Brasil
BRASIL 2004: POUCO DIFERENTE DA EUROPA... DO SÉCULO 17
Por Henry Galsky
Em 1609, na Holanda, o cientista italiano Galileu Galilei conheceu a luneta, um instrumento espetacular que lhe permitia ver os corpos celestes de perto. Galileu aperfeiçoou-a e conseguiu aumentar sua capacidade de aproximação em 20 vezes e, graças a isso, comprovou a teoria de que a Terra e os demais planetas giravam ao redor do Sol. Era o fim do mito religioso da centralidade de nosso planeta no universo. Mas esse processo não foi tão simples.
A Igreja católica lhe repreendeu em 1616 e Galileu se calou por sete anos. Em 1633 foi condenado por heresia pelo tribunal do Santo Ofício de Roma. Cansado e com mais de 70 anos de idade, decidiu dizer que havia se enganado e que suas teorias estavam erradas. Menos de dez anos depois, Galileu morreu desamparado, cego e só em sua casa na cidade italiana de Arcetri.
Mas Galileu não foi o último a ser condenado por, digamos, ousadia científica. Pode parecer absurdo, mas mesmo no século 21 parece que por aqui a Igreja ainda tem o poder de escolher o destino da ciência. A recente aprovação da Lei de Biossegurança brasileira impede que sejam realizadas pesquisas com células-tronco embrionárias que poderiam salvar a vida de milhões de pessoas.
Tais células são importantes porque podem se transformar em qualquer outro tecido. Mas a Câmara dos Deputados se rendeu às pressões de entidades católicas e evangélicas e não permitiu a utilização de embriões descartados nas pesquisas. Tal exigência foi atendida pelo deputado Renildo Calheiros, do PcdoB de São Paulo. Isso mesmo. Um comunista - que em tese deveria ser ateu - rendeu-se aos pedidos clericais. O deputado Henrique Afonso, do PT do Acre, também justificou a decisão da Câmara ao afirmar que a Lei de Biossegurança "é uma preocupação de todos os cristãos".
Pode parecer estranho, mas o destino atual desses embriões é a lixeira. Mesmo assim, representantes católicos e evangélicos preferem que eles continuem a ser desperdiçados a permitirem pesquisas que podem salvar seres-humanos que sofrem com doenças genéticas.
Um trecho da carta que representantes de 13 entidades científicas levaram ao Senado já fala por si. "A terapia celular com células-tronco embrionárias pode representar esperança de tratamento para milhões de brasileiros afetados por doenças genéticas, que atingem mais de 5 milhões de pessoas, a maioria crianças e jovens".
Enquanto a França vive um debate em torno dos símbolos religiosos e luta para manter a laicidade do país, o Brasil dá mostras de que permanece no século 17, um tempo em que a religião e o Estado uniam-se para decidir o destino dos homens. A diferença é que Galileu foi obrigado a se calar. Nós não somos.
