Quinta-feira, Março 31, 2005

Brasil

MORTE SEVERINA
Por Henry Galsky

"Amor excessivo ao bem próprio, sem consideração aos interesses alheios". Segundo o Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, esta é uma das definições para o vocábulo "egoísmo". As palavras do dicionário soam estranhas e perigosamente familiares quando contrastadas com recentes fatos ocorridos no Brasil. A cada dia, o país se torna mais parecido com uma típica república de bananas habitada por personagens curiosos e dirigida por políticos corruptos.

O presidente da Câmara Severino Cavalcanti é um desses profícuos exemplos brasileiros de personagens híbridos capazes de unir numa só pessoa tudo o que foi dito no primeiro parágrafo. Seus atos descabidos, ameaças sem fundamento ao Governo Federal e declarações assumindo que de fato favorece familiares com cargos e salários públicos tornariam tudo muito engraçado e curioso. Mas é impossível achar graça quando uma caricatura ocupa um dos mais importantes postos da hierarquia política de seu país e é responsável pelo destino de seu dinheiro.

Circulou pela internet um protesto contra a proposta de Severino de aumentar o salário dos deputados de R$ 12 mil para R$ 22 mil. O panfleto virtual pedia que todos usassem roupas pretas no dia 29 de março. Como de costume, ninguém obedeceu ou fez qualquer coisa. O fato é que pouco adiantaria se vestir de preto. A cada dia me convenço de que a transferência da capital para Brasília, há exatos 45 anos, foi uma grande estratégia política. Imaginem se a capital continuasse por aqui e Severino e sua gangue estivessem a apenas alguns metros de tomates e outros objetos a serem arremessados? Ou então que sua residência oficial ficasse na cidade e pudéssemos impedi-lo de dormir?

A democracia prevê determinados riscos e o "Fenômeno Severino" é o exemplo mais contundente disso. Foi eleito para o cargo como manda a lei. Recebeu 300 dos 498 votos dos deputados presentes na Câmara. Sua maior promessa de campanha era a de aumentar o salário de seus pares. Não se pode chorar pelo leite derramado e não se pode negar a honestidade de Severino. Tinha uma proposta clara - aumentar seu próprio salário e de seus colegas deputados - apesar de não interessar ao país. Mas, após sua eleição, está claro também que os deputados não se importam muito com os chamados interesses da população. Que, por sinal, os elegeu.

Apesar do tempo não voltar atrás, acho válido tentar descobrir quem são os culpados por esta tragédia política. Vale como lição. Além do deputado Virgílio Guimarães (PT-MG), que dividiu os votos de seu partido em dois (entre ele e o candidato oficial do governo, Luiz Eduardo Greenhalgh), vale o registro de que 28 deputados do PSDB votaram em Severino apenas para evitar que o PT assumisse a presidência da Câmara. Apesar de acreditar que este tipo de malcriação não deveria ter lugar quando estão em jogo os interesses de 170 milhões de pessoas, tenho consciência de que não há nada que se possa fazer. Pelo menos antes das próximas eleições.

Severino vai presidir a Câmara dos Deputados até o final de 2006. Por este período os nossos bravos representantes políticos serão comandados por uma figura que representa o que de pior surgiu na política brasileira desde que José Sarney sucedeu o General João Batista Figueiredo na Presidência da República decretando o fim da ditadura. Esperamos ressuscitar a moral política do Brasil no final do ano que vem. Até lá viveremos o período da morte Severina. Afinal, como escreveu João Cabral de Mello Neto, " E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida)". E enquanto o Severino de lá torra R$ 30 bilhões dos cofres públicos, os Severinos daqui continuarão a morrer "severinamente".


Sexta-feira, Março 11, 2005

Brasil

LARANJEIRAS
Por Henry Galsky

Uma menina de cerca de seis anos de idade passa de mãos dadas com sua babá. Carrega uma pequena prancha de isopor branca e na cabeça ostenta uma touca verde e grená. Não é a única. Além dela, outras crianças usam uniformes com as mesmas cores. Uns estão a caminho da aula de futebol, outros aprendem basquete. Há ainda aqueles que vestem quimonos brancos ou azuis e se encaminham para a aula de judô. Esta é uma paisagem bastante comum no bairro de Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. A rua principal, de mesmo nome do bairro, está engarrafada como de costume. Este é outro fator marcante de um lugar que consegue ser ao mesmo tempo barulhento, confuso e aristocrático. Segundo alguns, é um dos poucos lugares em que é possível encontrar a fusão de campo e cidade dependendo do ângulo pelo qual o bairro é observado.

Uma das ruas que mais exemplificam esta característica é a General Glicério. Em seu início, na esquina com a rua das Laranjeiras, o comércio movimentado e o trânsito caótico fazem questão de lembrar a quem passa que a rua é parte do Rio de Janeiro. Camelôs nas calçadas e um cruzamento de pista dupla são mais do que suficientes para fazer um barulho que - imagino - deve tirar o sono de muitos moradores do local. Mas tudo melhora à medida que se sobe a General Glicério (sim, trata-se de uma ladeira). A cerca de cem metros dali tudo está mais calmo. À direita, crianças aproveitam o recreio e jogam bola na escola pública. Quase em frente, as crianças da creche particular fazem o mesmo barulho (classes sociais diferentes são capazes de ecoar o mesmo e alegre som de vida). Ali há outro cruzamento bem mais calmo que o anterior. Já é altura da tranqüila rua Estelita Lins.

A partir deste ponto, a General Glicério é plana e um pequeno largo marca o início de uma espécie de bairro completamente distinto. Entre palmeiras e banquinhos de cimento, senhores de idade jogam baralho ou conversa fora. Empregadas domésticas conversam enquanto aparentemente vêem o tempo passar de maneira despreocupada. Não há lixo no chão e é possível escutar alguém que toca piano em algum apartamento. Segue-se em frente e vira-se à direita na rua Professor Ortis Monteiro. Árvores antigas e vistosas cobrem a rua de sombra e tranqüilidade. Assim como em todo aquele bairro dentro de Laranjeiras, as construções se dividem em dois tipos: pequenos prédios que lembram casas e prédios luxuosos e amplos, como os da Praia do Flamengo, com suas grandes janelas e jardins bem cuidados.

A Professor Ortis Monteiro desemboca num largo cuja continuação é a rua General Cristóvão Barcelos, onde a estética do pequeno bairro continua a prevalecer. Os mesmos prédios e seus nomes imponentes ("Torre de Ouro", "Garanhuns", "Triunfo") e pequenas construções ao estilo europeu com janelas azuis ou verdes. Um personagem se destaca nessa paisagem: um rapaz de cerca de trinta anos vende limonada a, diga-se de passagem bastante justos, R$ 0,50 o copo. Explica que sua mãe faz o suco e todos os dias ele caminha por Laranjeiras oferecendo seu produto. De fato, a limonada é muito boa e peço logo dois copos. Ele mora no Catete, talvez o bairro menos prestigiado na zona sul, mas que curiosamente já foi o centro de poder brasileiro, nos tempos em que a cidade maravilhosa era a capital de Pindorama. Mas Getúlio se suicidou, a capital mudou-se pra Brasília e hoje os moradores de Ipanema e Leblon não se identificam com o pessoal do Catete.

O tempo passa rápido e é hora de voltar pra rua das Laranjeiras que todos conhecem. Desço a Estelita Lins e o sinal abre. Um segundo depois um idiota buzina. É o momento em que se percebe que a tranqüilidade se resume apenas à parte alta da ladeira, um aquário de aristocracia, beleza e limpeza. Tudo aquilo que o Rio de Janeiro não é, apesar de muitos cariocas pensarem o contrário.


Terça-feira, Março 01, 2005

Brasil

DOMINGO
Por Henry Galsky

O sol entre nuvens marca mais um início de domingo. O acordar preguiçoso e bem-humorado, o café com jornal e uma mistura de vontade de não fazer nada com o ímpeto de sair à rua costumam dar o tom do início do último dia de descanso semanal. Lá embaixo, um chato buzina, uma mulher passeia com o cachorro, crianças correm e um porteiro varre a calçada.

De saída, e a caminho do carro, um pingo cai e anuncia a possível chuva que vai se derramar pela cidade. Fica apenas nisso. A rua está deserta. É cedo e todos parecem querer dormir mais um pouco. Um cachorro late em algum lugar e a banca de jornal abre. O jornal já está lá, como sempre. A diferença é que hoje ele é leve, cheio de classificados e matérias de comportamento que não fazem muita diferença pra ninguém. Os assuntos são sempre os mesmos: a melhor ginástica, a melhor ioga, a melhor caminhada. Às vezes varia. Passa a tratar então da melhor praia, da melhor comida, dos melhores "points" (seja lá o que isso signifique). No final das contas, pode-se resumir em dois grandes troncos essas fabulosas pautas de domingo: maneiras de retardar a morte ou lugares para se gastar dinheiro em vida. Nada mais do que isso.

Na zona norte começa a chover. Cruza-se o túnel. Na zona sul faz sol. Na zona sul sempre faz sol. Inclusive à noite e mesmo quando chove. Na Lagoa Rodrigo de Freitas, a senhora simpática trabalha. Aluga bicicletas. Seis reais por meia hora ou nove pela hora inteira. Aliás, não é só ela que trabalha. É um exercício interessante perceber quem trabalha quando se está de folga. Um rapaz vende bebidas. Duas senhoras vendem cachorros-quentes. Outro rapaz aluga carrinhos motorizados para crianças e outra senhora aluga varas de pescar a três reais por 20 minutos. As crianças tentam inutilmente pescar, mas outras continuam a se aproximar e os pais cedem a seus pedidos: "mãe, por favor, por favor".

Há crianças por toda a parte. As meninas usam vestidos novos, coloridos. Os meninos estão com suas bermudas da moda. Outros estão fantasiados de Batman, Super-Homem, Homem Aranha. Há crianças de cabelo ruivo, loiro, castanho. Mas não há nenhuma negra. Os filhos da classe média alta se divertem. Vez por outra caem da bicicleta, choram ou começam a brigar com outras crianças. São logo chamados a atenção, seja por seus pais, seja por suas babás (estas sim, negras). "Maria, pára com isso", "João, desce daí", "Francisco, devolve o brinquedo pro menino". Pode parecer estranho, mas esses nomes que anteriormente eram associados somente aos menos favorecidos andam em moda de um anos pra cá entre a classe média alta.

Num quiosque um senhor dança ao ritmo do choro e pinta gravuras simultaneamente. Intitula seu trabalho de "Choro Pintado". Veste calça social branca e camisa da mesmo cor. Como parte do figurino, ostenta uma bandeira do Brasil amarrada à cintura e na cabeça um chapéu de palha. Coloca um CD no som e vai ao microfone. Anuncia que quem adivinhar o nome da música e seu compositor ganha uma gravura grátis. Após dois minutos de música, nenhum dos vários presentes conseguiu vencer o desafio. Um homem de mais ou menos quarenta anos se aproxima e diz: "Cartola, a música é do Cartola, mas não sei o nome". É presenteado com a gravura. O pintor-dançarino vai ao microfone novamente. "Na semana passada estive em Búzios e uma moça inglesa soube na mesma hora quem cantava e nome da música. Vamos dar mais valor à cultura brasileira, pessoal", diz. Um pito generalizado numa manhã de domingo.

A senhora simpática oferece protetor solar aos que alugam suas bicicletas. Uma brisa agradável acompanha os que passeiam sobre duas rodas pelos 7,5 km de extensão da Lagoa. Casais caminham, cachorros passeiam e senhoras na faixa dos 45 a 50 anos de idade correm ou andam apressadamente na tentativa de manter a forma. Muitas têm silicone nos seios, usam roupas esportivas e lutam incessantemente contra o tempo que insiste em passar. Ao vê-las, percebo que alcançaram seu objetivo e, de fato, é possível reconhecê-las como mulheres jovens, assim como é possível reconhecer o presidente Lula numa caricatura do Chico Caruso.

Mas já é tarde e é tempo de voltar para o mundo real. Na zona norte, a preguiça silenciosa e o vazio permanecem nas ruas. O domingo se esvai aos poucos e luzes meio azuis do fim da tarde que marcam o início da noite avisam que o descanso está se acabando. Na janela já é possível ouvir um eco de televisões. A noite cai. Vem a madrugada. Em alguns poucos apartamentos as luzes permanecem acesas. É a gente tentando inutilmente prolongar o domingo, parar o tempo. Mas o dia de descanso termina. Lá se foi mais um domingo nesta cidade que muitos ainda insistem em chamar maravilhosa.