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Sexta-feira, Janeiro 21, 2005
Ficção
O APARTAMENTO
Por Henry Galsky
Num pedaço de papel, decidiu fazer contato depois de muito tempo em silêncio - na verdade nem era tanto tempo assim. Era só impressão. De qualquer maneira, escreveu despreocupado o bilhete que agora balançava ao ritmo do vento na grande mesa de madeira da sala.
A casa em que vivera estava vazia. Por mais que tentasse, não conseguia se reencontrar naquelas paredes brancas, sem quadro ou fotografia que sustentavam o antigo apartamento na zona norte. Nada era como antes e aquela visita que num sobressalto resolvera fazer já lhe causava arrependimento.
Os dias haviam se passado e se transformaram em meses e anos. Naquele dia exato, completava-se uma década de ausência. Por mais que tentasse, sabia que seria inútil buscar respostas a suas questões a partir de uma simples efeméride. Lembrava-se daquele dia em que pegou as malas com as roupas amarrotadas e foi embora. Na época, a atitude foi considerada uma grande ruptura. Nem tanto pelos outros, mas por ele mesmo. Desde criança tinha apego aos objetos. Não um apego material bobo, mas um sentimento de que eles também tinham sentimentos, emoções. Sua maior dificuldade era se livrar de coisas que já não serviam, mesmo que ocupassem espaço. Com a casa foi diferente. Afinal, não podia jogar o apartamento no lixo, até porque não queria. Por isso, jogou-se no mundo.
Assim, quando passou pelo prédio em que viveu por quase 30 anos, não resistiu. Perguntou ao porteiro sobre o apartamento. Não era mais o mesmo porteiro e por isso não houve emoção, felizmente. Com ele soube que o apartamento estava para ser alugado, apesar de não haver interessados naquele momento e marcou a visita para a semana seguinte. Aquele dia, finalmente. O bilhete com seu nome e telefone estava agora em cima da mesa de madeira. Não passava de um estranho para o imóvel. Um estranho que o visitava e que iria se despedir.
A falsa sensação de segurança que o apartamento provocava causava-lhe um enorme vazio. Conhecia cada canto do imóvel e tentava se lembrar de sua trajetória de vida após dez anos em que os dois estavam separados. Não tinha filhos, nem mulher. Nas costas a vida lhe impôs um casamento desfeito e algumas mágoas. Era interessante notar que vivia na efeméride daquele dia uma situação muito parecida à de quando deixou sua família primordial: os pais, os avós e o velho apartamento.
As semelhanças não paravam por aí. Quando saíra de casa mais jovem carregava a dúvida ansiosa daqueles que esperam muito da vida. Hoje também tinha dúvidas, mas conformara-se com a praticidade desconfortável das contas de luz, telefone e aluguel. A família desmanchou-se aos poucos. A vida lhe tirara cada um de seus parentes até que não sobrara nenhum. Era natural, mas nem por isso menos doloroso. É assim com todo mundo. Nascemos repletos de familiares apenas com o intuito de ter boas lembranças. O ciclo deveria se repetir, mas, por obra do destino, não se estabilizara com ninguém.
Apesar de tudo, estava conformado. Carregava no coração a certeza de que havia gente em pior situação. Ao menos tinha um trabalho que, se não o satisfazia, pelo menos o sustentava. É verdade que sempre quis ter família. Para ele era mais que um desejo; tratava-se mesmo de uma obrigação. Um senso de justiça que o seguia. Queria ter filhos para acompanhá-los de perto e não à distância, como um mero observador sem influência.
Também conformara-se com o que o destino havia lhe reservado até aquele momento. Ao contrário da maioria, não alimentava dentro de si esperança nenhuma, já que gostava mesmo é de surpresas. Se possível, boas surpresas. Assim, com este raciocínio pouco ambicioso, aprendera a lidar com suas "não-frustrações". Sim, porque só é frustrado aquele que espera alguma coisa da vida ou das outras pessoas. Quem nada espera, de nada pode reclamar. E assim foi vivendo e trilhando um caminho com poucas decepções. Ou pelo menos era o que pensava, já que a falta de esperança não era algo natural, de forma alguma. Funcionava como uma doutrina política ou uma dieta. Policiava-se o tempo todo para pensar daquela forma. Quando queria muito alguma coisa, logo analisava friamente os dados e calculava a probabilidade de alcançá-la. Se chegava à conclusão de que as possibilidades de conseguir eram pequenas, preferia pensar que era assim mesmo que a vida funcionava e que deveria aceitar o mecanismo do destino
Por isso, sentia-se aflito naquele apartamento, já que aquele era o cenário onde vivera sua ascensão e queda. Lembrava-se de que um dia fora um menino cheio de planos e entusiasmo e sentiu que, como numa sessão de hipnose, talvez pudesse mudar sua trajetória caso tivesse os elementos necessários. Mas, como de hábito, logo desistiu da idéia. Decidiu ir embora o quanto antes. Talvez o cheiro de madeira e o mofo do tapete tivessem lhe feito mal.
Já se encaminhava para trancar a porta quando notou um pedaço de papel no chão. Abaixou-se e percebeu que não era um papel qualquer, mas um velho e surrado retrato dele mesmo. Lembrava-se daquela fotografia. Era o seu primeiro dia de aula na escola e ele devia ter no máximo uns quatro anos de idade. Aquilo lhe provocara uma estranha sensação de propriedade. Sentia que, de alguma maneira, aquele lugar ainda era seu e um sopro de otimismo varreu-lhe o coração. Depois de muito tempo, sua racionalidade cotidiana dava lugar à certeza moral de que podia recomeçar do zero naquele mesmo lugar. Desceu correndo as escadas e, confuso e ansioso, só pensou numa frase para dizer ao assustado porteiro: "vou alugar o 304".
 Viva
Voz por Henry Galsky às 3:23 PM - Comentários:
Quinta-feira, Janeiro 13, 2005
Internacional
FELIZ 2006
Por Henry Galsky
O começo do ano costuma causar expectativa. Ansiedade, planos para uma vida renovada e esperança. Considero-me um otimista e, por isso, também desejei bons acontecimentos para o ano que se inicia. Não serei hipócrita e devo admitir que pedi mais por mim, pela minha família e pelos meus amigos. Mas este começo de ano está sendo no mínimo estranho, para não dizer sinistro.
Os dias que antecederam 31 de dezembro anunciaram uma das maiores tragédias naturais dos últimos tempos. Nomes desconhecidos para a maior parte da população acabam caindo na boca do povo após serem os pivôs de grandes tragédias. Foi assim com Osama bin Laden, está sendo agora com as tsunamis. Uma palavra até então desconhecida da maioria das pessoas hoje é sinônimo de desgraça. As ondas gigantes atacaram o sudeste asiático no dia 26 de dezembro. O cálculo dos mortos já começou alto. Primeiro cinco mil, depois oito mil, dez mil, 12 mil até que o mundo percebeu que o número de mortos ultrapassaria a casa das centenas de milhares e seria inútil tentar estabelecer um limite final.
Dias depois à grande tragédia asiática, também tivemos a nossa. A cidade de Criciúma, em Santa Catarina, sofreu com um tornado. Na Califórnia, um maremoto de lama causou pânico e destruição e já provocou a morte de mais de dez pessoas. Na Europa, os alagamentos foram os responsáveis pela tragédia local e algo parecido ocorreu também em São Paulo. Não me lembro de ter visto um início de ano como este. Também não me lembro de ter ouvido falar desta sucessão de acontecimentos trágicos.
Se não bastasse o que ocorre em nosso planeta, espanto-me ao ler a notícia de que a NASA, a Agência Espacial Norte-Americana, prepara-se para lançar um foguete que tem como objetivo perfurar um cometa que está a cerca de 150 milhões de quilômetros distante da Terra. Infelizmente, os cientistas encarregados do projeto não sabem o que pode acontecer quando o impacto ocorrer. Também não entendi o motivo de tal empreendimento, apesar de a equipe dizer que não, de jeito nenhum, o objetivo da ação seja impedir que o cometa entre em colisão com a Terra. Não devemos temer esta possibilidade. É o que eles dizem.
Tantos acontecimentos inusitados e ainda mais improváveis por acontecerem quase que simultaneamente dão a impressão de vivermos algo que ainda não conseguimos mensurar. Creio que ainda não tenhamos nos dado conta da importância deste momento histórico. A Terra está mais redonda, no sentido literal da palavra, o Pólo Norte mudou de posição, a duração dos dias ficou 2,68 microssegundos menores e as Ilhas Maldivas foram deslocadas. Muitas mudanças para pouco tempo. Ainda falta uma análise mais profunda sobre tais eventos. Mas é assim mesmo que funciona; é difícil percebermos um grande momento histórico quando somos nós que o vivemos. Tudo parece tranqüilo no olho do furacão.
Se o ditado diz que a "vida imita a arte" e se considerarmos arte o produto da indústria cinematográfica de Hollywood, poderíamos comprovar que estamos vivendo neste exato momento dentro de uma grande produção norte-americana. Mas com algumas diferenças sutis. No Filme Impacto Profundo, dirigido por Mimi Leder e que chegou às telas de todo o mundo em 1998, um cometa gigantesco se choca com o planeta Terra e provoca ondas gigantescas que inundam cidades litorâneas, a começar por Nova Iorque.
O filme Armageddon, do diretor Michael Bay e que foi exibido nos cinemas no mesmo ano de Impacto Profundo, também conta a história de um asteróide em rota de colisão com a Terra. A trama gira em torno da equipe de perfuradores de petróleo enviada pela NASA para tentar explodir o asteróide. Já no filme Indpendence Day, do diretor Roland Emmerich e lançado dois anos antes da dupla catástrofe cinematográfica citada, uma raça de alienígenas invade a Terra. Após explodirem prédios em Los Angeles, Nova Iorque e até a Casa Branca em Washington, a humanidade consegue derrotá-los somente em 4 de julho, dia da independência dos Estados Unidos e que, a partir daquele momento, também passa a ser o dia de libertação da humanidade. Obra do destino, é claro.
Mais um filme-catástrofe está para ser lançado. Chama-se A Guerra dos Mundos, é dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Tom Cruise. A superprodução, baseada num romance do escritor H.G. Wells - autor do clássico A Máquina do Tempo - conta a história da invasão do planeta por seres alienígenas sob a perspectiva de uma família norte-americana que tenta sobreviver. Ao contrário de produções anteriores, o Brasil estará representado. Os créditos do filme, que ainda não foi lançado, dão conta da presença de um certo "Brazilian Neighbor" (vizinho brasileiro) e de sua parceira, descrita apenas como "Brazilian Neighbor's Wife" (esposa do vizinho brasileiro).
A realidade, entretanto, parece ter sido muito mais criativa. Inverteu todas as situações previstas na ficção e juntou-as todas. A ironia é que parece ter decidido que elas acontecessem ao mesmo tempo. Seguindo a ficção, os cientistas reais decidiram chamar de Deep Impact (Impacto Profundo) o foguete que tentará explodir o cometa. Porém, a maior semelhança é o dia em que pretendem que o choque aconteça: 4 de julho. Tempos estranhos esses em que vivemos. Uma tremenda esquizofrenia em que fica difícil discernir realidade de ficção.
Diante de tal cenário, digamos, pouco otimista, não me espantaria se líderes religiosos começassem a anunciar o apocalipse, o juízo final, o fim dos dias, ou como queiram chamar. Acho que certos habitantes deste nosso planeta até que não achariam a possibilidade de todo ruim, já que seria um grande evento, uma ocasião, como uma grande "rave". De minha parte, espero que este início não seja uma previsão para o ano todo, mas talvez um expurgo pelo último ano ou pelos anos anteriores. De qualquer maneira, segue o meu feliz 2005. Ou 2006, como preferirem.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 1:46 PM - Comentários:
Terça-feira, Janeiro 04, 2005
Brasil
HORÁRIO DE VERÃO
Por Henry Galsky
Depois de quase meia hora no ponto, finalmente o ônibus chegou. Ainda era possível perceber luz, apesar do relógio de pulso marcar 19h31. Havia uma felicidade contida pela impressão do dia continuar mesmo após o trabalho. Eram os bons efeitos do horário de verão.
No ônibus da linha 426 destino zona norte havia uma confusão de bolsas, crianças voltando da escola e homens do trabalho. Apesar de cheio, havia silêncio. Muitos olhavam para o vazio na tentativa de expurgar o cansaço do dia ou na hipnose que perdura mesmo após o fim de mais uma jornada. Para quem volta pra casa, uma sensação de que mais um dia se passou e menos um dia se viveu. O céu azul-escuro, as cigarras que cantavam e o ônibus que parecia fazer questão de desequilibrar os passageiros criavam a atmosfera sonolenta que levava a gente trabalhadora para casa. Em menos de 12 horas, a maioria estaria fazendo o caminho inverso. Era como se aquelas horas livres fossem apenas a tomada de fôlego para o dia seguinte. No país dos caminhos inversos, a lógica não poderia ter sentido. Ela também é inversa. Viver para trabalhar e não o inverso (um paradoxo). É assim mesmo que funciona.
Num dos bancos duplos e altos perto da janela traseira, um menino destoava da paisagem. Devia ter tantas preocupações quanto idade - não passava dos quatro anos. Com um brinquedo na mão, praticava a curiosidade tábula rasa própria dessa faixa etária: muitos "por quês" insaciáveis pelas respostas da mãe e da avó que o acompanhavam.
O ônibus ouvia desatento as risadas felizes do menino. Eufórico, comentava o filme a que haviam acabado de assistir: "Os Incríveis". Depois da sessão, os três lancharam e ganharam o brinde com que o menino brincava encantado. A paisagem dos bairros pelos quais o ônibus passava em nada lembrava Hollywood. Cercado por favelas dominadas pelo tráfico de drogas, Rio Comprido e Estácio figuram na lista dos locais mais perigosos da cidade.
De dentro do ônibus, ouve-se dois tiros. A sonolência dos passageiros é deixada de lado e iniciam-se as discussões sobre as origens dos disparos. Na zona norte do Rio de Janeiro, já nos tornamos especialistas em armamentos e boa parte das pessoas consegue distinguir com facilidade um tiro de um barulho provocado pelo cano de descarga de um carro ou da explosão de fogos.
A mãe e a avó se preocupam e abraçam o menino como se isso pudesse salvá-lo caso o tiro atingisse o ônibus. É o instinto familiar. Por sua vez, o menino se mantém alheio a tudo e continua a falar sobre "Os Incríveis" e a brincar com o brinde da lanchonete americana do shopping. Alguns passageiros iniciam uma conversa sobre a violência da cidade e os tiros ouvidos naquele momento. Pode-se dizer que as balas despertaram o lado social da gente do ônibus. Afinal de contas, estávamos todos no mesmo barco caso houvesse algum problema. De maneira inconsciente, o povo vestia o slogan da campanha governamental de auto-estima: "Sou brasileiro e não desisto nunca".
A mãe passou a exercer seu poder hierárquico sobre o menino e o sentou em seu colo. A avó estava apreensiva mas resignada. Sabia que não havia nada a fazer exceto esperar mais aquele tiroteio terminar. O menino voltou a conversar com a mãe sobre o filme. "Eu só gosto de filme com final feliz", disse. "E eu quero que sua vida seja só de finais felizes", a mãe respondeu. Ela queria que o futuro do filho fosse diferente do daqueles homens e mulheres sonolentos. O ônibus parou no ponto e eles desceram. A vida havia voltado ao normal e a gente do ônibus fez silêncio novamente
 Viva
Voz por Henry Galsky às 1:20 PM - Comentários:
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