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Terça-feira, Março 30, 2004
Internacional
CONTROVÉRSIA INVERTIDA
Por Henry Galsky
É impressionante como o Oriente Médio é tão importante para o mundo. Durante quase duas semanas, os jornais impressos, revistas e mesas-redondas que abordam política internacional na televisão só têm olhos para um assunto: o assassinato do xeque Ahmed Yassin, líder do grupo terrorista Hamas, por Israel.
O julgamento do ato de Israel parece ser unânime. Todos o condenam. Perguntam-me o que penso sobre o assunto e digo que, ao contrário da maioria, não sou contra o assassinato do xeque. Pelo menos, não por princípios morais. Afinal, Ahmed Yassin e seu grupo Hamas são responsáveis até o momento por 377 ataques terroristas a alvos civis em Israel. Como, então, ser contra o assassinato de um assassino declarado? Sim, porque no Oriente Médio o exército de Israel ou o serviço secreto não precisam se dar ao trabalho de investigar os autores de um ataque terrorista qualquer. Poucos minutos após a explosão, o grupo envia um comunicado a uma agência de notícias e assume a autoria do ataque.
O tratamento que vem sendo dado ao assunto é, no mínimo, estranho. Um leigo que lê apenas os jornais pode chegar à conclusão de que o Hamas é um grupo radical que luta apenas para pôr fim à ocupação israelense nos territórios reivindicados pelos palestinos. Logo, assassinar o xeque seria um ato covarde de quem não deseja uma solução definitiva para o conflito. O Hamas parece ser mais honesto. Assume-se como um grupo que não deseja convivência alguma com Israel, mas a destruição do Estado Judeu e a criação de um Estado islâmico sobreposto ao que hoje é Israel.
Acho perigosa a utilização da palavra "radical" para definir grupos terroristas. Muita coisa pode ser radical. Uma banda de rock, um refrigerante novo ou mesmo a Heloísa Helena. Todos os exemplos acima podem ter conotação positiva. Utilizar essa mesma palavra para definir o Hamas é uma tentativa de amenizar ou até mesmo de esvaziar de significado os atos desse grupo que orgulhosamente se define como terrorista por suas teorias e práticas.
Por outro lado, mesmo não condenando moralmente o ato de Israel, considero-o contraproducente. É fato que há muito tempo Israel já não conta com a simpatia mundial. A eliminação do xeque Ahmed Yassin provocou uma escalada de reprovações por parte de vários países do mundo. Liderados pela Argélia, os países árabes tentaram na ONU uma condenação a Israel. Não conseguiram, graças ao veto dos Estados Unidos. Até o Brasil condenou o ato de Israel em nota oficial. Outras instituições brasileiras fizeram o mesmo. Recebi por e-mail as notas oficiais do PT e do PCdoB condenando o assassinato do xeque. É explícita a tentativa do PCdoB de inverter as posições. O primeiro parágrafo do texto deixa claro o que pensa o partido que de comunista não parece ter mais nada: "O Partido Comunista do Brasil condena energicamente o brutal assassinato no dia de ontem do xeque Ahmed Yassin, líder do Hamas, pelo governo terrorista de Ariel Sharon". Percebe-se como a utilização das palavras pode ser corrupta. Ao inverter "líder" e "terrorista" o ex-partido comunista muda por completo a real situação no Oriente Médio e deixa claro um total desconhecimento da situação do conflito entre israelenses e palestinos.
A nota do PT segue pelo mesmo caminho. É assinada por José Genoíno, presidente do partido e reconhecidamente um profundo conhecedor de Oriente Médio e do conflito árabe-israelense: "Frente ao brutal assassinato do Xeque Ahmed Yassin, líder do grupo Hamas, o PT vem a público denunciar mais este ato de terrorismo, que só contribui para aumentar a escalada de violência no Oriente Médio e em todo o mundo", diz a nota.
Particularmente, gostaria de entender a que o texto se refere quando afirma que "o PT vem a público denunciar mais este ato de terrorismo". É preciso deixar claro que, desde o início da segunda intifada palestina, em setembro de 2000, nem o PT, nem o PCdoB ou qualquer outro partido político brasileiro emitiu uma só linha condenando os ataques terroristas palestinos a alvos civis israelenses ou judeus, mesmo que estes tenham ocorrido em ônibus escolares, shoppings centers, sinagogas no Marrocos e na Turquia...
Também não houve condenação destes atos pela ONU. Vale lembrar que, somente em 2003, a França passou a considerar o Hamas um grupo terrorista e a bloquear suas contas em bancos franceses. O mundo inverteu o significado da palavra terrorismo e parece ir contra o próprio Hamas, que explicitamente não admite qualquer negociação com Israel. Todos estão demasiadamente preocupados com o Oriente Médio. Mas é uma pena que seja pelos motivos errados e tenha como único objetivo final inverter os papéis de terroristas e aterrorizados.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 10:16 AM - Comentários:
Terça-feira, Março 09, 2004
Brasil
ATÉ A ECONOMIA PRECISA DE UM PSICÓLOGO
Por Henry Galsky
Houve um tempo em que estar empregado numa empresa pública brasileira era sinônimo de bons salários, vantagens e, principalmente, estabilidade para o resto da vida. Ser agraciado por um "padrinho" profissional com uma vaga em qualquer empresa que tivesse o sufixo "brás" no nome era motivo de comemoração e alívio.
Esse conceito atingiu seu auge nos anos 70, quando a máquina pública brasileira era a grande empregadora nacional. Tal fenômeno não era fruto do acaso, mas uma estratégia do governo militar que tinha como matriz grandes teorias econômicas que viam com bons olhos o poder do Estado presente em todos os setores.
A partir de meados da década de 1980, essa teoria econômica foi substituída por outra cuja base fundamental era a diminuição, até mesmo estrutural, do Estado. O neo-liberalismo parte do princípio que o poder público deve interferir o menos possível. Tal conceito deve ser aplicado em todas as esferas de poder. Por aqui, a consolidação desse modelo e a transformação da teoria em lugar-comum político e de protesto aconteceu graças à gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso.
O objetivo final era transformar o Estado em um simples regulador, que deveria observar de longe e intervir apenas quando não houvesse outra alternativa. Mas o Brasil não é a Suécia (outro lugar-comum) e os mesmos políticos que trataram de implementar esse modelo deram um jeito de continuar utilizando a máquina pública, inclusive para fins pouco nobres, como financiamento de projetos próprios (lembram-se da escândalo da reeleição de FH?) e de ajuda a grandes bancos do país.
Chegamos ao século 21 com uma ambigüidade estrutural. Afinal, o neoliberalismo queria um Estado menor. Mas, para isso, teria de abrir mão dos "benefícios" que a onipresença estatal proporciona, como arrecadação de verbas de impostos de setores dos quais o Estado se ausentaria. Sim, porque se o objetivo é transportar a lógica de mercado para a condução da vida pública, deve-se levar em conta todo o processo econômico prático que no dia-a-dia já é conhecido de todos nós. Pagamos por benefícios, mas se perdemos tais direitos deixamos de pagar por eles. É simples. Ninguém paga um plano de saúde privado se descobre que ele não tem hospitais próprios ou convênios com clínicas e casas de saúde particulares. Se é para não ser atendido em lugar algum, por que se deve pagar?
O que vem acontecendo no Brasil é muito parecido com esse processo ilógico. Os pequenos empresários que o digam. Eles, que no final das contas são os maiores empregadores do país, são também os que pagam os maiores impostos. Ao contrário de grandes multinacionais, que recebem todo o tipo de isenção para instalar-se por aqui, os pequenos empresários pagam mais e não recebem nada em troca.
É por isso que atualmente vemos um processo antigo e bem conhecido acontecer por aqui novamente. Um fenômeno que parece deslocado no tempo: a corrida por um emprego público. Nunca houve tantos concursos e nunca eles foram tão concorridos. O interessante é notar que não há a menor lógica nisso tudo. Se estamos enxugando o Estado, como ele volta a ser a maior fonte de esperança de uma colocação no mercado formal de trabalho?
A resposta parece mesmo ser a falta de alternativa. Os pequenos empresários, que, repito, deveriam ser os maiores empregadores do país, estão cada vez mais pressionados. Por outro lado, a máquina pública não tem nenhuma condição de absorver toda a massa de desempregados. O problema é que o país parece viver uma crise de identidade econômica que atrasa o crescimento e a oferta de empregos. Ou vivemos na plenitude um modelo em que o Estado se compromete a suprir a demanda por empregos - e aí pagaremos felizes os nossos impostos, porque vamos concluir que nós mesmos seremos os maiores beneficiados - ou optamos pelo modelo atual, contanto que ele seja assumido pelo governo de maneira honesta. Afinal, para que pagamos tantos e tão altos impostos, se no final das contas esse montante não será revertido para a melhoria da qualidade de vida da população?
 Viva
Voz por Henry Galsky às 9:13 PM - Comentários:
Segunda-feira, Março 01, 2004
Cotidiano
É ESTRANHO
Por Henry Galsky
É estranho não ocupar todo o espaço das escadas-rolantes. É estranho esse gosto amargo do vazio. É estranho sentir frio mesmo no calor. É estranho ser apenas um espectador da vida e passar mais tempo pensando que falando - e falar muito pouco.
É estranho quando atividades cotidianas como comer e dormir deixam de ser naturais. É estranho começar a escrever um livro e não saber qual seu objetivo exato ou que rumo ele vai tomar. É estranho caminhar vazio e ter de pagar um estranho para te ouvir e ouvir como resposta apenas o silêncio.
É estranho não saber o que fazer. É estranho o silêncio do telefone. É estranho fugir das perguntas ou inventar respostas positivas. É estranho perceber que certas expectativas podem ter sido frustradas para sempre. É estranho pensar no "para sempre". É estranho não fazer mais comentários. É estranho esse nó na garganta permanente. É estranho cair num abismo da onde não se sabe se é possível voltar.
É estranho ter uma lista de planos de tentativas. É estranho te responderem com provérbios. É estranho perder a inspiração. É estranho anotar telefones no metrô. É estranho perceber que nem todas as novidades sejam positivas. É estranho não se fazer compreender e perceber que seu poder de convencimento é zero. É estranho que não sejam percebidas suas boas intenções e a sinceridade de suas palavras. É estranho pensar em atitudes drásticas e já ter escolhido uma delas.
É estranho falar e argumentar com as paredes. É estranho que seus argumentos não sejam lembrados após 30 segundos. É estranho perder o controle da situação e não tocar no assunto para se perder. É estranho que certos lugares sejam mais importantes e que gente descartável tenho tomado o seu lugar. É estranho ser um narcisista moral. É estranho perder a vontade de continuar e mais estranho não ter uma mensagem grandiosa e otimista para encerrar esse texto.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 8:02 AM - Comentários:
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