Brasil
DINÂMICA DO MAL
Por Henry Galsky
Há algumas passagens em nossas vidas que ficam marcadas na lembrança para sempre. Seja pelo bem, seja pelo mal. Ainda não tenho muito tempo de vida profissional, mas algumas vivências que tive já me provaram que o mundo competitivo de quem luta por uma vaga no mercado formal de trabalho é bastante perverso.
Há cerca de dois anos, ainda era estagiário do meu atual emprego quando recebi um telefonema de uma empresa de colocação profissional. A secretária da tal empresa dizia que meu perfil se encaixava com o desejado por uma outra companhia que faria uma prova de seleção no dia seguinte. Ela não quis entrar em muitos detalhes, mas, como não iria perder nada além do meu tempo se fizesse a prova, resolvi participar do processo.
No dia seguinte, acordei cedo e fui para o outro lado da cidade no endereço em que se realizaria a tal prova. Ao chegar no local - uma escola de classe média da zona sul - percebi que aquele processo seria como tantos outros dos quais havia participado. Muitos concorrentes tensos que se entreolhavam na tentativa de adivinhar quais seriam seus maiores concorrentes; moças elegantes e bem vestidas; e, pelo lado da empresa contratante, jovens entusiastas do departamento de Recursos Humanos que, apesar de toda a violência do processo, tentariam amenizá-lo ao servir cafezinhos e ao explicar que não, de forma alguma, caso você não fosse selecionado - algo muito provável naquele caso, já que havia somente uma vaga para 16 candidatos - seria por culpa sua, de sua formação. A razão, segundo elas, era muito simples: naquele momento, naquele rápido instante infeliz de sua existência, você não se encaixava no perfil desejado. O motivo nunca era explicado, mas eles juravam que seu currículo permaneceria eternamente nos arquivos da empresa até que houvesse um instante de felicidade em que, ao contrário da maioria das vezes, quase que por milagre, seu perfil seria o adequado para a empresa.
Lembro-me que, naquele caso em particular, após ouvir a descrição da vaga e das futuras funções do felizardo que seria escolhido de maneira quase que messiânica, fiquei desinteressado pelo estágio. É certo que a culpa por aquilo acontecer foi exclusivamente minha, afinal resolvi fazer uma pequena pergunta ao final daquela descrição toda. Era uma vaga supostamente para estudantes de jornalismo (com minúsculas mesmo. Talvez explique os motivos num texto não muito distante) na área de assessoria de imprensa de uma companhia telefônica daqui do Rio de Janeiro. E a entusiasta do RH da tal empresa não citou em nenhum momento as funções principais de um assessor de imprensa, como entrar em contato com a imprensa ou redação de textos de divulgação (que os assimilados daqui dos trópicos insistem em chamar de press-release). Por isso, resolvi perguntar sobre tais funções. A resposta foi um envergonhado, discreto, rápido e desanimador "isso quem faz é o assessor que nós já temos na empresa". Cheguei à conclusão de que, na realidade, eles queriam uma pessoa para grampear papéis, fazer telefonemas e mandar avisos aos demais funcionários sobre dissídio salarial e coisas do tipo. Mas eles eram soberbos. Até para fazer isso queriam alguém que falasse inglês, que escrevesse bem e que estivesse concluindo o curso superior.
Apesar do meu desinteresse, como estava lá e meu tempo já havia sido tomado por aquela seleção, resolvi continuar na sala e me entregar despreocupadamente aos papéis ridículos de me apresentar para um grupo de pessoas que nunca tinha visto antes e que, provavelmente, não veria depois. Também não me incomodei de participar de jogos patéticos em que as pessoas fingem interesse para conseguir chamar a atenção dos selecionadores (no caso, as entusiastas do RH).
Pra falar a verdade, foi minha melhor participação em dinâmicas de grupo. Estava despreocupado e não me senti nervoso ou ansioso como em experiências anteriores em que, de fato, estava realmente interessado na vaga. É certo que cometi certos exageros, como quando fui chamado a me apresentar diante da turma para expor alguns fatos importantes da minha vida em ordem cronológica. Citei absurdos como "Flamengo campeão Brasileiro de 1987" e o que chamei de "A Grande dor de ouvido de 1992".
Gosto de assistir às apresentações dos outros candidatos e, principalmente, das idiotices que alguns dizem. Há clássicos que estão presentes em todas as seleções, como alguém que ao ser perguntado sobre seu maior defeito responde pérolas do tipo "perfeccionismo" ("sabe como é, acabo exigindo demais de mim mesmo") ou sinceridade - essa é muito boa para as mulheres que querem emocionar as entusiastas de RH - ("já me machuquei muito quando fui sincera demais"). Dá um ar de Bridget Jones à candidata.
Pois bem. Depois de todos se apresentarem e discorrerem sobre intercâmbios na Austrália e trabalhos voluntários em comunidades carentes, a seleção chegou ao final. Foi quando percebi que a meu lado havia um rapaz que rabiscava com raiva num papel. Ele escrevia com força frases do tipo "preciso estudar mais", "preciso estudar inglês". Não fui selecionado, mas foi bom participar daquela seleção. Fiquei com pena do rapaz e com raiva de uma sociedade que exige absurdos das pessoas e que exclui aqueles que não tiveram oportunidade e que, se depender dela, nunca terão.
Nunca mais encontrei ninguém daquela seleção. Também não recebi resposta e imagino que o rapaz com raiva de sua própria formação e que provavelmente se sente culpado por não ter tido dinheiro para fazer cursos de fotografia em Boston também não tenha recebido da maior companhia telefônica do Rio a grande oportunidade de grampear seus papéis. Será que um dia ele terá alguma oportunidade? E que sociedade é esta em que pessoas perdem qualidade de vida (sim, ou alguém imagina que o estômago do rapaz ficou imune ao ter a exclusão exposta repetidas vezes diante de si) e que culpa e exclui quem não nasceu em berço de ouro?
