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Segunda-feira, Agosto 30, 2004
Internacional
A LÓGICA PERVERSA
Por Henry Galsky
No último texto, tentei explicar o significado do livro "Os Protocolos dos Sábios de Sião" na formação do pensamento anti-semita ocidental. Também procurei desconstruir suas acusações, apesar de, ao fazê-lo, negar o princípio democrático e jurídico de que é o acusador quem deve ter o ônus da prova. Ou seja, quem aponta o dedo acusatório é quem tem a obrigação de apresentar as supostas provas - sempre fundamentadas em argumentos claros e racionais.
Mas a História foi muito instrutiva com os judeus ao ensinar que esta lógica aplicava-se somente a todos os outros. E foi este o motivo pelo qual escrevi o texto anterior, já que percebi que os argumentos dos "Protocolos" continuam a ser tomados como verdade absoluta por muita gente. E não foi com surpresa que recebi uma mensagem de um grande amigo avisando que um grupo de discussão sobre "teoria da conspiração" no orkut havia descambado para um ataque aos judeus. Não me dei ao trabalho de ir à pagina do grupo para ler as acusações. Provavelmente são as mesmas dos "Protocolos". Muitos dos que acusam nunca leram o livro. Outros tantos sequer sabem de sua existência.
Porém, foi uma obra de propaganda muito eficiente e suas acusações continuam a reverberar por aí, inclusive em locais de onde deveria se esperar que eles tivessem sido banidos para sempre: os meios de comunicação sérios. Foi com um tom de felicidade que alguns veículos noticiaram a suposta existência de um espião de Israel no Pentágono. Não foi à toa que escrevi espião de Israel e não israelense, pois o suposto agente é um judeu norte-americano. E como o caso está sendo tratado? Exatamente como ensinam "Os Protocolos". Apesar de o governo israelense ter negado a existência de qualquer espião nos Estados Unidos desde a década retrasada, o estrago já foi feito. Por exemplo, a manchete de uma nota sobre o assunto era "Suspeita de espionagem". E, no Brasil, sabemos como os suspeitos são tratados. Já são culpados mesmo antes do julgamento.
A acusação ao suposto espião é bastante diferente dos casos de espionagem que estamos acostumados a ver. Nos tempos de Guerra Fria, por exemplo, espiões soviéticos eram presos nos Estados Unidos por descobrir segredos sobre uma nova arma norte-americana. Ao contrário destes casos, este espião de Israel é acusado de passar ao governo israelense informações que os militares norte-americanos haviam descoberto sobre o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã, país que há menos de um mês ameaçou formal e diretamente Israel (isso não mereceu muito espaço na mídia).
Mas meu objetivo não é discutir se houve ou não espionagem de Israel nos Estados Unidos. Acho válido analisar a maneira como o caso está sendo tratado. Uma matéria da agência de notícias Reuters sobre o assunto afirma que "a passagem das informações (...) ocorreria via Comitê de Negócios Públicos Americano-Israelense (AIPAC, na sigla em inglês), um poderoso 'Lobby' pró-Israel que atua em Washington". É interessante notar a utilização de determinados termos. Repare no adjetivo "poderoso". Encaixa-se perfeitamente na acusação dos "Protocolos" acerca de uma suposta organização internacional judaica conspiratória. Talvez o jornalista que a escreveu nem sequer saiba do livro ou de suas perigosas acusações, mas as difamações aos judeus ("são todos ricos, poderosos, etc.") estão de tal forma presentes nas estranhas da sociedade ocidental, que ele a utiliza sem pudor.
"Lobby" é outra palavra que merece uma análise mais atenta. No Brasil, tem conotação muito ruim - com razão - e é associada à corrupção e ilegalidade. Nos Estados Unidos, o lobby é legal e não é de forma alguma associado à marginalidade. Muito pelo contrário. No congresso norte-americano há lobbies em favor dos homossexuais, dos imigrantes latinos, dos negros, das mulheres e do aborto. Mas, quando alguém no Brasil lê tal termo numa matéria jornalística de uma agência de notícias séria, obviamente vai tirar péssimas conclusões. Assim, somente o trecho destacado terá o seguinte impacto no leitor médio: Comitê de Negócios Públicos Americano Israelense = Judeu = poderoso = lobby. Ou, resumindo, "judeu poderoso que pratica lobby".
Se tudo isso não fosse suficiente, a matéria ainda oferece um estímulo negativo extra em relação aos judeus. Leia atentamente o seguinte trecho (que na matéria vem logo após ao anteriormente exposto): "O caso levanta a preocupação de o agente ter influenciado políticas americanas, incluindo em relação à guerra no Iraque". Tal sentença, além de mentirosa é irresponsável. Certamente, não foi um único agente infiltrado que convenceu todo o governo americano, o Pentágono e a CIA a invadirem o Iraque. Mas, o que é bastante grave, tenta depositar no agente (ou no senso comum, no governo israelense e, finalmente, nos judeus) a culpa pela invasão no Iraque. Ou seja, além de todas as conclusões expostas no parágrafo acima, a mais grave é aplicada logo em seguida e, portanto, a lógica do leitor médio e leigo fica, finalmente, assim: Judeu = poderoso = lobby = culpado pela invasão do Iraque. Ou, de maneira mais clara, "os judeus poderosos que praticam lobby são os culpados pela guerra no Iraque". A mensagem é muito clara e por isso que comecei meu último texto afirmando que quem nunca ouviu falar do livro "Os Protocolos dos Sábios de Sião" pode ter sido influenciado por seus ensinamentos. Acredito nisso mais do que nunca.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 1:56 PM - Comentários:
Segunda-feira, Agosto 09, 2004
Internacional
OS PROTOCOLOS CONTINUAM VIVOS
Por Henry Galsky
Mesmo quem nunca ouviu falar do livro "Os Protocolos dos Sábios de Sião" pode ter sido influenciado por seus ensinamentos. A obra - uma fraude criada pela polícia secreta do Czar Nicolau II e publicada pela primeira vez em 1897 - afirma existir uma conspiração judaica cujo objetivo secreto seria dominar o mundo. O livro baseia-se numa outra obra de ficção, publicada em 1864 pelo escritor francês Maurice Joly, que fantasia sobre uma conspiração para derrubar o regime de Napoleão III.
Os Protocolos surgiram 33 anos após a publicação do livro assumidamente ficcional de Joly. A diferença sutil foi uma das responsáveis pela assassinato de milhões de judeus ao longo do século XX: eles seriam os supostos conspiradores. Os objetivos não seriam apenas a derrubada de Napoleão III na França, mas a dominação de todo o planeta.
O regime nazista utilizou-se da farsa para justificar o Holocausto. Até hoje, quase 60 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o livro ainda é citado por grupos políticos de direita e de esquerda e é sucesso editorial nos países muçulmanos. Levar o livro a sério nestes países é mais do que simples vontade popular. Trata-se da posição oficial de governos como os do Irã, Líbano, Síria e Arábia Saudita.
Mesmo no ocidente, Os Protocolos influenciam milhares de pessoas que vêem nos judeus os culpados por sua miséria e desinformação. Muita gente crê que são os judeus que controlam as finanças internacionais, os governos dos grandes países e, é claro, a mídia. Essas mesmas pessoas ignoram o tamanho da população judaica: existem hoje em todo o mundo apenas 13 milhões de judeus. Para se ter a noção exata do que este número representa, vale lembrar que há cerca de 2 bilhões de cristãos e 1,5 bilhão de muçulmanos. Somente no Brasil há cerca de 27 milhões de torcedores do Flamengo. A população judaica corresponde a um quarto de um porcento de toda a população do planeta. Mas, mesmo assim, os seguidores dos Protocolos dos Sábios de Sião acreditam que existe uma conspiração judaica para dominar o mundo e que ela é eficiente (!).
Esta teoria, além de simplista, mentirosa e ignorante, é contraditória, já que implicitamente qualifica como idiota toda a população mundial. Imaginemos que de fato existisse uma conspiração de todos os judeus para dominar o mundo. Se realmente estivessem todos organizados e dispostos a levar a cabo tal plano, como os demais 99,75% de habitantes do planeta permitiriam que tal dominação fosse bem-sucedida? Apenas se fossem idiotas, ingênuos e desprovidos de qualquer poder de reação.
Outro ponto interessante é que o conteúdo do livro só concebe uma conspiração realizada por judeus. Portanto, somente os judeus devem ser alvo de desconfiança mundial. Imaginemos uma situação hipotética: há 55 Estados judeus no mundo e dez deles fazem parte de uma organização que determina o preço e a produção de uma matéria-prima essencial para o funcionamento da maior parte da tecnologia mundial. Isso seria o derradeiro sinal da grande conspiração judaica mundial? Os anti-semitas provavelmente diriam que sim.
Pois bem. Como se sabe, há apenas um Estado Judeu (Israel) e não 55, como no exemplo acima. Este número - 55 - corresponde, na verdade, à quantidade de Estados muçulmanos existentes hoje no planeta. E sim, há dez destes Estados muçulmanos que são membros de uma organização que controla a produção e exportação de uma matéria-prima fundamental para o funcionamento do planeta tal como o conhecemos hoje. A matéria-prima chama-se petróleo e a organização refere-se aos países exportadores desta matéria-prima (OPEP). Ela tem sede em Viena, na Áustria, e seus países-membros (11 no total, dos quais dez são Estados Muçulmanos) reúnem-se periodicamente para definir o aumento ou a diminuição da produção de petróleo. Como todo brasileiro que possui automóvel sabe, tais decisões afetam a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. E alguém é louco de afirmar que os muçulmanos dominam o planeta ou que existe uma conspiração para dominá-lo? Claro que não. A acusação só se aplica aos judeus, por mais escabrosa que ela pareça à luz de dados como os mostrados acima.
Outro ponto importante na atualização das acusações aos judeus é a mídia. Os judeus também dominariam o setor, segundo os anti-semitas e, por isso, o mundo inteiro seria iludido por informações favoráveis aos judeus. Obviamente, os judeus não controlam todos os veículos da mídia. Mas, é claro, há algum judeu dono de algum órgão de comunicação em algum lugar. Afinal, até onde eu saiba, membros de qualquer religião ou etnia podem fundar e administrar seus próprios negócios. Pelo menos nos países ocidentais. Na Jordânia, entretanto, a constituição afirma, por exemplo, que qualquer um pode ser cidadão jordaniano, exceto se for judeu. Mas ninguém toca no assunto, já que isso não incomoda nenhuma organização de direitos humanos ou de luta contra o preconceito.
Mas, voltando à mídia, o empresário australiano Rupert Murdoch é considerado hoje o "barão" da mídia. É dono da News Corporation, presente em 133 países, que tem entre seus maiores destaques os jornais Time, de Londres, o New York Post, as redes de TV 24 horas Fox News e Sky News e o tablóide inglês The Sun. Murdoch não é judeu. E se fosse? Seria este o sinal "mais do que claro" da "grande conspiração judaica"? Murdoch é cristão. Então isso significa que há uma conspiração cristã para dominar o mundo? Alguém é louco o suficiente para levantar esta bandeira? Por falar em Murdoch, é bom lembrar que parte da comunidade judaica decidiu realizar um boicote a grandes jornais norte-americanos como o próprio New York Post, Washington Post e Los Angeles Times devido à cobertura parcial e pró-palestina dos conflitos no Oriente Médio.
Afirmar que existe uma conspiração judaica para dominar o planeta soa mais como desvio de caráter e anti-semitismo do que como ingenuidade. Ignorar os fatos expostos é tomar partido numa campanha difamatória e anti-judaica que, infelizmente, tem feito a cabeça de muita gente considerada inteligente e que, desde o início da segunda intifada palestina, em setembro de 2000, mostra ter voltado com toda a força. Através dela, os anti-semitas tiveram a oportunidade de reeditar velhos preconceitos e de apresentá-los aos que ainda não o conheciam. Os Protocolos continuam vivos e não se vê muita possibilidade de exterminá-los de vez, mesmo a partir de sentenças exemplares, como a que condenou no Brasil o editor de livros anti-semitas Siegfried Ellwanger.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 2:03 PM - Comentários:
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