Quarta-feira, Novembro 17, 2004

Internacional

ANTI-HERÓI
Por Henry Galsky

A morte de Yasser Arafat provocou uma massiva cobertura da mídia. É o tipo de evento que jornais, revistas e tevês de todo o mundo adoram. A morte se transforma em espetáculo capaz de produzir extensas reportagens. Neste caso, a maior parte das matérias dividiu-se em dois grandes ramos: a) o futuro do Oriente Médio e, mais especificamente, do conflito israelense-palestino (que historicamente é um conflito árabe-israelense); e b) a biografia de Arafat e com qual rótulo ele deverá passar para a História. E foi aí que parte da imprensa pisou feio na bola.

Muitos veículos de comunicação retrataram o controverso personagem como um herói (o portal Terra, por exemplo, usou o termo "Herói da Resistência" para adjetivá-lo). Parte da imprensa - que considero como a mais responsável - preferiu apontá-lo como um símbolo palestino, o que é inegável. Até gênios de nossa literatura, como o escritor Carlos Heitor Cony, embarcaram na onda emotiva criada em torno da morte de Arafat. "É um dos heróis do nosso tempo, em que pese ter sido um vilão para seus adversários", escreveu em coluna intitulada "Hipótese Macábra", publicada no dia 16 de novembro na Folha de São Paulo. Cony mostra-se solidário aos reclames de Suha, mulher de Yasser Arafat, que acusava seus adversários de tentarem enterrá-lo vivo. O único problema é que Cony esquece de dizer que o descontentamento de Suha era direcionado a membros do alto escalão da própria Autoridade Palestina (AP) e não a Israel.

Não creio que alguém como Yasser Arafat possa ser considerado um herói para seu povo. Justamente por ter recusado a própria criação de um Estado palestino independente em 2000, que contaria, inclusive, com Jerusalém como capital. Arafat desistiu de Camp David, local onde realizavam-se as conversações para um acordo de paz definitivo entre as partes, sem apresentar nenhuma contra-proposta ao então primeiro-ministro israelense Ehud Barak. A ex-primeira-ministra de Israel, Golda Meir, já previra tempos antes o comportamento político de Arafat: "ele sempre cria a oportunidade de perder oportunidades".

É fato que o povo palestino sofre de uma pobreza absoluta, mas também é fato que a administração Arafat era responsável por desviar uma enorme quantia de dinheiro ao longo de seus quase dez anos de permanência no poder. A estrutura altamente corrupta produzida por sua administração mergulhou Gaza e Cisjordânia num levante recente contra os desvios de dinheiro e os favorecimentos políticos a parentes de Arafat.

Em 7 de novembro de 2003, uma investigação da rede de tevê BBC descobriu que mais de 50 mil dólares mensais eram desviados pela Fatah - com a aprovação de Arafat - para as Brigadas dos Mártires de al-Aqsa com o objetivo de financiar os atentados a civis israelenses. Arafat sempre afirmava que nada podia fazer para impedir os atentados a civis, mas a reportagem mostra o contrário. Questionado pela BBC sobre a possibilidade das Brigadas dos Mártires de al-Aqsa cessarem os ataques a civis caso este fosse o desejo de Arafat, o líder do grupo terrorista, Zakaria Zubaydi, foi bastante claro: "se Arafat nos pedir um cessar-fogo, respeitaremos seu pedido e vamos encerrar os ataques". O pedido nunca foi feito.

Suha Arafat recebia a cada mês 100 mil dólares da Autoridade Palestina, segundo reportagem do dia 9 de novembro de 2003 veiculada pelo programa 60 Minutes da CBS. Segundo o programa, Yasser Arafat também mantinha investimentos em empresas como Coca-Cola, uma companhia de telefonia celular da Tunísia, além de fundos de capital nos Estados Unidos e nas Ilhas Caimã. Relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 15 de setembro de 2003 indica que mais de 8% (correspondente a 135 milhões de dólares) do orçamento da Autoridade Palestina eram administrados pessoalmente por Arafat e o destino deste montante jamais foi encontrado. As acusações mais graves relativas à corrupção do ex-presidente da Autoridade Palestina foram feitas pelo contador Jim Price para a mesma rede de tevê CBS. Price havia sido contratado para investigar o desvio de verbas na AP e suas acusações são graves. "Apesar do dinheiro ser proveniente de fundos públicos - como os impostos pagos pelos palestinos - nenhuma soma foi utilizada em benefício do povo palestino", afirmou.

Além de encobrir atentados a civis, desperdiçar oportunidades de criar um legítimo e pacífico Estado para seu povo, Arafat descumpriu uma das cláusulas mais importantes previstas pelos acordos de Oslo, assinados com Israel, em 1993: educar as futuras gerações para a paz. Sob a administração Arafat, os livros escolares palestinos negavam - e continuam a fazê-lo - a própria existência do Estado de Israel e apresentam a Jihad como uma filosofia de vida (neste caso, de morte) admirável a ser seguida. Segundo Itamar Marcus, diretor da organização Palestinian Media Watch, os textos escolares palestinos estão longe de cumprirem com os objetivos firmados em Oslo. "A verdade é que as escolas palestinas incitam os alunos ao anti-semitismo e a negar a existência do Estado de Israel. No novo livro adotado na sexta série, o anti-semitismo é apresentado abertamente. As crianças aprendem que Alá irá assassinar os judeus pelo simples fato de serem judeus e, por conseqüência, maus", escreve em artigo publicado em 17 de outubro de 2004.

O legado de Arafat também é criticado pelos próprios palestinos. Em artigo publicado em 15 de novembro deste ano no jornal Diário de São Paulo, Bassem Eid, diretor-executivo da organização palestina independente Palestinian Human Rights Monitoring Group, contrapõe-se ao lugar-comum de que Arafat foi um herói. "De acordo com inúmeros observadores internacionais e palestinos, a administração de Yasser Arafat foi caracterizada pelos seguintes aspectos: ruptura da democracia durante as tomadas de decisões, corrupção e favorecimento de políticos e oficiais, divisão do poder entre um número restrito de familiares nas inúmeras agências do governo, utilização de posições políticas para o favorecimento de interesses privados e outros desvios", afirma.

Não classificaria Arafat como herói. É inegável, entretanto, que trata-se de um símbolo do povo palestino, mas não de sua causa: a criação de um Estado independente. Investigar as acusações que pesam contra ele é fundamental antes de que qualquer análise seja feita. É difícil compreender também a tentativa de presença de um alto representante do governo brasileiro no funeral. Qual seria o objetivo de nosso governo? Esperamos que não seja alinhar-se com as políticas de Arafat. Seja na administração do dinheiro público, seja na manutenção de seus próprios compromissos, Arafat não foi um exemplo a ser seguido. Muito menos pelo Brasil.


Segunda-feira, Novembro 01, 2004

Internacional

NOVOS FATOS, VELHO IMPASSE.
Por Henry Galsky

A aprovação pelo parlamento de Israel da retirada dos assentamentos em Gaza criou mais um fato novo no cenário político do Oriente Médio. Mais do que isso, mostra que o Estado Judeu é o único da região verdadeiramente comprometido com a criação de um Estado palestino, desde que este possa conviver pacificamente a seu lado e não tenha como objetivo riscá-lo do mapa.

Mas, por mais que os países árabes, setores da esquerda e a própria cúpula da Autoridade Palestina se esforcem para dizer o contrário, fica difícil negar que os palestinos ainda sonham em destruir Israel. É isto que os fatos fazem questão de evidenciar. Afinal, qual seria a desculpa atual para mais um atentado terrorista homicida num mercado movimentado de Tel-Aviv? Israel aprova a retirada de Gaza e a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) responde com um ataque que mata quatro civis e fere outros 34. Mais uma vez, os grupos terroristas (sim, não são militantes, rebeldes ou qualquer outra denominação mais "leve" utilizada pela imprensa) mostram que seus ataques têm como objetivo a morte de civis pelo simples prazer de matar e que não precisam de desculpas políticas para fazê-lo.

A provável retirada israelense de Gaza também provocou uma série de reportagens sobre o assunto. E, mais uma vez, termos foram distorcidos pela descontextualização de eventos históricos, prática bastante comum na guerra de opiniões que envolve este conflito. Assim, Gaza foi novamente denominada de "território ocupado por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967". É bom lembrar que a Guerra dos Seis Dias foi um confronto militar em que cinco países árabes tentaram abertamente destruir Israel. Entretanto, o Estado Judeu venceu o confronto e tomou a Faixa de Gaza - não dos palestinos, mas dos egípcios - e a Cisjordânia - não dos palestinos, mas dos jordanianos. Há quem não saiba, mas a Jordânia anexou a Cisjordânia no início da década de 1950 (território destinado pelas Nações Unidas, em 1947, à criação de um Estado árabe-palestino).

É por isso que são hipócritas as declarações do vice-primeiro-ministro da Jordânia, Maruan Moasher, de que as relações de seu país com Israel dependem fundamentalmente da criação de um Estado Palestino independente. Nos quase 20 anos em que a Jordânia ocupou a Cisjordânia jamais foi cogitada a possibilidade de criação de um Estado Palestino. Muito pelo contrário. Preocupado com o crescimento da população palestina na Jordânia, o Rei Hussein tomou uma decisão bastante simples. Em setembro de 1970, suas forças militares mataram 10 mil palestinos. O episódio ficou conhecido como Setembro Negro.

O fim da Era Arafat

Outro fato importante, é a quase-morte de Yasser Arafat. Muitos acreditam numa guerra civil entre os grupos terroristas palestinos. Não creio nesta possibilidade. Acho difícil que os grupos terroristas partam para um confronto aberto entre si, pelo simples fato de haver mais de dez facções diferentes, o que provocaria um certo eqüilíbrio de forças. Creio que com a morte de Arafat haveria um desmembramento de influências e cada grupo teria sua pequena zona de poder dividida entre cidades. O cenário perfeito seria o surgimento de uma liderança jovem capaz de unir os palestinos em torno de si e que estivesse disposta a negociar com Israel. O problema é que nenhum nome parece ser unânime entre os palestinos e, aqueles que contam com a simpatia de Israel, como o ex-chefe de segurança, Mohammed Dahlan, não são aceitos por parte das facções justamente por serem vistos como aliados do Estado judeu.