Quinta-feira, Setembro 30, 2004

Rio de Janeiro

ATRÁS DO CORCOVADO
Por Henry Galsky

O arrastão promovido por um bando no Leblon chocou muita gente. Principalmente a imprensa, que fez questão de mostrar que este tipo de ação é um absurdo. Mas engana-se quem pensa que ela revoltou-se pela simples violência do ato. Não, isso já não é suficiente para promover discussões acaloradas, artigos em jornais ou debates na televisão. O que tirou mesmo o pessoal do sério foi o fato de que os vândalos atuaram no último paraíso perdido do Rio de Janeiro, o Leblon.

Para quem não mora no Rio de Janeiro, vale lembrar que este bairro já foi tema de novela. Nele habitam escritores, intelectuais, gente bonita e inteligente. Ou seja, a nata da sociedade carioca. E, talvez por isso mesmo, o Leblon merece ser "o bairro mais policiado do mundo (!)", como afirmou o coronel Jorge Braga, comandante do 23o Batalhão de Polícia Militar. E a balbúrdia toda está aí, no fato de estes ousados bandidos terem violado o sossego e a tranqüilidade dos que vivem no Olimpo carioca.

Concordo com o comandante-geral da Polícia Militar, Hudson de Aguiar, que estranhou esta ação às vésperas das eleições municipais. "Não podemos aceitar que isso seja, como disse uma moradora, algo comum. Isso é mentira". E é mesmo. Estudo do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP), baseado em dados de julho deste ano e citados pelo jornalista Felipe Werneck da Agência Estado, mostra que 43,6% dos homicídios do Estado ocorreram na capital. Deste total, 47,3% ocorreram na zona oeste, 44, 1% na zona norte, 8,2% no centro e somente 0,5% na zona sul.

Mas, assim mesmo, a grita foi geral (vale lembrar que, felizmente, ninguém foi assassinado durante o arrastão). Até a instância federal se manifestou. Matéria publicada no jornal O Globo de 30 de setembro informa que "por causa dos ataques no Leblon, o Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar a responsabilidade das autoridades do Rio em relação ao patrimônio cultural imaterial, ou seja, a imagem da cidade do Rio de Janeiro". E este é um ponto central da questão. As autoridades em sucessivos governos municipais e estaduais optaram pela conservação deste tal "patrimônio cultural imaterial" em detrimento do patrimônio humano. Ou seja, expõem claramente em suas políticas de segurança e desenvolvimento que um cidadão do Rio de Janeiro vale menos por não pertencer aos felizes 14% de cariocas que vivem na zona sul.

Por isso mesmo, soa bastante contraditório que uma percela ainda menor destes 14% de habitantes tenha o privilégio de contar com o maior contingente policial da cidade (ou, como disse o comandante do batalhão do bairro, o maior policiamento do mundo!). A interpretação destes números pode concluir que: a) o policiamento funciona e b) os 86% da população carioca que não vivem na zona sul - e mais especificamente no Leblon - foram, conscientemente, excluídos de usufruir de tal política de segurança. Ou, finalmente, que dos pouco mais de seis milhões de cariocas, cerca de cinco milhões são claramente tratados pelas autoridades de segurança como cidadãos de segunda classe.

O episódio serviu para deixar ainda mais evidente a existência de duas cidades dentro do Rio de Janeiro. Em uma delas há progresso, cultura e segurança. Na outra há índices de violência realmente alarmantes e está de fato às margens do poder público. As autoridades já tomaram sua decisão: governam apenas para os 14% que vivem na zona sul. Às vésperas de eleições municipais como mobilizar os 86% que estão de fora dos planos para que elejam candidatos que não estão comprometidos a representá-los? E o que vai acontecer quando esta população perceber que de fato responde pela parcela descartada da sociedade? O arrastão no Leblon esfregou a exclusão na cara de cinco milhões de pessoas. O caos social promovido por aqueles que estão de costas para a Estátua do Corcovado ainda está por começar.


Quinta-feira, Setembro 16, 2004

Internacional

O MUNDO ESTÁ CEGO
Por Henry Galsky

Um grupo de terroristas entra numa escola, aprisiona professores e crianças e ameaça matar a todos. O governo russo não negocia. De maneira ainda desconhecida, tropas russas invadem a escola. Os terroristas, então, passam a atirar em todos. O objetivo é assassinar o maior número possível de reféns. O saldo é de 320 mortos, entre estes 126 crianças.

Dias após a tragédia, um vídeo com imagens captadas por um dos terroristas exibe o ginásio onde estavam os reféns: explosivos em cestas de basquete, homens e mulheres encapuzados. Na mesma semana, grupos terroristas derrubam aviões na própria Rússia e explodem dois ônibus simultaneamente em Israel. Mais civis mortos. E como parte da imprensa reage a isso? Editorial do jornal O Globo no dia seguinte à tragédia russa colocava a culpa no presidente Putin. Artigo de Roberto Pompeu de Toledo na revista Veja afirma que os atentados estão sendo capitalizados por Putin e Bush - este último em sua tentativa de reeleger-se. O mundo foi cego ou preferiu cegar-se? O que impede os ocidentais de perceberem que o inimigo está atacando e vai continuar a fazê-lo a menos que esbocemos uma reação?

Pouca gente parece estar lúcida o suficiente para entender que o fundamentalismo islâmico não ataca por um simples objetivo político, seja ele a criação de um Estado Palestino ou de um Estado Muçulmano independente na Chechênia. O Hamas, por exemplo, não deseja simplesmente a criação de um Estado que possa existir ao lado de Israel. Eles são claros - e talvez mais honestos que alguns setores da imprensa que tentam justificar seus atos terroristas - ao afirmar em sua carta de fundação que seu objetivo é destruir Israel, matar os judeus e criar um Estado Islâmico sobre o que hoje é o Estado Judeu.

O fundamentalismo islâmico luta contra tudo aquilo que a nós, ocidentais, parece justo: democracia, respeito às minorias, respeito às diferenças, liberdade de escolha sexual, direitos femininos, liberdade religiosa e liberdade de imprensa. Seus ataques são direcionados a todos estes valores que prezamos. Enquanto isso, continuamos a buscar justificativas para estes atos de pura barbárie. Ou seja, ajudamos estes terroristas na medida em que justificamos e procuramos encontrar explicações para suas operações de extermínio, o que nem eles próprios se dão ao trabalho de fazer ou, quando fazem, não convencem a quem tenta refletir um pouco mais. Por exemplo, o Hamas afirmou que os ataques aos ônibus em Beer Sheva, Israel, contra civis e crianças que voltavam das férias escolares trataram-se de vingança contra o assassinato por Israel de seus líderes. Ora, então matar 16 civis e deixar mais de 100 feridos é uma vingança contra o assassinato de dois terroristas declarados ou apenas uma desculpa para matar?

O filósofo Paul Berman, autor do livro "Terror e Libertação", parece ser uma das poucas vozes de lucidez que tiveram coragem de diagnosticar a reação ocidental a atos terroristas. Após os ataques de 11 de setembro, Berman afirmou que a tentativa de explicação do ocidente passa pela crença de que "no mundo moderno, mesmo os inimigos da razão não podem ser os inimigos da razão. Até o irracional deve ser, de algum modo, racional".

David Brooks, jornalista do New York Times e que também cita Berman, confronta as justificativas ao terrorismo. Em artigo publicado no jornal O Globo e intitulado "O Culto da Morte", Brooks afirma que o mundo continua a tentar esconder de si mesmo os atos de barbárie e "desvia o olhar" do que realmente acontece. "Se forem vistos os editoriais e declarações públicas feitos em resposta a Beslan, será notado que eles evitam os responsáveis pelo ato e buscam alvos bem mais convencionais para serem odiados. Não foi uma tragédia. Foi uma operação de assassinato coletivo cuidadosamente planejada. E não foram autoridades russas que encheram de explosivos cestas de basquete e atiraram em crianças pelas costas", escreve após diagnosticar com precisão as motivações da barbárie que ataca Israel há onze anos consecutivos e, mais recentemente, Nova Iorque, Bali, Madri, Moscou e Beslan: "Deveríamos agora já estar acostumados ao culto da morte que prospera na periferia do mundo muçulmano. É o culto de pessoas que se orgulham de dizer 'Vocês amam a vida, mas nós amamos a morte' (...). Mas é esta a idéia. Porque o culto da morte não se importa com a causa que professa servir. Trata-se do prazer absoluto de matar e morrer".

Achei no mínimo estranho quando li um artigo do escritor Luís Fernando Veríssimo, publicado em 16 de setembro no Globo. Para o escritor, a tragédia na Rússia foi capaz de mudar posições em parte do mundo islâmico. "A escalada de horrores, que chegou a uma espécie de apoteose tétrica em Beslan, estaria levando muitos muçulmanos a reverem sua omissão diante do terror (...). Banalizou-se a identificação do Islã com desumanidade e atraso e estaria se organizando uma reação ao estereótipo, não ao nível dos príncipes e dos magnatas, mas ao de intelectuais, políticos moderados e mesmo religiosos, para não dar razão aos que, do outro lado, não querem outra coisa senão uma guerra de civilizações", escreve. Confesso que gostaria sinceramente de concordar com o Veríssimo. Mas não posso. Não posso porque nos últimos quatro anos o fundamentalismo muçulmano matou mais de mil civis israelenses e boa parte do islamismo não "reviu sua omissão diante do terror". A não ser que matar judeus não seja terrorismo para "os intelectuais, políticos moderados e religiosos" muçulmanos.

Mas, voltando ao fetiche da "justificativa ocidental", vale lembrar que a segunda intifada palestina teve início logo após Arafat recusar em Camp David, nos Estados Unidos, a proposta do então primeiro-ministro israelense, o trabalhista Ehud Barak, que previa um acordo de paz definitivo. Barak propôs a Arafat a criação de um Estado palestino na totalidade da Faixa de Gaza, em 97% da Cisjordânia e a divisão de Jerusalém, que serviria de capital para os dois países. O líder palestino recusou sem - voltamos a esta palavra mágica - justificativa alguma.

Buscar explicações para todos os atos de assassinatos coletivos cometidos pelo fundamentalismo islâmico é, como ensina David Brooks, desviar os olhos para o que realmente acontece no mundo. É cegar-se espontaneamente numa tentativa de adiar a solução de um problema que torna-se cada vez mais grave à medida que nos recusamos a enfrentá-lo de frente. Mais grave do que isso: é tornar-se cúmplice dos assassinatos planejados e direcionados a civis inocentes.