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Segunda-feira, Dezembro 13, 2004
Brasil
LEDO ENGANO NA PRAIA DO LIDO
Por Henry Galsky
A queima de fogos na orla do Rio de Janeiro e, especialmente, em Copacabana, é a grande atração da cidade no fim de ano. A prefeitura prepara para este réveillon uma festa grandiosa. A surpresa vai ficar por conta do inédito acompanhamento musical de composições brasileiras que embalará o fogaréu nos céus da zona sul. Pelos quinze minutos de espetáculo, o município gastou a módica quantia de R$ 1,195 milhão.
Como sempre, o evento deste ano será maior do que o do ano anterior. A organização anuncia que a queima de fogos do próximo dia 31 terá 38 toneladas a mais do que a do réveillon de 2003. Desde pequeno, leio as mesmas matérias nos jornais e fico com a sensação de que a queima de fogos é algo que sempre existiu, como o universo. A tarefa dos administradores da cidade, independentemente da sigla política que eles representam, é sempre a de superar o número de explosões do ano anterior. Chegará o dia em que a explosão será tão grande que irá provocar um acidente nuclear como o de Chernobil. Veremos.
O fato é que enquanto o Rio de Janeiro prepara a festa, a violência não dá trégua. As estatísticas não mentem. Apesar do número de homicídios ter diminuído 8,5%, somente no ano passado 6.624 brasileiros (não se enganem, o privilégio não é apenas da cidade maravilhosa) perderam suas vidas assassinados. A título de comparação, artigo do professor Gláucio Soares, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), informa que na Colômbia houve, no mesmo período, 1.604 mortos.
Talvez seja um problema psicológico brasileiro, mas ainda não admitimos abertamente que vivemos situação comparável a de países em guerra. Deve ser um mecanismo de auto-defesa, mas confesso que me sinto mal ao saber de tais estatísticas ou ao ler declarações como a de Eric Pelofsky, advogado norte-americano que voluntariamente foi trabalhar no Iraque. Em ótima entrevista concedida à repórter Tania Menai, do site NoMinimo, ele responde da seguinte forma ao ser perguntado em que medida era possível sentir que havia uma guerra acontecendo a seu redor: "Eu escutava. Em alguns dias, quando ouvíamos foguetes e morteiros, sabíamos que a guerra estava bem próxima. Em outros dias, não escutávamos nada, eram dias normais...". Ora, falando pela minha experiência no assunto, posso dizer que já estou mais do que acostumado a ouvir tiros, seja em casa (quando há tiroteio no morro atrás do prédio onde moro), seja no trabalho (uma zona de alto risco onde há freqüentes - senão diárias - trocas de tiros entre quadrilhas de traficantes rivais que circundam a empresa).
A violência é uma epidemia que atinge o Brasil. Recente estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) em conjunto com a Organização Mundial de Saúde (OMS) revela que, somente na década de 1990, as armas de fogo foram responsáveis por 266 mil mortes no Brasil. É como se toda a população da cidade de Volta Redonda, no interior do estado do Rio de Janeiro, desaparecesse em dez anos.
Quantas populações estamos dispostos a perder em nome do auto-engano que cometemos diariamente? Afinal, a violência é como uma doença. O primeiro passo que o Brasil deve adotar para acabar com ela é admitir sua existência. O segundo é tratá-la com planos sérios, de longo prazo e definitivos.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 11:28 AM - Comentários:
Quarta-feira, Dezembro 01, 2004
Brasil
ATIRANDO NO PRÓPRIO PÉ
Por Henry Galsky
A última moda no Rio de Janeiro é assaltar turistas desavisados. Os visitantes são vistos como um público-alvo (alvo quase que literalmente) por andar com dólares, possuir aparatos tecnológicos de última geração e apresentar altas doses de ingenuidade. A imprensa tem noticiado bastante o ataque a estrangeiros que visitam a cidade com o propósito de denunciar o perigo que o Rio e o Brasil correm ao espantar a talvez última salvação de uma economia decadente que nos últimos tempos perdeu indústrias e, por conseqüência, fontes de renda e emprego.
Talvez, o turismo seja mesmo a última salvação do Brasil. Se isso acontecesse, a cidade do Rio de Janeiro seria a maior beneficiária. Afinal, goste ou não, o município é a vitrine do país no exterior e, segundo estatísticas, dos quatro milhões de turistas que desembarcaram no Brasil em 2003, mais de um quarto teve como destino a cidade maravilhosa.
Pode parece lugar-comum - e é mesmo -, mas é difícil encontrar no mundo um país com o mesmo potencial turístico do Brasil. Além das belezas naturais, possui a excelente condição de não ser alvo de nenhum grupo terrorista (o que é uma baita vantagem no mundo de hoje).
Mas, apesar de todas essas qualidades, os números do setor são pífios comparados aos de outros países. Tomemos o exemplo de Cingapura, país asiático com características semelhantes ao nosso, já que é visto por europeus e norte-americanos como um destino exótico e também classificado como uma economia em desenvolvimento. Enquanto no ano passado o Brasil atingiu a comemorada cifra de quatro milhões de estrangeiros, Cingapura foi o destino escolhido por mais de 1,5 milhão de turistas somente - e este é o detalhe perverso - entre os meses de janeiro e março do mesmo ano. Ou seja, em apenas três meses, o Tigre Asiático recebeu quase a metade de turistas que o Brasil num período de um ano. Além disso, a taxa média de ocupação dos hotéis em 2003 ultrapassou a excelente marca de 70%. E o que há de tão especial para ser visto por lá?
Em Cingapura há um grande jardim zoológico que serve de moradia para mais de duas mil espécies animais. Há um safári noturno, o Parque de Aves Jurong e o Mundo Submarino. Há também os chamados bairros étnicos, como Chinatown e a Pequena Índia, além do Museu Nacional de Arte e o Museu de Filatelia, que existe há 90 anos, e os belos templos budistas e muçulmanos. Sem dúvida são atrações interessantes, mas creio que o Brasil possui predicados ainda melhores.
O segredo do sucesso de Cingapura é a organização. Há placas em inglês que orientam os turistas e a população local tem plena consciência de que o setor é uma fonte de renda inesgotável. Além disso, o país investiu seriamente no chamado "turismo de negócios".
Já o Brasil, bem o Brasil vem tentando aos poucos mudar a imagem de destino perfeito para o turismo sexual que construiu durante décadas de campanhas infelizes no exterior. Ainda não há placas de orientação específicas para estrangeiros em visita e, menos ainda, a maior parte da população não vê o visitante como um parceiro, aquele capaz de injetar dinheiro na economia local. Se não percebermos isso rapidamente, é bem provável que continuemos a figurar atrás de países como Polônia, Lituânia e África do Sul na lista dos destinos mais procurados. E sem turistas, meu amigo, até os bandidos vão ter que atirar no próprio pé.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 6:47 PM - Comentários:
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