Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004

Brasil

BRASIL 2004: POUCO DIFERENTE DA EUROPA... DO SÉCULO 17
Por Henry Galsky

Em 1609, na Holanda, o cientista italiano Galileu Galilei conheceu a luneta, um instrumento espetacular que lhe permitia ver os corpos celestes de perto. Galileu aperfeiçoou-a e conseguiu aumentar sua capacidade de aproximação em 20 vezes e, graças a isso, comprovou a teoria de que a Terra e os demais planetas giravam ao redor do Sol. Era o fim do mito religioso da centralidade de nosso planeta no universo. Mas esse processo não foi tão simples.

A Igreja católica lhe repreendeu em 1616 e Galileu se calou por sete anos. Em 1633 foi condenado por heresia pelo tribunal do Santo Ofício de Roma. Cansado e com mais de 70 anos de idade, decidiu dizer que havia se enganado e que suas teorias estavam erradas. Menos de dez anos depois, Galileu morreu desamparado, cego e só em sua casa na cidade italiana de Arcetri.

Mas Galileu não foi o último a ser condenado por, digamos, ousadia científica. Pode parecer absurdo, mas mesmo no século 21 parece que por aqui a Igreja ainda tem o poder de escolher o destino da ciência. A recente aprovação da Lei de Biossegurança brasileira impede que sejam realizadas pesquisas com células-tronco embrionárias que poderiam salvar a vida de milhões de pessoas.

Tais células são importantes porque podem se transformar em qualquer outro tecido. Mas a Câmara dos Deputados se rendeu às pressões de entidades católicas e evangélicas e não permitiu a utilização de embriões descartados nas pesquisas. Tal exigência foi atendida pelo deputado Renildo Calheiros, do PcdoB de São Paulo. Isso mesmo. Um comunista - que em tese deveria ser ateu - rendeu-se aos pedidos clericais. O deputado Henrique Afonso, do PT do Acre, também justificou a decisão da Câmara ao afirmar que a Lei de Biossegurança "é uma preocupação de todos os cristãos".

Pode parecer estranho, mas o destino atual desses embriões é a lixeira. Mesmo assim, representantes católicos e evangélicos preferem que eles continuem a ser desperdiçados a permitirem pesquisas que podem salvar seres-humanos que sofrem com doenças genéticas.

Um trecho da carta que representantes de 13 entidades científicas levaram ao Senado já fala por si. "A terapia celular com células-tronco embrionárias pode representar esperança de tratamento para milhões de brasileiros afetados por doenças genéticas, que atingem mais de 5 milhões de pessoas, a maioria crianças e jovens".

Enquanto a França vive um debate em torno dos símbolos religiosos e luta para manter a laicidade do país, o Brasil dá mostras de que permanece no século 17, um tempo em que a religião e o Estado uniam-se para decidir o destino dos homens. A diferença é que Galileu foi obrigado a se calar. Nós não somos.


Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004

Brasil

NO DIA EM QUE O BRASIL COMPRAR TALENTO
Por Henry Galsky

A revista Veja desta semana traz em sua coluna Beira-mar uma nota bastante interessante. O assunto é a aspirante a atriz Janna Palma, mais uma dessas modelos jovens e bonitas que decidem seguir carreira artística. Segundo a nota, ela foi selecionada para a Oficina de atores da Globo e passa o dia todo no Projac, essa espécie de mundo dos sonhos que povoa a mente dos que desejam quase que sexualmente o estrelato.

Janna ganhou há cinco anos um concurso promovido por uma agência de modelos. O roteiro da jovem parece o mesmo de tantas que já estão, estiveram ou ainda vão estar nesse mundo encantado de novelas, seriados e revistas de fofocas que determinam desde as roupas que o país deve usar às preferências sexuais. Mas Janna é diferente, segundo a nota da Veja, e não quer se encaixar no estereótipo de modelo e atriz. "Ficou meio pejorativa essa definição. Ou é uma coisa ou outra". Brilhante.

Provavelmente, Janna Palma estará em breve estampando a capa de revistas de moda e sendo bisbilhotada por sites que investigam a vida dos famosos. É um futuro quase certo para aqueles que estão dentro do perfil criado para a classe artística atual. Juventude e beleza definem hoje quem vai sobreviver na dramaturgia brasileira. Mais que isso: tais características definem quem vai ser bem-sucedido em quase todas as carreiras.

Por outro lado, o Globo do dia 8 de fevereiro traz uma excelente reportagem do jornalista Mauro Ventura com o ator José Dumont. Ao contrário de Janna Palma, Dumont não foi selecionado para a Oficina de Atores da Globo, não passa os dias no Projac e não é modelo de beleza. Entretanto, é o ator mais premiado do cinema nacional, mas não tem assessoria de imprensa e não é chamado para trabalhar em novelas. Dumont não tem carro importado e vive num humilde quarto-e-sala no Catete.

As histórias acima não são motivo de orgulho. Muito pelo contrário. Resumem a preferência do país, que prefere a embalagem ao conteúdo ao fazer suas escolhas em todos os ramos. José Dumnot sabe que enquanto este modelo permanecer, continuará a ficar de fora do grande circuito e das grande escolhas. Por isso, diz com ironia: "No dia em que o país comprar talento...". No dia em que o país comprar talento, talvez deixemos de ser tão medíocres e nos transformemos num país sério capaz de dar oportunidade a todos.