Segunda-feira, Junho 27, 2005

Ficção

NA PONTE
Por Henry Galsky

Tudo parecia tão distante e ingênuo visto de longe. Os prédios vazios, a luz da manhã e os raios de sol que começavam a surgir. O primeiro pensamento que passou pela cabeça de Renato Viana foi de que D'us devia ter aquela visão todos os dias, o tempo todo. Ele devia ser uma espécie de gestor da humanidade olhando todos pequenininhos e distantes lá embaixo concentrados no cotidiano com "grandes" problemas que a Seus olhos deveriam ser ridículos.

O segundo pensamento que passou pela cabeça distante e sonolenta de Renato Viana foi de como D'us deveria encarar a visão de um funcionário se debatendo pela impressora estar quebrada. Não soube porquê, mas foi o que pensou enquanto tentava se concentrar na direção de sua velha Variant 1976. E precisava abrir os olhos e não dormir. Afinal, estava a mais de oitenta por hora ao entrar na Ponte Rio-Niterói. Os vidros abertos, o rádio ligado e o cotovelo para fora. O Rio de Janeiro não passava de uma longínqua estrutura de metal. O porto, os grandes e modernos edifícios do centro da cidade, os andaimes de construção e um navio que naquele exato instante passava pelo vão da Ponte. O vento soprava forte e era possível sentir o balanço da construção.

Pensou no Rio como um grande palco de teatro e só à distância mesmo poderia imaginá-lo daquela maneira. Lá havia crescido, feito amigos, estudado, sentido amor, afeto e dor. Será que aquilo tudo era parte de um roteiro? Parecia que sim e as evidências insistiam em provar sua teoria. No pedágio lembrou-se de que aquele não era um teatro comum. Não é normal, pelo menos até este momento da humanidade, que os atores do espetáculo paguem ingressos. E Renato deveria pagar para interpretar. Ele era o ator responsável por interpretar seu próprio papel. E não era tão difícil assim, não é mesmo Renato?

Qual seria a dificuldade de viver sua vida? Difícil seria interpretar o seu oposto: Renato Viana bem sucedido. Era o que pensava ao enumerar tópicos capazes de explicar sua personalidade nada complexa. Dono de uma Variant 1976, morador de um quarto-e-sala alugado no Catete, divorciado, sem filhos, emprego modesto, escritor frustrado. Não sentia raiva ou auto-comiseração. Era apenas uma constatação. Sim, é claro que aquilo tudo era um pouco doloroso, mas nada que não pudesse jogar para debaixo do tapete de sua vida. Aliás, lembrou-se que precisava comprar um tapete novo para sua sala de... De que mesmo? De nada, afinal quem mora num quarto-e-sala não tem salas de qualquer coisa. Apenas sala e ponto.

Renato lembrou-se que jamais havia feito curso de teatro, embora em épocas de sua vida houvesse manifestado uma vontade interna de fazer. Não fez. Muito por causa de Berenice, sua ex e única mulher. Ela não se importava com este tipo de coisa, embora fosse uma mulher das artes, uma mulher dessas difíceis de se encontrar por aí. Não poderia ter desperdiçado a sua chance, Renato, não, não mesmo. "Berenice era uma pessoa melhor que você", pensou. E agora pagava a conta da ingratidão. O diretor da grande peça o havia punido com a solidão que desde a infância temia. Dividia seu tempo entre o trabalho que não gostava e sua Variant 1976. Cuidava das plantas do apartamento e do próprio imóvel a que, mesmo alugado, gostava de se dedicar. Haveria de comprar um tapete novo para a sala.

Mas para quê? Raramente recebia visitas desde que Berenice deixou sua vida. Antes o apartamento, mesmo pequeno, vivia cheio. Os amigos do casal, os amigos de Berenice. Não restou ninguém. Berenice foi embora e levou consigo, além do violão que Renato jamais aprendera a tocar, as companhias e seus "grandes" amigos. Ou, pelo menos, aqueles a quem Renato costumava atribuir tal adjetivo.

Renato acelerava na Ponte em direção ao Rio e pensou em qualificar-se como um utópico. Não no sentido de ambicionar grandes projetos de existência para a humanidade. Sentia-se um utópico no sentido literal da palavra: um fora do lugar, um inadequado. Seria ele um gauche - pensou -, desses que vivem nas sombras? Ou seria pretensão demais ser personagem de um poema de Carlos Drummond de Andrade?

Não importava. O fato é que finalmente havia chegado ao Rio. Era hora de entrar no palco e ver a peça do dia. Seu papel ele já percebera, mas estava curioso para ler o roteiro completo. Gostaria de saber qual seria o final que haviam elaborado para o seu personagem.

A Variant 1976 acelerou fundo. Decidiu não trabalhar naquele dia. Finalmente acordado e com a vida da cidade exibindo seu despertar, Renato Viana seguiu firme em direção à Rodoviária Novo Rio.


Terça-feira, Junho 07, 2005

Ficção

INSUBORDINAÇÃO MENTAL
Por Henry Galsky

Cruzou o corredor sem olhar para os lados ou para frente. Não era criminoso, muito pelo contrário. Era a pessoa mais honesta, trabalhadora e gentil que conhecia. Mas sempre que andava desiludido com o mundo, com algo ou com pessoas, agia daquela maneira. Seguia reto, firme e de cabeça baixa por aí. Era uma forma de demonstrar revolta. Era o seu protesto silencioso.

Geralmente, de nada adiantava. Muito pelo contrário. Pessoas mais chegadas lhe pediam explicações, algo que considerava ruim. Não tinha paciência. Muitas das vezes não havia mesmo um motivo concreto que justificasse o comportamento. Sentia apenas um vazio e por um tempo agia daquela maneira. Desde pequeno tinha uma certeza: sua vida seria muito mais simples se pudesse ouvir o que as pessoas pensavam. Não apenas a seu respeito, mas sobre o mundo. Saberia suas verdades mais íntimas, seus preconceitos mais vergonhosos. Queria saber lidar com elas, de forma a agradá-las ou não. Saberia o que lhes causava raiva, transtorno, conforto, felicidade. Isso seria uma grande vantagem, acreditava.

Durante um tempo chegou mesmo a acreditar que um dia aquilo seria possível. Cedo ou tarde haveria de chegar o dia em que, sem notar, passaria a ouvir o pensamento alheio. Naquele exato momento lembrava-se de como lhe seria importante tal poder. Mas o fato é que ele estava longe de ser um super-herói. Era engraçado que pensasse aquilo tudo ao subir o primeiro degrau de ferro. Era inevitável que seus pés produzissem barulho semelhante ao de um bate-estaca. O coração batia forte, estava ansioso. Não fizera nada de errado, mas não conseguia conter o suor nas mãos. Tinha raiva disso, mas nada podia fazer.

Chegou ao segundo piso. O chão brilhava e aparentava ter sido encerado. As pessoas iam e viam ocupadas com seus afazeres diários. Todos pareciam compenetrados demais com seus pequenos e insignificantes deveres. Burocracias enchiam-lhes os dias. "Todos os dias de suas vidas sem sentido", pensava. Com ele haveria de ser diferente, muito diferente. Não nascera para ser mais um a cumprir o que lhe fosse ordenado. Ele haveria de fazer diferença.

E foi exatamente o que aconteceu. Seguia naquele instante para o diretor-geral do departamento. Ele havia feito tanta diferença que o maior chefe do departamento o havia chamado para uma reunião particular. Estava satisfeito. Seu talento haveria de ser reconhecido. Aquele seria seu primeiro passo na caminhada rumo ao sucesso, à diferença, ao estrelato, a um Prêmio Nobel qualquer. Olhou para o relógio do departamento enquanto aguardava o grande momento. Eis que as portas de vidro negro da sala do chefe se abriram.

"Pode entrar", anunciou a secretária. Ela que já havia desdenhado de sua postura profissional não perdia por esperar. Seria sua grande vingança. A moça era uma dessas bonitonas que certamente se dariam bem. Seu perfume, seu ar superior, suas vantagens, digamos, estéticas pavimentariam um caminho glorioso. Conheceria um desses executivos ricos, faria um mestrado, teria filhos e dirigiria seu futuro carro importado. Levaria uma vida sem turbulências ou preocupações. Tudo graças à felicidade genética. Seu sucesso - pensava - era fruto do acaso genético, de uma cagada gerada por uma felicidade ácido-desoxirribonucleica. Tinha raiva disso, mas nada podia fazer a não ser sentar e esperar a eloqüente (e sangüinária, conforme conversava com os colegas nos bastidores) presença do chefe.

Segundos após pensar, tremeu diante da presença pesada do diretor. Apertou-lhe a mão. O chefe não olhava em seus olhos e ele sabia que aquilo não era um bom sinal. "Há quanto tempo trabalha aqui, senhor Renato Viana?". "Há quatro anos", respondeu quase sem abrir a boca. "Pois então", disse o chefe limpando a garganta. "Fui informado por seu supervisor de que tem andando muito disperso, pensamento longe".

O supervisor. Mais um canalha, desses sem coração. Não devia ler um livro que não fosse técnico há mais de ano. Era um que andava de lá pra cá envolto em seus papéis, concentrado em burocracias sem importância. Números frios, sem vida. Um peso morto. Ou melhor, assassinado. Ou, pra ser mais franco - pensava Renato -, uma dessas pessoas omissas, que envolvem-se na grande máquina burocrática para fugir na vida. Ostentava o crachá de supervisor como quem levanta uma Copa do Mundo. Voltou-se mentalmente para o momento.

"É verdade que não tem aceito ordens, senhor Renato Viana?", perguntou. Eis que agora havia sido alçado à categoria de senhor. Calou-se. Preferiu lembrar das ordens absurdas que costumava receber: "trabalhe em silêncio", "menos humor e mais produtividade", "permaneça dentro dos padrões". Para surpresa do diretor-geral, fez que sim com a cabeça. O gesto simples determinava naquele instante uma nova rota em sua vida. De certa forma, selava seu destino. Deixava a sala do diretor, que não lhe causou qualquer tipo de pavor.

Fazia agora o caminho inverso. Sorriu para a secretária sem lhe dizer palavra. Ela não entendeu o gesto. Renato imaginava que desde o início a secretária sabia tudo o que ele acabara de ouvir. Devia estar satisfeita também. A cada um que saía de seu caminho devia anotar "menos um" em um caderno qualquer. Desceu as escadas de ferro pisando firme e fazendo um barulho incômodo. Entrou no elevador. Sétimo andar, o Departamento Pessoal. A máquina burocrática já aguardava satisfeita. Não houve muita explicação. Pegou sua carteira de trabalho onde um carimbo vermelho assinalava para sempre o motivo de tudo aquilo: "insubordinação mental".

Não conseguiu evitar o riso irônico. Não parou de rir. Ria cada vez mais alto ao abrir a porta que dava para a rua. "Devem estar cada vez mais seguros daquela decisão", imaginou enquanto caminhava olhando o sol sempre que podia. O sol que ele não via há muito numa terça-feira às duas da tarde. Pegou o ônibus rumo ao Catete, onde vivia num quarto e sala alugado. Ainda não comunicara a ninguém o fim de sua fonte de renda mensal. A verdade é que não sabia o que fazer. "Insubordinação mental". As palavras se repetiam em sua mente ininterruptamente. Não sabia o que aquela expressão significava exatamente, mas tinha duas certezas: deveria sentir-se honrado por pensar diferente daquela gente burocrática; na prática as duas palavras significavam que não iria receber um tostão que fosse, já que tinha motivo para ser banido. Não apenas do trabalho, mas de toda a sociedade. Afinal, os incomodados que se mudem e os insubordinados que se danem.

Ficou curioso para saber mais sobre a expressão e buscou o auxílio da internet. O mecanismo de busca apresentava centenas de resultados, mas a maioria dizia respeito a Carlos Drummond de Andrade, para Renato o maior poeta que já existiu. "1919 - expulso do Colégio Anchieta, mesmo depois de ter sido obrigado a retratar-se. Justificativa da expulsão: 'insubordinação mental'". Renato estava feliz. Ele e Carlos Drummond de Andrade tinham algo em comum. Os dois haviam sido em algum momento de suas vidas repreendidos por serem considerados insubordinados mentais.

À noite deitou-se e teve a noite de sono mais tranqüila em muito tempo. Levantou cedo no dia seguinte. Tomou banho, fez a barba e colocou sua melhor roupa. Foi à papelaria mais perto de casa e tirou mais de 200 cópias de seu currículo. Tomou um ônibus rumo ao centro da cidade. Sempre soube que sua "insubordinação mental" um dia lhe seria útil. Afinal, mesmo tropeçando nas pedras pelo meio do caminho e apesar de não se chamar Raimundo, haveria de encontrar uma solução. Porque o outro insubordinado mental já havia deixado claro que "Chegou um tempo em que não adianta morrer. / Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. / A vida apenas, sem mistificação". E Renato Viana finalmente compreendeu o que aqueles versos queriam dizer. Por isso, decidiu seguir em frente.