Sexta-feira, Maio 13, 2005

Cotidiano

CORRENDO EM PARALELO
Por Henry Galsky

Levantou. Há meses não conseguia dormir ininterruptamente durante toda a noite. Não sabia o motivo. O fato é que, após algumas horas de sono e sem explicação alguma, acordava de súbito. Aquela noite não haveria de ser diferente. Assim, abriu os olhos e percebeu a noite. A rua nunca ficava de todo escura. No prédio da frente, varandas iluminadas, algumas luzes acesas. Gente que, como ele, não dormia. Afinal, quais seriam os motivos dos ilustres e desconhecidos vizinhos?

Teriam problemas no trabalho, insônia, doença, arrependimento, claustrofobia, inquietude? Não poderia sanar esta dúvida momentânea. Sequer sabia entender os motivos que o levavam há tempos a acordar todas as noites. Não acordava para produzir, escrever, ler, ligar a televisão ou fazer qualquer outra coisa de útil. Acordava por acordar. A cabeça cheia de pensamentos encadeados, como uma espécie de formigamento mental.

Foi à cozinha, encheu um copo de água. Tudo parecia fora de lugar, como se aquele fosse obrigatoriamente um momento de descanso. Até a luz parecia disposta a não acender. Demorou. E ele lá à sua espera, como quem pede um favor. Bebeu água numa espécie de reflexo mecânico. O fato é que queria ter um motivo para acordar todas as noites, mesmo que fosse apenas por sede. Beber água era quase uma tentativa de educar o próprio corpo. "Se é para levantar que seja para isso", pensou.

O problema é que encadeava um pensamento no outro. Água límpida, sais minerais, saúde, descanso, quantas horas faltam para acordar? É preciso descansar. A cidade dorme, silenciosa, os vizinhos descansam. Pecado perder tempo acordado. Lembrava dos acontecimentos do dia. A corrida de cem metros em direção ao ônibus, o trabalho diário, as atribuições, os afazeres. Mas não pensava apenas nas situações cotidianas. Pensava em escolhas, em decisões, no futuro. Como estaria em sete meses? Onde estaria? Com quem falaria? E em sete anos?

Tinha mais perguntas que respostas. O calor contribuía também. Sabia disso. Lembrava de amigos que não fez, dos que fez, de caminhos que decidiu seguir, dos livros que lera, do passado que havia formado. E se tivesse nascido em outra família, se tivesse estudado em outra escola, se morasse em outra cidade, se não gostasse de ler, se tivesse pego a outra linha de ônibus? Como seria? Viveria uma outra vida, seria outra pessoa. Tinha medo ao pensar naquilo tudo. Poderia encarnar tudo aquilo que mais odiava. Aliás, esse era um pensamento que lhe aterrorizava com certa freqüência. Talvez por isso acordasse todas as noites.

A verdade é que tinha receio de um dia sonhar profundamente o sonho mais realista em que D`us o puxasse pela mão e mostrasse sua vida paralela, onde ele havia tomado todas as decisões ao contrário. Tendo recusado o que antes aceitara e dito ¿sim¿ ao que dissera ¿não¿. Tendo feito telefonemas trocados, viajado para lugares diferentes, freqüentado outros espaços sociais. Será que nessa vida paralela ele seria capaz de reconhecer seus grandes amigos ao cruzar com algum deles numa esquina qualquer?

Pior do que isso: será que se reconheceria nesse sonho se pudesse dar de cara consigo mesmo? Tinha medo de enojar-se com o que por acaso viesse a ver. Era isso o que lhe causava insônia todas as noites? Talvez tivesse esclarecido suas ansiedades enquanto enchia outro copo. O problema é que, mesmo acordado, não se sentia melhor. No trabalho vez por outra se censurava por pensar tanto. Às vezes forçava uma interrupção violenta no turbilhão de pensamentos por achar que tinha perdido o controle e eles haviam saído por aí, falando alto de seus medos mais secretos. Um filme haveria de vir e esclareceria o que ele poderia ter sido. Não haveria jeito, concluiu.

Decidiu voltar para a cama. Apagou a luz do quarto e continuou a pensar enquanto fazia o caminho do quarto. Com a cabeça no travesseiro pensou um último pensamento antes de o sono acalmar-lhe o espírito (necessidades físicas). No dia seguinte, haveria de repetir-se tudo novamente. A corrida para o ônibus, a inquietude no trabalho, a insônia à noite. Cedo ou tarde chegaria o dia em que poderia dar de cara com seu outro "eu" e as angústias finalmente permitiriam que ele descansasse em paz.


Quarta-feira, Maio 04, 2005

Brasil

A MENDES DO MEU AVÔ
Por Henry Galsky

Logo que chegamos ao hotel em Miguel Pereira, ficou claro que não era nada do que havia sido combinado. Ou, pelo menos, do que haviam dito ao meu avô sobre o local. Para ele, aquilo era mais do que apenas um engano. Era má-fé mesmo. Meu avô não aceitava situações como aquela. Afinal, não permitira jamais que sua família sofresse qualquer tipo de incômodo, desconforto ou necessidade durante um feriado prolongado. O fato é que ele vivia para aproveitar momentos como aquele e por isso não estava disposto a fazer concessões. Assim, diante daquela situação, não teve dúvidas. Entrou no carro onde toda a família o aguardava e decretou com voz firme: "vamos para Mendes". E foi o que ele fez.

As duas cidades ficam a uma distância considerável, embora ambas se localizem no Estado do Rio de Janeiro. Mas a impressão que sempre tive era de que se estivéssemos de férias na China e vovô percebesse que a situação estava ruim, ele não teria dúvidas. Pegaria um avião e iria para Mendes. Pra ele, a cidade era seu referencial de descanso perfeito. Não a cidade como um todo, mas o Hotel Fazenda Boa Esperança em particular. A cidade propriamente dita não se diferenciava muito de qualquer outra do interior do Estado. Como boa parte das cidades da região, Mendes nasceu ainda no início do ciclo de cultivo do café, em 1820. A cidade tem 96,3 Km2, pouco mais de 17 mil habitantes e se orgulha de possuir o terceiro melhor clima do mundo.

Mas para o vovô, o Hotel Fazenda Boa Esperança era o resumo de tudo o que ele precisava: sol, clima agradável, silêncio, comida caseira e quartos confortáveis. Além de tudo isso, conhecia e gostava muito dos donos, o Sr. Nilton e sua esposa, dona Maria José. A adoração de vovô pelo local era tanta que às vezes ele acordava todo mundo cedo no domingo apenas para passarmos o dia em Mendes. O Boa Esperança é também minha primeira lembrança de viagem. Acho que o hotel fica numa espécie de vale, já que é preciso descer uma grande ladeira para se chegar ao local. Vovô descia com o carro, que era imediatamente cercado pelos cachorros do hotel - os donos possuíam uns dez cachorros. Lembro-me que, quando era pequeno, achava que aqueles animais se reproduziam sem parar e acreditava que os dez cachorros na verdade eram 30, 40 ou 80.

Sempre tive vontade de perguntar ao meu avô como ele havia descoberto aquele seu paraíso incrustado no interior do Rio. Nunca lhe perguntei.

O hotel é mesmo muito bonito. Não há luxo, mas uma espécie de tradição, como se todos os seus móveis, plantas e ladrilhos tivessem uma história antiga pra contar. Sempre pensei assim sobre os objetos de lá. O sofá não devia ser apenas um sofá, mas um sofá que pertenceu à família real e por algum motivo foi parar em Mendes. Até a mesa de pingue-pongue devia ser especial, um presente do imperador do Japão ou qualquer coisa do tipo. Mais do que isso, o hotel provocava uma mudança completa em meu avô e gostava de ver aquilo.

Em casa, vovô era na maior parte do tempo um homem sério, trabalhador e um silencioso leitor de jornal. Sempre o via ocupado com algum afazer doméstico, compras de mês ou teclando sua máquina de escrever cor de creme. Mas em Mendes ele se transformava. Jogava pingue-pongue, mergulhava na piscina, contava histórias, conversava com os outros. Eu ficava feliz porque sentia que lá ele era feliz de verdade, vivia a plenitude de sua vida.

A última vez em que fomos lá - e a última vez em que vovô esteve lá - foi num feriado prolongado em 2000. Era seu aniversário e houve até uma festa surpresa. Como eu, vovô não era muito chegado em festas em que ele era o aniversariante. Muito menos uma festa surpresa. Mas me lembro que naquele dia ele estava bem feliz. Havia crianças ao seu redor.

Nunca mais voltei a Mendes. Até porque sem o vovô não ia ter graça nenhuma. O Hotel Fazenda Boa Esperança é uma boa lembrança do despertar feliz, do barulho dos animais, da comida gostosa e, principalmente, da felicidade serena estampada no sorriso do vovô Benjamin.