Quarta-feira, Abril 20, 2005

Brasil

CARIOCAS SÃO BONITOS, CARIOCAS SÃO BACANAS
Por Henry Galsky

Na cidade do Rio de Janeiro um grupo criou um site e realiza uma campanha que considera séria cujo objetivo é dar ao município o status de Estado. Segundo este pessoal, que já conta com a adesão de 2.217 assianturas, a cidade do Rio de Janeiro deveria ter os mesmos direitos políticos que os Estados do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Ceará e etc. O grupo se auto-denomina Autonomia Carioca. Essas 2.217 pessoas consideram, segundo manifesto publicado no site, "a cidade crescentemente lesada e oprimida pelos efeitos nefastos da fusão decretada em 1975, pelo ditador Geisel, do então Estado da Guanabara com o antigo Estado do Rio de Janeiro". Não quero entrar no mérito da questão, apenas tentar entender se a reivindicação faz algum sentido. Ou melhor, quais são suas reais intenções.

É fato que o município tem perdido qualidade de vida devido a péssimas e sucessivas administrações públicas. É inegável. O Autonomia Carioca então pensa ter encontrado a solução para todos os problemas cariocas: como a esfera estadual "oprime" a cidade maravilhosa, vamos separar este paraíso perdido de civilidade e beleza do restante do Estado - este sim, cheio de pobres, ignorantes e gente selvagem. Pensam algo como "esta gente do interior não sabe votar. Elegeram Anthony Garotinho e sua sucessora".

A solução me parece um tanto simplista. Costumam resultar em retumbantes fracassos propostas que prometem resolver todos os problemas como apenas uma medida. Neste caso, a simples, indolor e definitiva separação.

Vamos analisar um pouco mais profundamente um ponto crucial que está implícito nesta proposta. Será mesmo que os "intelectuais" do município do Rio de Janeiro - futuro Estado da Guanabra - sabem votar? Por aqui, estamos sob a segunda administração municipal de César Maia, este gênio político que beneficiou a cidade com suas medidas heterodoxas. Para citar algumas: após a intervenção federal na saúde pública do Rio, o prefeito César Maia suspendeu o envio de kits para análise do tipo sangüíneo em seis hospitais municipais. Além disso, acabou com as gratificações destinadas a 285 funcionários dos mesmos hospitais.

O raciocínio é simples. César utilizou os cidadãos do município como massa de manobra contra o Governo Federal. É bom lembrar que foi ele mesmo quem decretou estado de calamidade pública da rede municipal de saúde. Acreditava que o povo iria ficar a seu lado nesta manobra que visava às eleições presidenciais do ano que vem. Errou feio. Mas, voltando ao assunto, é bom deixar claro que quem elegeu César duas vezes não foram os "opressores" do Estado do Rio de Janeiro, mas os inteligentes e cultos do futuro Estado da Guanabara. O exemplo citado não deve ter sido lembrado pelo pessoal do Autonomia Carioca. Até porque eles não devem precisar de "inutilidades" como o sistema de saúde pública. Quem precisa desse estorvo aos cofres públicos são o que eles chamam hipocritamente em seu manifesto de "irmãos fluminenses".

O manifesto continua com seu show de asneiras e preconceitos. A seguinte pérola encerra o segundo parágrafo: "A identidade do Rio é a de uma cidade-estado". Conceitualmente, o termo define algo completamente diferente, como as cidades-estados que "ocupavam a Grécia continental, as ilhas do mar Egeu e do mar Jônico, as costas do mar Negro, a Anatólia, a África do Norte, a Sicília e o sul da Itália" há, pelo menos, 15 séculos. As cidades eram conhecidas como "Polis". Curiosamente, encontro no site culturabrasil.pro.br/cotidianogrego, que, "para os gregos esse era o mundo da civilização, ao qual se contrapunha um outro, o mundo bárbaro, isto é, habitado por outros povos...". E é mais ou menos por essa linha que o Autonomia Carioca se envereda. Nós, cariocas, somos a "Polis" civilizada e culta. Os demais habitantes do Estado do Rio de Janeiro são os "bárbaros" sem cultura.

E, seguindo este raciocínio, como dar a eles, os "bárbaros", o direito de escolher um representante que vai governar não apenas municípios de nomes estranhos como Itaperuna, Porciúncula ou Aperibé, mas também a gente civilizada da "Polis", os elfos encantados e cultos de Ipanema e do Leblon?