Quarta-feira, Julho 13, 2005

Ficção

NA RODOVIÁRIA
Por Henry Galsky

O dia vazio. A sensação de ter todo o tempo do mundo. Tudo isso - que não era pouco, como se pode imaginar - dava alegria ao já cansado coração de Renato Viana. Era preciso deixar aquele homem ter um pouco de felicidade numa vida repleta de desilusões! Porque até a tristeza tem seus intervalos.

Ele não sabe se pensou tudo isso numa ordem lógica, com todo este encadeamento e linearidade. Mas o fato é que os sentimentos se multiplicaram e foram surgindo sem trégua, um por cima do outro, quando Renato se percebeu em plena segunda-feira por volta das nove da manhã estacionando sua velha Variant 76 na Rodoviária Novo Rio.

- É cinco reais, doutor - disse o guardador.
- Toma aí - respondeu Renato ao lançar no ar uma moeda de cinqüenta centavos que encontrara no bolso.
- Peraí, chefia. Tu só pode estar brincando com a minha cara. Eu tenho família, pô.
- Mas eu não - disse secamente enquanto se afastava rumo ao terminal.
- Pelo menos você pode me dizer quando volta? - perguntou conformado.
- Não sei - limitou-se Renato.

E não sabia mesmo. Se lhe quisessem enquadrar no crime previsto em lei de "abandono de emprego", que o fizessem. Já havia mesmo perdido sonhos, ilusões ou qualquer outra palavra que a sociedade e a novela das oito gostavam de usar para justificar a existência da humanidade. Ninguém podia passar em branco. Todos tinham que se explicar com objetivos, mesmo que eles estivessem retratados num outdoor de propaganda da nova companhia de telefonia celular.

Renato olhava em volta. Não interessava quantas vezes já estivera ali, sempre se questionava para onde toda aquela gente estaria indo. A multidão não parecia ser recíproca às suas preocupações - como de costume, diga-se de passagem - e continuava seu caminho de maneira indiferente.

Mas, infelizmente, a frase do guardador surtira um impacto negativo no dia de Renato. "Eu tenho família" reverberava como um mantra incansável. Um torturador sem pena que martelava o fracasso de Renato sem pressa e sem hora pra terminar. "Onde houvera errado?", continuou a pensar. Caíra na armadilha, mas decidiu continuar numa busca que nem mesmo ele sabia onde iria terminar.

No segundo andar, parou em frente ao guichê que vendia passagens para o interior de São Paulo. Não conhecia ninguém naquelas cidades, mas talvez fosse isso mesmo que ele estivesse procurando. Uma chance pra começar do zero.

Optou pela ensolarada cidade de Búzios, no estado do Rio mesmo.

- Senhor, senhor, há dois minutos está olhando pro nada. Pra que horas você vai querer sua passagem - perguntou uma impaciente funcionária da empresa de ônibus.
- Ah, sim. Quando é o próximo ônibus?
- Em cinco minutos.

Em frente à plataforma de número 34, Renato esperava sem pressa. O grande ônibus finalmente estacionou, após uma série de chiados elegantes, porém justificáveis. Afinal, ele não transportaria gente comum, mas passageiros privilegiados. O pessoal que curtiria a vida complexa de festas e exibicionismo estético e material do balneário de Búzios.

E foi por isso que foi com o pé esquerdo que Renato Viana decidiu subir o primeiro degrau do ônibus azul e branco.