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Sábado, Outubro 29, 2005
Ficção
UM ROSTO CONHECIDO
Por Henry Galsky
Estava totalmente molhado ao chegar no centro comercial de Búzios. Aliás, aquele não era um simples local com lojas e restaurantes. Não apenas. A Rua das Pedras era praticamente o centro do universo naquele momento. Estava repleto de gente branca, bonita e rica.
Renato Viana destoava da paisagem com seu jeito normal e um tanto deprimido. Mais do que deprimido. Renato era deprimente. Sua figura atentava contra a exuberância reluzente dos semideuses que freqüentavam o local. E ele sabia disso mais do que ninguém. As celebridades presentes nem notaram sua presença e, por isso, ele precisou se embrenhar no mar de gente para chegar à farmácia. Pisou em poças, foi queimado por umas tantas pontas de cigarro e levou alguns banhos de cerveja. Seu estado era deplorável.
- Oi. Você tem aspirina? ¿ perguntou.
- Uma caixa?
- Acho que sim. Você acha que vou precisar de mais?
- Se me permite, acho que você precisa de banho e roupas secas.
- Na verdade, foi isso que vim fazer aqui. Meu hotel fica a uma meia-hora daqui e preciso comprar umas roupas.
- Olha, acho que vai ser meio complicado. A essa hora está tudo fechado. A gente mesmo vai fechar em cinco minutos. Mas amanhã de manhã as lojas abrem. Agora só os bares e restaurantes estão funcionando.
- E o que eu faço agora?
¿E o que eu faço agora?¿. A frase ecoava em sua cabeça sem descanso. Decidiu voltar para o hotel e tomar outro banho. Iria se enxugar e ¿ fazer o quê? ¿ dormir pelado enquanto suas roupas secassem. Estava com o cartão de crédito mas sem dinheiro vivo. Ou seja, nada de táxi. Teria de voltar a pé.
Passou pelo ¿Chez Michou¿ no caminho de volta. O restaurante era um dos símbolos da cidade e, mesmo com a chuva, estava lotado. Na entrada, um rosto conhecido. O cérebro de Renato Viana ainda levou um tempo até reconhecer a figura. Luise.
Um flash passou: sua primeira namorada, ainda nos tempos de escola. No pátio, viviam abraçados. Prometeram casamento. Trocaram livros, discos. Passearam muito. Viajaram. Foram felizes. Tudo terminou naturalmente. Entraram pra faculdades diferentes. Renato queria ser jornalista, Luise bióloga. A vida os levou para lados distintos. Há pouco tempo haviam se encontrado novamente. Há pouco tempo? O encontro em comemoração aos dez anos de formatura havia acontecido já há uns dois anos. O tempo passava rápido demais.
Torceu para que Luise não o visse. Renato sempre pensava sem parar. Um pensamento encadeado no outro. Mas havia ocasiões em que ele não tinha vontade de falar. E estava num desses momentos. Claro que gostaria de encontra-la. Mas em outra situação. Renato sentia-se fraco e não tinha nenhuma boa novidade para compartilhar com uma pessoa que, mesmo à distância, ainda considerava importante em sua vida.
Mas teria de passar exatamente onde Luise estava. Mas sabia o que fazer. Caminharia como quem olha para as estrelas, embora chovesse e elas não estivessem visíveis. ¿Mas que importa?¿, pensou. Seria somente mais um a fingir naquele lugar onde todos pareciam interpretar um personagem que não existia.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 10:30 PM - Comentários:
Quarta-feira, Outubro 19, 2005
Ficção
RENATO MOLHADO
Por Henry Galsky
Renato Viana abriu os olhos lentamente. Um gosto amargo de sono em sua boca denunciava que ele havia dormido demais. O quarto estava congelado e o ar-condicionado permanecia ligado em sua potência máxima. Gotas pesadas batiam contra a janela quando Renato decidiu abrir as cortinas. Chovia muito.
Quase meia-noite. A pequena luminosidade do relógio de pulso iluminou parte do quarto. Acendeu a luz e sentiu o incômodo de tentar abrir os olhos e não conseguir. Acordou por completo. Nenhum vestígio de sono. Banho.
Ainda cobrindo os olhos, abriu a porta do banheiro. O hotel oferecia escova e creme dental. Escovou os dentes e não ligou o aquecedor. Um banho gelado não faria mal e, sem qualquer medo de choque térmico, Renato entrou de cabeça na água fria. Muito fria. Os olhos já se acostumavam à claridade. Novamente, fazia parte do mundo dos vivos. O banheiro até que não era ruim. Pelo preço, esperava coisa pior. Uma banheira, um vaso sanitário e os azulejos limpos. Tudo branco, muito branco.
Durante o banho, lembrou-se que não tinha consigo nenhuma muda de roupa. Precisava ir à rua principal da cidade comprar camisa, calça, cuecas e um par de meias. Não sabia por quanto tempo ficaria em Búzios e, por isso, precisava estar minimamente preparado.
- Dá licença, quero devolver a chave. Vou sair.
- Mas com essa chuva? - perguntou a mesma recepcionista da manhã.
- Pois é. Preciso comprar roupa. Não trouxe nada comigo.
- Não sei se a essa hora da noite você vai encontrar algum lugar aberto.
- Onde você acha que posso tentar encontrar alguma loja?
- Só na rua das Pedras, mas acho difícil. Por que não espera e vai amanhã cedo?
- Prefiro ir agora. Obrigado pela ajuda.
Neste ponto, imaginava Renato, a recepcionista já devia ter posto seu nome na lista dos hóspedes loucos do hotel. E talvez ela não estivesse totalmente enganada. Porque até mesmo Renato começava a crer que havia feito a escolha errada. Mas estava sem sono, sem medo e sem planos. Por isso, por volta da meia-noite, ele era um homem solitário e sob chuva forte numa rua de terra transformada em lama a pouco mais de dois quilômetros de seu destino.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 12:51 PM - Comentários:
Sábado, Outubro 01, 2005
Conto
NOITE DE ESTRANHOS
Por Henry Galsky
Como de costume, decidiu vagar pela noite. Fazia frio e a chuva havia acabado de cair. Era quase madrugada e a cidade estava vazia. Cada passo seu podia ser sentido pelos paralelepípedos da rua e uma segurança úmida lhe invadia a alma.
Automóveis retardatários ainda insistiam em passar e o barulho dos motores ao longe servia apenas para deixar mais claro que todos já haviam ido dormir. As luzes de uns poucos apartamentos permaneciam acesas e era possível perceber em algumas paredes brancas o reluzir azul-claro e intermitente de televisões esquecidas ligadas.
O passo segue confiante pisando poças d'água e poucos postes iluminam o chão molhado. A zona norte dorme tranqüilamente à espera do despertar agitado da próxima manhã. "É preciso viver um dia de cada vez", já disse alguém em algum livro de auto-ajuda.
Apóia-se num corrimão gelado e enferrujado em frente ao teatro - aparelho do estado que se fez presente e reformado ali para dar um pouco de vida ao bairro de gente trabalhadora. O poder público havia tomado uma atitude solitária e caridosa com aqueles que não viviam à beira-mar, finalmente.
É possível ouvir aplausos surdos. Marcam o fim do espetáculo. A platéia satisfeita avalia-o positivamente. Portas se abrem. A pequena coletividade destoa da paisagem. Cigarros são acesos, pessoas riem, gente se despede, casais se beijam, senhoras tiram os óculos. A vida se faz presente na madrugada fria.
Parte da platéia caminha na direção do corrimão onde ele se apóia. Muitos ainda comentam o espetáculo. Não há crianças, mas algumas senhoras, muitos jovens casais, pouca gente sozinha.
Até que ela lhe cruza o caminho. Como ele, está só. Caminha com segurança e a permanente presença de óculos denuncia miopia. Será miopia?
Seus olhares se cruzam. Na noite fria da zona norte, um coração bate acelerado. Caminham na mesma direção. Ele atrás somente alguns metros. Ela olha novamente, mas logo baixa a vista. Vergonha. Medo. "Será ele um louco que me segue?", ele tenta imaginar os pensamentos da momentânea companheira de calçada.
Numa esquina escura, seus caminhos se separam. Resignado, ele volta a vagar pela noite. A multidão se separa e o silêncio frio volta a incomodar. Nos dias seguintes ele desejaria que a estranha voltasse a cruzar seu caminho para que pudessem ser um pouco mais que meros desconhecidos que trocam olhares tristes na madrugada úmida.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 10:54 PM - Comentários:
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