|
|
Terça-feira, Dezembro 16, 2003
Cotidiano
VOCÊ É O QUE VALORIZA
Por Henry Galsky
Durante a década de 80 e início dos anos 90, muitas campanhas publicitárias se utilizaram de um artifício simplista para conquistar consumidores: o slogan "Você é o que você...". Uma enorme variedade de empresas lançou mão dessa expressão fácil, direta e de certa forma agressiva. Podíamos ser aquilo que comíamos, vestíamos e até ouvíamos (como tentava afirmar uma grande campanha da Rádio Cidade no início dos anos 90).
Pode parecer estranho, mas como quem planta pra colher mais tarde, hoje somos reconhecidos por toda essa gama de superficialidades listadas acima. Segundo reportagem do site BOL, pesquisa realizada pelo grupo Catho com 443 executivos brasileiros revelou que depois da competência, a aparência é o que mais conta para se alcançar o sucesso. "Dos entrevistados, 96% acham importante ou muito importante a aparência no trabalho", disse Thomas Case, fundador do grupo Catho.
Mas não é só isso. Ainda hoje, não somos apenas aquilo que vestimos. Um artigo da revista Fluir defende que somos aquilo que surfamos (?). "Pode-se dizer muito sobre uma pessoa apenas observando seu surf. Acredito até que um psicólogo avançaria muito mais no diagnóstico e conseqüente tratamento do seu paciente se ele fosse surfista e pudesse assistir o cara na onda", escreve Fred D'Orey, dono da loja de produtos para surfe Totem Beach.
Obviamente, o objetivo de todas essas campanhas - publicitárias e jornalísticas - é vender seus produtos, sejam eles roupas de surfe, cursos de etiqueta e de como se vestir para entrevistas de emprego (pelo visto uma grande necessidade contemporânea) ou a "atitude" que uma marca empresta a seu consumidor. E assim consegue-se perceber que é o consumo que diz "o que você é". E não há consumo sem remuneração. Portanto, você é o que você ganha para poder consumir. E nada mais. Saímos do terreno pop, colorido, musical e reluzente das marcas de lojas de surfe, propagandas de rádio e revistas que assessoram as carreiras dos grandes executivos e entramos no mundo burocrático, frio e realista da política salarial.
A sociedade pode ser analisada em apenas uma página que relaciona os salários médios dos profissionais de diversas áreas. Como exemplo real, vale refletir sobre os seguintes dados: um professor com mestrado, que leciona numa universidade pública, ganha, em média, 900 reais. Um consultor de marketing numa grande empresa recebe pelo menos cinco vezes mais. A sociedade assume então que este profissional tem muito mais valor que o professor universitário. Assim, deixa claro qual profissional é mais valorizado e qual produto tem maior importância.
Também nunca houve um aperfeiçoamento tão grande no que se convencionou chamar de gestão de recursos humanos. Na verdade, o antigo departamento pessoal das empresas foi elevado ao status de gerência de recursos humanos. Um nome muito melhor para suas atuais funções. Como parte das atuais estratégias de corte de direitos trabalhistas e estímulos à competição interna por melhores resultados, a sociedade concentrou nos departamentos de RH a responsabilidade de gerir e alavancar esse processo sem provocar uma grande e explícita ruptura. Tudo parece uma grande brincadeira - vide as patéticas dinâmicas de grupo - em favor de encontrar os "grandes" talentos e futuros dirigentes de empresas.
É claro que há gente bem intencionada nos departamentos de RH. Mas é preciso notar quais os objetivos escondidos por trás dessa engrenagem importante da sociedade atual. A consultoria Deloitte Touche Tohmatsu foi responsável por uma grande pesquisa de salários e tendências na área de Recursos Humanos, que contou com a participação de 132 empresas com faturamento anual acima de US$ 16 milhões. O sócio-diretor da empresa na área de Capital Humano, Vicente Picarelli, deu uma entrevista interessante ao site RH.COM.BR. Ele diz que a pesquisa descobriu que cada vez mais as empresas deixam de remunerar os funcionários de maneira fixa. Para Picarelli, a tendência é que os funcionários sejam remunerados pelos resultados obtidos. "Nesta última edição da nossa pesquisa, observamos que existe uma preferência das empresas em adotarem sistemas de remuneração variável, como o pagamento de bônus e de prêmios por objetivos alcançados. A remuneração variável é praticada pela maioria das organizações, 64% delas concedem participação nos lucros e nos resultados e 55% concedem bônus para seus gerentes. De fato, existe uma tendência de se diminuírem os salários fixos e passar a remunerar o funcionário de acordo com os resultados. Mas, isso vai acontecer dentro dos novos modelos de competências que serão adotados", disse.
Se analisarmos esse tipo de previsão excluindo os nomes bonitinhos que tentam dourar a pílula, percebemos que a atual tendência de contratação de prestadores de serviço sem direitos trabalhistas deve passar a ser regra num futuro não muito distante. O problema é que sem dinheiro, não há consumo. Sem consumo não há publicidade porque não haverá vendas. E essa é a tecla em que devemos bater para lembrarmos que a engrenagem da superficialidade e da política de desvalorização do ser humano e de suas competências reais tem suas falhas e está condenada à falência. Ou será que continuaremos a valorizar o consultor em detrimento do professor que produz e transmite conhecimento verdadeiro?
 Viva
Voz por Henry Galsky às 10:49 AM - Comentários:
Quarta-feira, Dezembro 10, 2003
Literatura
UM LIVRO SURPREENDENTE
Por Henry Galsky
 Ao começar a ler Exodus, de Leon Uris, tive certeza de que este seria um livro que me marcaria para sempre. Como alguém já disse certa vez, "um bom livro é aquele que dá saudades quando terminamos de lê-lo". Esse é o caso de Exodus.
Apesar de ser uma obra de ficção, o livro exerceu um papel fundamental ao conseguir criar uma imagem bastante positiva de Israel para os judeus americanos, além de influenciar várias gerações a emigrarem para o Estado Judeu. Segundo a revista Morashá , o livro foi traduzido para mais de 35 idiomas e teve mais de 50 edições ao redor do mundo.
É um best-seller que merece ser lido sem preconceitos. Afinal, muita gente pode torcer o nariz para um livro que já vendeu mais de dez milhões de cópias. Mas não foi por acaso. Uris constrói personagens complexos, com dúvidas, culpas, objetivos e que têm que conviver com seus "monstros" do passado.
A narrativa de mais de 600 páginas conta a saga dos judeus após a Segunda Guerra Mundial e a luta pela criação do Estado de Israel. Uris concentra a história em torno de alguns personagens-chave, como Ari Ben Canaan, um agente do Mossad Aliyah Bet, uma organização clandestina cujo objetivo é furar o bloqueio britânico e permitir que milhares de judeus sobreviventes do Holocausto nazista consigam entrar na Palestina.
Outra personagem central é Katty Fremont, uma enfermeira norte-americana que trabalha em Chipre. Apesar de, a princípio, recusar-se a ajudar Ben Canaan, acaba se envolvendo na luta judaica depois de conhecer uma criança judia presa num campo de detenção na própria ilha de Chipre. Pode parecer estranho, mas mesmo os britânicos construíram prisões para os judeus de forma a impedi-los de chegar à Palestina.
Mas, mesmo entre os ingleses, havia vozes dissonantes em relação à política do império para os judeus. É o caso do general Bruce Sutherland, um meio judeu, que tenta conviver com um grande fantasma do passado - um pedido de sua mãe para que fosse enterrada num cemitério judaico e não cumprido por Bruce.
O autor descreve minuciosamente os aspectos psicológicos de cada personagem, seus traumas, aflições e anseios. O cenário se divide entre Chipre, Palestina e a Europa em guerra presente nas recordações dos sobreviventes.
Leon Uris, que morreu de causas naturais em junho deste ano, avaliou com orgulho sua obra: "Mostrei o outro lado da moeda e escrevi sobre o meu povo que, com nada além de coragem, conseguiu realizar conquistas impossíveis... Exodus é uma obra sobre homens que lutam, que não pedem desculpas pelo fato de terem nascido judeus ou pelo direito de viver com dignidade".
A nova edição é um lançamento da editora Record, como parte da coleção Clássicos Best Sellers.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 2:24 PM - Comentários:
Terça-feira, Dezembro 02, 2003
Cotidiano
SÍMBOLOS
Por Henry Galsky
Usamos os símbolos como forma de identificar o mundo a nossa volta. Eles podem ser simples como os desenhos de um homem e de uma mulher na porta de um banheiro público ou complexos como um sinal de trânsito. Os últimos são complexos porque devemos ser treinados para associar cores com ordens de parar ou seguir em frente.
Símbolos identificam ideologias, partidos políticos, times de futebol e religiões. Creio que seja difícil encontrar símbolos mais fortes que a Estrela de David, a Cruz ou o Quarto Crescente. Eles podem unir ou seprar. Dividir pessoas e provocar discussões acaloradas, violência ou paz. São poderosos o bastante para unirem em torno de si seres humanos que nunca se viram, não falam a mesma língua, mas que se identificam com algo tão forte (e muitas vezes tão simples) que pode fazer com que se sintam iguais e se emocionem.
Podem ser consideradas pessoas perigosas aquelas que dominam os símbolos e os usam para manipular as massas. O passado e o presente estão cheios de exemplos. Símbolos complexos não são necessariamente eficientes. Mas o vazio pode ser.
A língua pode ser um símbolo. Por exemplo, não há nada que cause mais identificação do que encontrar alguém da mesma pátria quando se está fora dela, ver a bandeira nacional ou escutar música brasileira - mesmo de qualidade duvidosa - tocando no rádio.
Pequenos gestos podem ser símbolos. Uma linguagem muda que diz mais que o lugar-comum das mil palavras. Um marido viúvo que finalmente deixa de usar a aliança. Pronto. Decidiu seguir em frente, começar uma nova vida. A mulher sofrida que joga fora lembranças ou rasga retratos. A gaveta que se fecha, o armário que se abre, um olhar no espelho. Símbolo de um momento, de uma reflexão ou de uma decisão.
Um telefonema, um telegrama, uma mensagem qualquer. Símbolo de amizade, de lembrança, de confiança. Uma mão que ajuda no momento exato ou de forma inesperada - geralmente, a melhor ajuda.
Um símbolo de uma época, daqueles bons anos, um retrato antigo. Uma foto de infância. O mais comum é se emocionar com uma foto desbotada e amassada. Ambientes repletos de símbolos se fecham em torno de si. Afinal, as mensagens já são dadas para que sejam codificadas da forma a não permitir qualquer interpretação mais além.
A cidade visualmente poluída de símbolos confunde e impede a produção de qualquer resultado. O barulho incessante ou o silêncio fúnebre. O último é mais apropriado para a reflexão.
Símbolos são discursos prontos, rápidos e facilmente absorvidos. É uma grande mensagem que se impõe. O escritor Ítalo Calvino explica esse fênomeno em seu livro As Cidades Invisíveis. Tamara era uma cidade repleta de símbolos, uma cidade-símbolo. Por isso, ao terminar de descrevê-la para Kublai Khan, Marco Polo observa: "O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e a todas as suas partes.(...) o que contém e o que esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber".
Qualquer semelhança com nossas cidades não é mera coincidência. Os anúncios expostos, a publicidade, a repetição, as tribos urbanas que se vestem, agem e falam da mesma forma parecem comprovar que tudo se transformou numa grande Tamara. A única diferença é que Marco Polo pôde sair dela. Hoje, ela está em toda parte e até dentro de nós mesmos.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 11:21 AM - Comentários:
|