Terça-feira, Outubro 19, 2004

PASSO A FRENTE. PORQUE AS DECISÕES PRECISAM SER TOMADAS
Por Henry Galsky

Para parte dos críticos, o filme "O Terminal", do diretor Steven Spielberg, pareceu mais uma produção sem sentido e sem graça do grande cinema norte-americano. Justamente por ser assim classificado, decidi pagar os absurdos 16 reais para assistir a ele (e é assim mesmo que se diz. Afinal, alguns verbos transitivos indiretos que exigem a preposição "a" não admitem o uso dos pronomes). Voltando ao assunto, sempre desconsiderei a maior parte das opiniões dos críticos e, por isso, costumo fazer minhas opções culturais no sentido contrário às indicações dos jornais.

E penso ter feito a escolha certa novamente. Viktor Navorski (Tom Hanks) é um cidadão de um país fictício da Europa Oriental chamado Krakhozia. Ao chegar ao aeroporto JFK, em Nova Iorque, descobre que seu país sofreu um golpe de Estado e está imerso numa violenta guerra civil. Por este motivo, os Estados Unidos não validam o passaporte de Navorski, já que a disputa entre revolucionários e o antigo regime permanecem em Krakhozia e o mundo ainda não reconhece quem responde pela autoridade daquele país. Sem passaporte, Navorski não pode entrar nos Estados Unidos, nem voltar para seu país ou mesmo ir a qualquer lugar. É um apátrida, de acordo com as leis internacionais. Ele passa, então, a viver no terminal. O Departamento de Imigração dos Estados Unidos lhe entrega um bipe que deveria tocar quando seu problema estivesse resolvido.

Interpretei "O Terminal" como uma metáfora sobre identidade e espera - que, graças ao complexo sistema de imigração, cruzam-se através da burocracia. O fato é que Navorski torna-se seu refém. Todos os dias, ele vai ao mesmo balcão do aeroporto preencher um formulário que é diariamente recusado. Mais do que isso, o filme faz pensar sobre o próprio sentido da palavra "identidade". Afinal, de acordo com as leis internacionais, Navorski deixou de ser um cidadão de Krakhozia a partir do momento em que seu passaporte deixou de ser reconhecido internacionalmente.

Entretanto, ele mesmo sabia quem era apesar de já não possuir um documento que comprovasse suas origens. Sabia que era diferente dos cidadãos norte-americanos que circulavam pelo aeroporto e de seus novos amigos que lá trabalhavam. Reafirmava - mesmo que de maneira inconsciente - sua própria identidade a partir das diferenças. E este é um dos pilares do próprio conceito de "identidade", como escreve o professor de ciência política Antonio Ozaí da Silva: "A identidade é definida pela relação com outros indivíduos, isto é, cada indivíduo se completa e se efetiva no relacionamento com os que estão à sua volta, em seu convívio. É na relação entre o 'eu' e o 'outro' que se constrói a identidade do 'eu'.

Outro aspecto interessante é o fato da identidade ser móvel e não estática, como aprendi com o jornalista Paulo Geiger. É importante saber o nosso passado, mas somente isso não é suficiente. É preciso ter uma intenção de futuro para que possamos viver a identidade em sua plenitude e, até mesmo, para dar a ela uma função prática. E é isso o que acontece com Navorski na parte final do filme. Ele toma uma decisão e, assim, consegue sair da situação kafkiana em que havia vivido nos últimos nove meses. Não pretendo contar o final do filme, é claro. Portanto, quem quiser saber como Navorski resolve sua situação que vá ao cinema.

O importante é descobrir o sentido da identidade para cada um. Há aqueles que pensam que ela é simplesmente a cidadania mencionada no passaporte, a religião ou mesmo o time de futebol. Penso que ela pode ser uma junção de tudo isso. Creio que a identidade não cabe numa gaveta, num compartimento ou possa ser resumida com um carimbo de aeroporto. E, mais ainda, acredito que a intenção de futuro é fundamental para definir quem somos e o que queremos ser. Como já disse Shakespeare, "O que eu sou é o que me faz viver".