Terça-feira, Fevereiro 15, 2005

Brasil

CRÔNICA DE UM DOMINGO DE FUTEBOL
Por Henry Galsky

Tenho por hábito valorizar quando atividades novas e diferentes surpreendem meu cotidiano. Assim, valorizei quando há pouco mais de duas semanas descobri uma alergia a insetos. Está certo que não há nada de positivo nisso, exceto pelo fato de saber que devo procurar um alergista e tentar me curar deste problema, se quiser continuar a freqüentar qualquer lugar verde. Nas novas experiências - mesmo nas negativas - conseguimos descobrir nossos limites e expectativas e assim traçar objetivos mais claros.

Posso dizer que, graças aos acontecimentos deste último final de semana, percebi que posso ser um observador frio, mesmo em locais abarrotados de emoção. Sou um profundo amante do futebol e vou ao estádio do Maracanã sempre que posso. Por exemplo, durante este início de ano, fui a todos os jogos que o Flamengo disputou no estádio pela Taça Guanabara (para os pouco familiarizados com o campeonato do Rio de Janeiro, este é o nome dado ao primeiro turno da competição). Como se sabe, o momento do meu time não é dos melhores. Para ser totalmente franco, pode-se classificar a atual fase rubro-negra como a pior de sua história repleta de glórias.

O fato é que ontem foi dia de Maracanã. Mas sem o Flamengo, infelizmente. Houve uma rodada-dupla - jogos seguidos no mesmo local - com Botafogo e Americano e, em seguida, Volta Redonda e Cabofriense. Sem nada para fazer, respondi positivamente ao convite do amigo botafoguense Maze para ir ao estádio. Seria a minha primeira vez no Maracanã sem o Flamengo em campo.

Como nada tenho contra o Botafogo, decidi ser solidário ao time de General Severiano. Chegamos à arquibancada. O estádio estava lotado por mais de 70 mil pessoas. E lá estava eu, rubro-negro convicto, atuante e apaixonado, no meio da torcida do Botafogo. A torcida cantava sem parar tentando incentivar o esforçado time do Botafogo. Meu silêncio no meio da multidão deve ter despertado a desconfiança do torcedor da frente, já que, após o árbitro não marcar uma falta clara no jogador alvinegro, ele virou-se para mim e disparou: "não é possível. Esse juíz f.d.p só pode ser flamenguista". Não respondi.

Fim do primeiro tempo. O Americano já vencia por um a zero quando alguém da torcida do Botafogo notou a presença da governadora Rosinha Matheus num camarote localizado pouco acima da arquibancada. Como a família da governadora e de seu marido - ex-futuro-governador - é de Campos, por sua vez a cidade da onde vem o Americano, a reação democrática e espontânea da torcida só poderia ser uma: hostilizá-la com palavras que não cabem nesta página.

No segundo tempo pouca coisa mudou. O Botafogo continuou a atacar desordenadamente mas foi recompensado com um pênalti sofrido por Ricardinho. Gol. Mas a alegria durou pouco. Logo depois, num contra-ataque rápido, o time de Campos desempatou e chegou à histórica final. Fiquei para ver o segundo jogo. Aliás, um grande jogo. Pela primeira vez, quase pude deitar nas arquibancadas do estádio. A torcida do Botafogo foi embora com o sentimento de que aquela tarde poderia ter tido um merecido final feliz para um dos grandes da capital. Mas de capital neste campeonato, por enquanto, apenas o nome do café patrocinador do Volta Redonda que, jogando bem, também chegou à final da Taça Guanabara.

Posso dizer que aprendi muito na tarde de domingo. Aprendi a reconhecer meus reais sentimentos. Percebi que o Flamengo é algo imensurável em minha vida. No Maracanã lotado sem o Flamengo me senti um um profeta que aguarda grandes acontecimentos. Um profeta que se sente sozinho no meio da multidão à espera de que o destino cumpra acontecimentos que lhe foram confidenciados. E na tarde ensolarada de domingo, ao olhar para o túnel que dá acesso ao gramado, eu só tinha um único desejo: que onze camisas rubro-negras saíssem do vestiário, subissem correndo as escadas rumo ao campo, as arquibancadas explodissem em vermelho e preto e o estádio gritasse numa só voz: Mengo!


Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005

Brasil

SOBRE UM PRATO DE SALADAS
Por Henry Galsky

"Havia crescido", concluiu. Após prestar solene obediência aos pais, primeiramente, e depois à professora, aos professores, e na faculdade novamente a novos professores, e à mulher, ao chefe, à chefe e ao novo chefe e depois à chefe, percebeu que naquele momento não devia obediência a mais ninguém. Era livre, finalmente.

Não sabia o motivo, mas não estava feliz em sua plenitude. Pelo menos não da maneira como sempre pensou aquele momento, o instante final em que se dava conta da liberdade. Sempre imaginara que seria um dia festivo, cheio de sons e cores e gente. Está certo, gente havia. Também havia cores e sons. Mas tudo aquilo não era em celebração a seu momento único. Não sabia explicar, mas decidira celebrar - se é que era possível empregar o termo - num restaurante do shopping. E ali estava ele. No vão entre as escadas rolantes, num restaurante de saladas no centro do primeiro piso do grande (na verdade, nem era um dos maiores) centro comercial na zona norte. E diante do verde prato de salada se lembrava de tudo o que havia passado até que, por fim, lograsse o grande feito que acontecia naquele exato instante.

Apesar de estar sozinho à mesa, o restaurante estava cheio. Um grupo que aparentava ser de colegas de trabalho ria alto a seu lado. Já estavam lá quando chegou. Do outro lado havia uma senhora que, como ele, estava sozinha. Mexia no telefone celular enquanto comia. Por viver momento tão solene, decidiu portar-se como um cliente exemplar. Faria logo o pedido, comeria num ritmo normal e, assim que terminasse, pediria a conta. E assim fez. Não deve ter demorado nem 30 minutos no restaurante. A conta não foi cara e o prato não estava ruim. Mas, sem motivo aparente, cansara-se daquela celebração solitária e silenciosa. Por isso, levantou-se e decidiu dar uma volta pelo shopping.

Diante das escadas rolantes pensou na falsidade daquilo tudo. O centro comercial era uma imitação das ruas e as lojas representavam casas. A meia-luz causava-lhe certa sonolência e tinha a nítida sensação de flutuar pelos amplos corredores. O lugar estava cheio e, na cidade falida, aquele era um refúgio confortável e seguro para a classe média branca. A praça de alimentação estava repleta, principalmente de jovens - na maioria adolescentes e pré-adolescentes. Andavam em bandos e uniformizados. Roupas de marca, penteados iguais e o mesmo comportamento. Não entendia, mas o fato é que captara um fenômeno que lhe parecia bastante deplorável: os pré-adolescentes agiam e se vestiam como pretensos adultos e os adultos como pré-adolescentes.

Andava despreocupado enquanto ouvia, mesmo que não quisesse, fragmentos de conversas. Os assuntos também eram uniformes naquele espaço de gente igual. Os homens falavam das mulheres e as mulheres dos homens. A diferença é que as últimas o faziam entre risinhos infantis - ou infanitóides, no caso das mulheres adultas.

O lugar ficava cada vez mais cheio. Era noite de sexta-feira e a gente se enchia de felicidade por saber que ainda haveria o sábado e o domingo. Com ele não era diferente. Também ficava feliz pelo tempo livre que teria. A partir daquele dia, como dizia um comercial de rádio, "todas as segundas-feiras cinzentas se transformariam em ensolaradas manhãs de domingo". Não, ele não havia se aposentado. Havia apenas descoberto que podia ser plenamente livre, mesmo que essa frase bonita se transformasse na prática em passeios solitários pelo shopping ou por outros lugares do tipo.

Sim, sabia que o ar puro e condicionado que respirava mostrava que a cidade havia perdido por completo seu rumo. Era naquele espaço de compras que as jovenzinhas e os jovenzinhos podiam rir-se uns dos outros sem preocupação. Lá podiam exibir e comprar suas roupas e acessórios de marca. Chegava à conclusão que as corporações haviam vencido ao transformar os grandes shoppings na "Ágora" contemporânea, tal qual havia escrito Naomi Klein.

E no meio desses pensamentos passou pela livraria. Na bancada principal os livros mais vendidos. Muitos os folheavam na confortável certeza de saber que se estavam lá é porque eram bons. Decidira encerrar a celebração. Estava cansado das voltas no shopping e do vai-e-vem da multidão. Após uma comemoração silenciosa e ligeiramente frustrante voltaria para casa decepcionado com a cidade e com as pessoas que a habitavam.

Pensou que talvez teria sido melhor ficar em casa, ler um livro, alugar um filme ou simplesmente dormir e sonhar com um mundo e uma vida diferentes. Subiu ao estacionamento e ligou o carro. A voz eletrônica - a única a ele dirigida durante toda aquela noite - agradeceu a sua "importante" presença. A cancela vermelha e branca subiu e ele pôde sair. Ainda olhou pelo retrovisor e pensou como era engraçado que naquele espaço onde tudo era livre, colorido, positivo e permitido uma cancela automática fosse a responsável pela realização do único desejo sincero em que pensara naquele lugar: ir embora.