Cotidiano
CORRENDO EM PARALELO
Por Henry Galsky
Levantou. Há meses não conseguia dormir ininterruptamente durante toda a noite. Não sabia o motivo. O fato é que, após algumas horas de sono e sem explicação alguma, acordava de súbito. Aquela noite não haveria de ser diferente. Assim, abriu os olhos e percebeu a noite. A rua nunca ficava de todo escura. No prédio da frente, varandas iluminadas, algumas luzes acesas. Gente que, como ele, não dormia. Afinal, quais seriam os motivos dos ilustres e desconhecidos vizinhos?
Teriam problemas no trabalho, insônia, doença, arrependimento, claustrofobia, inquietude? Não poderia sanar esta dúvida momentânea. Sequer sabia entender os motivos que o levavam há tempos a acordar todas as noites. Não acordava para produzir, escrever, ler, ligar a televisão ou fazer qualquer outra coisa de útil. Acordava por acordar. A cabeça cheia de pensamentos encadeados, como uma espécie de formigamento mental.
Foi à cozinha, encheu um copo de água. Tudo parecia fora de lugar, como se aquele fosse obrigatoriamente um momento de descanso. Até a luz parecia disposta a não acender. Demorou. E ele lá à sua espera, como quem pede um favor. Bebeu água numa espécie de reflexo mecânico. O fato é que queria ter um motivo para acordar todas as noites, mesmo que fosse apenas por sede. Beber água era quase uma tentativa de educar o próprio corpo. "Se é para levantar que seja para isso", pensou.
O problema é que encadeava um pensamento no outro. Água límpida, sais minerais, saúde, descanso, quantas horas faltam para acordar? É preciso descansar. A cidade dorme, silenciosa, os vizinhos descansam. Pecado perder tempo acordado. Lembrava dos acontecimentos do dia. A corrida de cem metros em direção ao ônibus, o trabalho diário, as atribuições, os afazeres. Mas não pensava apenas nas situações cotidianas. Pensava em escolhas, em decisões, no futuro. Como estaria em sete meses? Onde estaria? Com quem falaria? E em sete anos?
Tinha mais perguntas que respostas. O calor contribuía também. Sabia disso. Lembrava de amigos que não fez, dos que fez, de caminhos que decidiu seguir, dos livros que lera, do passado que havia formado. E se tivesse nascido em outra família, se tivesse estudado em outra escola, se morasse em outra cidade, se não gostasse de ler, se tivesse pego a outra linha de ônibus? Como seria? Viveria uma outra vida, seria outra pessoa. Tinha medo ao pensar naquilo tudo. Poderia encarnar tudo aquilo que mais odiava. Aliás, esse era um pensamento que lhe aterrorizava com certa freqüência. Talvez por isso acordasse todas as noites.
A verdade é que tinha receio de um dia sonhar profundamente o sonho mais realista em que D`us o puxasse pela mão e mostrasse sua vida paralela, onde ele havia tomado todas as decisões ao contrário. Tendo recusado o que antes aceitara e dito ¿sim¿ ao que dissera ¿não¿. Tendo feito telefonemas trocados, viajado para lugares diferentes, freqüentado outros espaços sociais. Será que nessa vida paralela ele seria capaz de reconhecer seus grandes amigos ao cruzar com algum deles numa esquina qualquer?
Pior do que isso: será que se reconheceria nesse sonho se pudesse dar de cara consigo mesmo? Tinha medo de enojar-se com o que por acaso viesse a ver. Era isso o que lhe causava insônia todas as noites? Talvez tivesse esclarecido suas ansiedades enquanto enchia outro copo. O problema é que, mesmo acordado, não se sentia melhor. No trabalho vez por outra se censurava por pensar tanto. Às vezes forçava uma interrupção violenta no turbilhão de pensamentos por achar que tinha perdido o controle e eles haviam saído por aí, falando alto de seus medos mais secretos. Um filme haveria de vir e esclareceria o que ele poderia ter sido. Não haveria jeito, concluiu.
Decidiu voltar para a cama. Apagou a luz do quarto e continuou a pensar enquanto fazia o caminho do quarto. Com a cabeça no travesseiro pensou um último pensamento antes de o sono acalmar-lhe o espírito (necessidades físicas). No dia seguinte, haveria de repetir-se tudo novamente. A corrida para o ônibus, a inquietude no trabalho, a insônia à noite. Cedo ou tarde chegaria o dia em que poderia dar de cara com seu outro "eu" e as angústias finalmente permitiriam que ele descansasse em paz.
