Internacional
DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
Por Henry Galsky
Quem lê os jornais diariamente não se surpreende ao ver o conflito entre israelenses e palestinos estampado nas manchetes. Todos os dias, a imprensa mundial reserva boa parte do espaço destinado à cobertura internacional para dois graves confrontos militares: o mencionado acima e a guerra entre as forças militares norte-americanas e iraquianos contrários à ocupação.
Sou um crítico da cobertura do conflito entre Israel e os palestinos. Em sua maioria, as reportagens me parecem assumir um tom gravemente parcial ao tentar transformar um conflito sério e que envolve a vida de cerca de 11 milhões de pessoas diretamente num grande filme de ficção, onde uns são sempre bons e outros são sempre maus. Por isso, surpreendo-me positivamente quando vejo que há algumas matérias jornalísticas que se esforçam para informar, como foi o caso da reportagem de Marcos Losekann, da TV Globo, no Jornal Nacional sobre os colonos israelenses na Faixa de Gaza e a atual batalha política que vem sendo travada em Israel pelo primeiro-ministro Ariel Sharon para retirá-los unilateralmente deste território.
Hoje, Israel é o segundo país com o maior número de correspondentes internacionais, perdendo apenas para a França. A cobertura exacerbada deste conflito já é um ponto negativo por si só. Quem lê apenas os jornais, pensa que este é o único conflito militar que existe no mundo hoje. A guerra entre Estados Unidos e iraquianos é vista por muitos como uma conseqüência do primeiro. Ou seja, Israel, aos olhos dos leigos de todo o mundo, seria uma espécie de Estado perturbador da paz mundial. O que pouca gente sabe é que hoje há 30 conflitos militares no mundo e, em mais de 20 deles, o fundamentalismo islâmico está envolvido. Mas ninguém importante parece estar muito preocupado com essas guerras. Nem com suas conseqüências.
A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras tenta alertar o mundo há mais de um ano sobre os mais de um milhão de refugiados do Sudão. Segundo a organização Missão Para o Interior da África, os refugiados sudaneses, mesmo tendo fugido para o vizinho Chade, continuam a ser perseguidos pela milícia árabe janjaweed. No dia 7 de maio, a Observação dos Direitos Humanos acusou formalmente o Sudão de deslocar, assassinar, raptar e perseguir mais de um milhão de africanos negros. Mas o mundo não está preocupado com os sudaneses. Nem os países árabes, que acusam Israel de desrespeitar os direitos humanos dos palestinos.
Para defender os sudaneses, partidos políticos não organizam palestras, passeatas ou comitês de apoio ao povo do Sudão. Mas basta uma incursão do exército de Israel na Faixa de Gaza ou na Cisjordânia para que essas mesmas instituições e países levantem suas vozes iradas de condenação explícita. Que justiça social é essa? Que isenção é essa?
Outro conflito de grande violência recebe pouca atenção da imprensa. Ninguém denuncia as ações do governo russo na Chechência. Para ter uma noção clara do que ocorre hoje na Europa, basta dizer que, somente nos últimos dez anos, mais de 10% dos homens chechenos morreram nos confrontos com o exército russo.
A organização Repórteres Sem Fronteiras monitora o trabalho da imprensa em todo mundo. Seu trabalho é denunciar a censura e impedimentos ao trabalho dos jornalistas - vale lembrar que liberdade de imprensa é um dos pilares fundamentais da democracia. No site da organização, há um ranking dos países onde essa liberdade existe de fato e de países onde jornalistas encontram dificuldades para realizar seu trabalho. O Estado de Israel está classificado como uma país cuja liberdade de imprensa encontra-se em "situação satisfatória". Já alguns dos países vizinhos, como Egito e Síria recebem a avaliação de "situação difícil". O mesmo se aplica à Rússia, que impede a cobertura do conflito com a Chechênia. Mas não se ouve comentários a respeito do tratamento que o governo russo destina aos jornalistas estrangeiros.
A que se deve essa tentativa, que vem se mostrando eficaz até o momento, de "demonização" do Estado de Israel? Será anti-semitismo? Creio que sim. O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) publicou uma cartilha intitulada "Palestina Livre" em que propõe o fim de Israel como Estado judeu como única solução para o conflito. Nada mais anti-semita. Afinal, criticar Israel não é anti-semitismo, mas tentar pôr em dúvida seu direito de existir é. Sim, porque muita gente critica políticas adotadas pelos Estados Unidos ou pela Inglaterra, mas ninguém propõe o fim destes países. O PSTU nega aos judeus - e somente aos judeus - o direito de terem seu lar nacional. Mas este mesmo PSTU não questiona a existência de nenhum dos 55 países muçulmanos que existem no mundo. Entretanto, o partido apóia abertamente o fim do único Estado Judeu.
Um exercício interessante seria imaginar a possibilidade de Israel não ser um Estado judeu, mas que estivesse envolvido neste mesmo conflito. O mundo estaria com os olhos voltados para a região? Creio que não. Certa vez, um historiador alemão afirmou que muitos de seus compatriotas são antiisraelenses e têm opiniões bastante críticas em relação às ações de Israel no confronto. Ele também deixou claro que acreditava que muitos alemães pensassem desta forma não por desejarem que os palestinos tivessem um Estado ou que o conflito fosse solucionado, mas apenas por se sentirem satisfeitos ao apontar erros cometidos por judeus, como se dissessem "viu só, vocês também erram". É uma tentativa de amenizar a própria culpa nacional causada pelo Holocausto.
Penso que não só os alemães agem desta forma, mas boa parte do mundo também. Desejam se satisfazer com possíveis erros do exército israelense para sentirem-se menos cobrados pelo que fizeram aos judeus. Esse sentimento é mais claro na Europa, a partir de declarações como as do escritor português José Saramago que, em 2003, afirmou que os judeus de hoje nada haviam aprendido com o Holocausto que matou seus avós. Fica claro que trata-se de uma tentativa de eximir-se da própria culpa pelas perseguições que os judeus sofreram ao longo de séculos na Europa. O embaixador de Israel no Brasil deu uma resposta inteligente a Saramago. Daniel Gazit afirmou que "nós judeus aprendemos muito com o Holocausto. Principalmente que devemos levar a sério quando determinados grupos ou pessoas afirmam que querem nos matar. Aprendemos a nos defender". Creio que hoje a luta dos judeus seja maior do que somente a de preservação da própria existência como povo. Os judeus devem continuar a defender-se e a lutar para desmascarar preconceitos que se escondem por trás de política e de discursos que desejam enganar - a partir de lugares-comuns - os mais inocentes e, principalmente, os menos informados.
