Ficção
EM BUSCA DO SOL
Por Henry Galsky
Renato Viana encontrava dificuldades em pegar no sono naquele ônibus encantado. Virou-se de um lado para o outro na poltrona (confortável para uns, desconfortável para Renato Viana). As variações do asfalto também não contribuíam para transformar o aquário que carregava aqueles maravilhosos iniciados no ambiente ideal em que pudessem sonhar com mais e mais felicidade (afinal, felicidade nunca lhes faltava) e aventuras luxuriosas na terra onde o sol nunca se põe.
Mas ele finalmente conseguiu relaxar e caiu num sono razoavelmente profundo - se é que era possível mensurar o quão profundo o sono podia ser. Renato já estava mais que acostumado ao barulho de seu apartamento. Mas aquele lugar era diferente. O fato é que Renato estranhava o luxo. Era um de seus caprichos, pensou. E lembrou-se da música de Chico Buarque em que o travesti Genivaldo pondera se vale à pena deitar-se com o forasteiro do zepelin prateado.
Num sonho conturbado, eis que aflora parte da memória afetiva deste homem cansado - Renato Viana e não Chico Buarque, por favor. Está na praia e lê jornal calmamente ao lado de Berenice. Lua-de-mel. Rápida, porém marcante. Em parte como Berenice. Mas esta não fora rápida. Apenas marcante. Tanto que, mesmo quando queria, não conseguia deixar de pensar naquela que parecia ser sua obsessão. Renato já havia levantado a hipótese. Chegou mesmo a freqüentar terapia para tentar entender os motivos pelos quais não deixava de pensar em Berenice mesmo após todos aqueles anos de afastamento. Ao final de uns três anos de análise, o próprio Renato descartou aquela hipótese. Afinal - pensava -, obcecados, psicopatas e afins não deveriam conseguir perceber que estavam doentes, possuídos ou algo do gênero. Mas Renato levantou a possibilidade. Logo, ele não era um deles. Estava livre daquele rótulo incômodo.
Renato enxergava esta qualidade em si próprio. Não a de detectar psicopatas, mas de sonhar racionalmente. Conseguia dormir e sonhar - portanto despertar seu inconsciente - e, simultaneamente, elaborar complexos teoremas e tratados filosóficos sobre si e até mesmo sobre grandes questões da humanidade. Era o que fazia naquele exato momento até ser acordado pelo seu involuntário companheiro de viagem. Um senhor que se mexia sem parar de um lado para o outro e partiu para uma luta silenciosa com Renato acerca de quem tinha mais direito de apoiar o cotovelo sobre a divisória das duas poltronas (algo bastante comum em jornadas intermunicipais).
Desistiu de manter os olhos fechados. Renato Viana percebeu que seu trajeto estava quase no fim ao ser surpreendido pela visão da estátua em que um escravo olha para os céus com um bebê nos braços. Bem-vindo a Búzios, Renato.
