precisava para fortalecer-se e mostrar que seus objetivos são muito maiores.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 11:38 AM - Comentários:
Segunda-feira, Novembro 17, 2003
Internacional
A MENSAGEM É UMA SÓ
Por Henry Galsky
O filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche acreditava que a História era cíclica. Ou seja, as trajetórias do mundo, suas ações e práticas repetiriam-se de tempos em tempos porque estaríamos todos condenados a viver uma infinidade de vezes as mesmas experiências. Não sei se isso é verdade para todas as histórias que compõem a grande História mundial. Mas, tenho certeza, que é assim que funciona um fenômeno específico: o anti-semitismo.
O termo designa, especificamente, a discriminação aos judeus, apesar dos povos árabes também serem semitas. A palavra foi usada pela primeira vez em 1879 por uma publicação judia da Alemanha que denunciava os atos contra os judeus praticados pelo panfletário Wilhelm Marr. O anti-semitismo, entretanto, é bem mais antigo. Basta lembrar da passagem bíblica que relata o período em que os judeus foram escravos no Egito e, posteriormente, libertados por Moisés.
Embora exista há mais de três mil anos, o auge da manifestação anti-semita foi o Holocausto imposto pelo regime nazista. Muitos se perguntam o motivo de tal genocídio, mas, como explica o pesquisador francês Gerald Messadié, "os campos de morte matavam seus ocupantes simplesmente porque tinham nascido judeus". Messadié é autor do excelente livro História Geral do Anti-Semitismo, publicado no Brasil pela editora Bertrand. O autor acredita não ser possível compreender o fenômeno de forma única e geral. "Toda explicação global é fatalmente reducionista, ou seja, falsa a mais ou menos longo prazo. De fato, não existe um só anti-semitismo, mas diversos", explica em seu livro.
Devido à intensificação do conflito entre israelenses e palestinos, os atos anti-semitas voltaram a ser praticados, principalmente na Europa. Na França e na Alemanha, cemitérios judeus foram atacados e túmulos violados. Sinagogas pegaram fogo "misteriosamente" e muros foram pichados com suásticas e slogans nazistas.
Na Inglaterra, um professor da Universidade de Oxford foi suspenso por dois meses ao recusar-se a aceitar a inscrição de um estudante israelense para o programa de estágios que coordena na instituição. O professor pediu demissão e emitiu um comunicado afirmando não ser anti-semita - aliás, uma prática bastante comum daqueles que praticam atos anti-semitas. Ele dizia que havia dado uma resposta emocional e pessoal ao conflito entre israelenses e palestinos.
Na Alemanha, o chefe da tropa de elite antiterror do exército foi exonerado depois de elogiar por escrito as declarações anti-semitas do político alemão Martin Hohmann, que chamou os judeus de criminosos pelos atos que supostamente teriam cometido durante - pasmem - a revolução comunista russa de 1917, quando muitos integravam a liderança do movimento.
Na América Latina, o anti-semitismo tem dado frutos, principalmente na Argentina. No mês passado, o Partido Nuevo Triunfo (PNT) conseguiu reunir as 4 mil assinaturas necessárias para ser oficializado. O PNT é reconhecidamente um partido nazista, apesar de afirmar o contrário. Seu líder, Alejandro Biondini, é chamado pelos simpatizantes de "Führer" e o site do partido na internet comemora todos os anos o aniversário de Adolf Hitler, no dia 20 de abril, além de fazer intensa campanha contra os imigrantes e, obviamente, contra o sionismo. Num comunicado à imprensa recentemente divulgado, o PNT volta a repetir que não é um grupo neonazista, mas repudia o sionismo internacional e afirma que a ideologia já foi "múltiplas vezes qualificada pelas Nações Unidas como racista e genocida". De fato, a ONU, em 1975, cedeu às pressões dos países árabes e igualou sionismo a racismo. Mas, em 1991 voltou atrás e revogou a resolução. O que é mais espantoso no caso argentino é que o processo de legalização do PNT não sofreu qualquer objeção dos demais partidos.
O anti-semitismo voltou a ser discutido com seriedade. Tanto que a revista norte-americana US News trouxe como matéria de capa, há duas semanas, uma reportagem intitulada "O Novo Anti-Semitismo", em que discute se as manifestações contra o Estado de Israel são, na verdade, manifestações contra os judeus em geral. As opiniões expostas na reportagem levam a crer que, de fato, os ataques contra a própria existência de Israel são anti-semitas. Afinal, negariam o direito dos judeus de terem seu próprio Estado.
Muitos dos que atacam Israel se colocam como defensores dos direitos humanos que lutam contra as atrocidades cometidas pelo Estados Judeu. Mas, o que causa suspeita é o fato de que essas mesmas pessoas não se revoltem contra outros atos de violência cometidos ao redor do mundo. A China é um bom exemplo. A Anistia Internacional publicou há poucos dias um relatório que acusa o país de ser responsável por 80% das execuções realizadas no mundo. Além disso, o Estado Chinês é acusado de tortura e de introduzir câmaras de execução móveis. O curioso é que, contra essas denúncias, não foram organizadas palestras em universidades, manifestações nas principais cidades do mundo ou foram proferidos discursos acalorados.
Os recentes atentados contra duas sinagogas na Turquia deixam claro que os alvos dos ataques são os judeus em geral, e não apenas os israelenses. O acirramento do conflito entre Israel e os palestinos serviu de pretexto para fazer renascer o sentimento anti-semita aparentemente adormecido. O novo anti-semitismo é definido de forma simples, clara e direta pelo escritor israelense Amós Óz. "No século passado, o lema dos ataques anti-semitas era 'judeus saiam da Europa e vão para a Palestina'. Hoje, esses mesmos grupos exigem que nos retiremos da região. No fundo, a mensagem é uma só: 'judeus não estejam em lugar algum'".
 Viva
Voz por Henry Galsky às 9:18 AM - Comentários:
Terça-feira, Novembro 04, 2003
Sociedade
MUITO ALÉM DE UMA PALAVRA
Por Henry Galsky
O termo "Responsabilidade Social" soa para muitos como um nome que abrange diversos significados mas cujos objetivos são difíceis de serem explicados. Objeto de devoção do mundo empresarial desde a década de 1990, ainda é um mistério em sua essência e, segundo estudiosos do assunto, muitas vezes deturpado ao ser aplicado na prática.
Segundo o Instituto Ethos, "Responsabilidade Social é uma forma de conduzir os negócios da empresa de tal maneira que a torna parceira e co-responsável pelo desenvolvimento social". A entidade, especializada no assunto, tem como objetivos principais mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerirem seus negócios de forma socialmente responsável.
E várias empresas parecem ter de fato aderido a este projeto. É o caso da Ambev que, somente nos últimos cinco anos, investiu cerca de 36 milhões de dólares em programas ambientais. As corporações não apenas se restringem a investir, como também alardeiam aos quatro ventos suas práticas socialmente responsáveis. É possível encontrar definições tão bonitas para os objetivos empresariais que, muitas vezes, as companhias parecem visar apenas à construção de "um mundo melhor". O slogan é um lugar-comum no mundo das estratégias de comunicação, mas é justificado ao examinar-se as definições de algumas empresas para seus programas sociais.
Uma companhia de alumínio afirma que tem como objetivo "construir uma sociedade mais justa, que tenha como objetivos a qualidade nas relações e a sustentabilidade econômica, social e ambiental". A afirmação lembra o estatuto de um partido político ou de uma comunidade hippie alternativa. E este é o ponto. Por trás das boas ações praticadas por essas empresas, esconde-se o motivo principal da adoção desses programas: utilizar a responsabilidade social como marketing.
Entretanto, a sociedade precisa estar atenta a essas novas práticas empresarias. Muitas corporações realizam projetos socialmente responsáveis apenas como forma de mascarar possíveis irregularidades. Essas práticas são condenadas por Carla Lettieri, doutoranda em Sociologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultora em responsabilidade social. "Não adianta, por exemplo, investir em projetos sociais e poluir o meio ambiente". A professora vai além ao afirmar que a responsabilidade social é inútil caso a empresa adote um comportamento inadequado na relação com os próprios funcionários. "É inútil a empresa investir em projetos maravilhosos se, na primeira crise que enfrenta, demite centenas de funcionários para manter os lucros. Conservar empregos e boas condições de trabalho também fazem parte da conduta socialmente responsável", completa.
Nações Unidas oficializam a responsabilidade social
O fato é que o movimento que contribuiu para a inclusão de responsabilidade social nas empresas partiu da própria crítica à globalização. As manifestações e o embate violento entre policiais e militantes anti-globalização no Fórum Econômico Mundial de Seattle, em 1999, chamaram a atenção do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Ao perceber que era preciso humanizar a economia global, Annan decidiu criar uma organização oficial que regulasse e incentivasse a adoção de nove princípios básicos que abrangem três grandes áreas: direitos humanos; condições de trabalho; e meio ambiente. O projeto recebeu o nome de Global Compact e hoje conta com a adesão de mais de mil empresas ao redor do planeta.
A presença das Nações Unidas neste processo pode conseguir intimidar empresas que pretendem esconder ilegalidades por trás de ações assistencialistas. A sociedade deve continuar a fiscalizar esse tipo de ação. Mas, sem dúvida, há projetos sérios que merecem reconhecimento e incentivo.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 3:55 PM - Comentários:
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