Domingo, Novembro 20, 2005

Ficção

OS OLHOS DE LUISE
Por Henry Galsky

O plano inicial de Renato Viana foi frustrado por uma Luise sorridente e feliz. E ele foi obrigado a encarar aquele olhar que um dia tanto o havia feito feliz. Luise sorria com os olhos de uma maneira única e intensa e aquela era uma característica marcante que Renato lembrava-se com saudade e um pouco de tristeza. Afinal, aquela vivacidade não fazia mais parte de seu cotidiano. Aqueles olhos nunca mais o acordaram como antigamente.

- Renato, Renato! Ia passando direto assim? Você não me viu?
- Luise, que coincidência - uma frase nada previsível.

E ele se enxergou fundo novamente naqueles olhos castanhos. Desviou o olhar. Naquele momento teve certeza de que foram os olhos de Luise que o haviam conquistado anos antes.

- Renato, você não sabe como fico feliz de te ver. Há quanto tempo a gente não se encontra?
- Acho que já faz uns dois anos, Luise. Desde aquele encontro da turma. Você lembra?
- É verdade mesmo. Eu estava num momento complicado da minha vida. Havia terminado meu namoro e estava viajando demais. Naquela época estava morando em Belém e vinha ao Rio só uma vez por mês. Você ainda está casado?
- Não. Já me separei faz um tempo. Você conheceu a Berenice, minha ex-mulher?
- Uma vez a gente se encontrou num restaurante no Rio e fomos apresentadas. Lamento muito, viu Renato? Já passei por essa situação e sei como é difícil. Mas imagino que um cara como você não vai ficar sozinho por muito tempo.
- Obrigado, Luise. Você é sempre muito gentil - "Se ela soubesse há quanto tempo estou sozinho e conhecesse um pouco mais da minha vida, não diria uma coisa dessas. No fundo, só estava tentando ser simpática", pensou Renato.
- Escuta, deixa eu lhe apresentar o meu namorado. Sérgio, este é o Renato de quem tanto lhe falei, lembra? - disse enquanto puxava para perto de si um rapaz magro, alto e com aparência dessas pessoas que nasceram para vencer na vida.

Apertaram as mãos e Renato sentiu-se fraco. Por mais que soubesse que Luise já vivera novas relações - e ela tinha todo o direito de vivê-las -, não pôde evitar o impacto de informação tão desagradável sob seu ponto de vista.

- A Luise já me falou muito de você, Renato - disse Sérgio sem esconder o sorriso.
- Espero que tenha falado bem - tentou ser engraçado sem muito sucesso.
- Claro que sim.

Luise interveio na conversa. Renato sentia-se avaliado por Sérgio e bastante exposto por este saber intimidades de sua vida e de um passado que tanto prezava.

- Falei pra ele do nosso namoro adolescente - disse ela rindo discretamente.
- Claro, claro. Sem problemas - Renato deixava claro que não acreditava no que dizia.

Quer dizer que era daquela maneira que Luise guardava na lembrança o relacionamento dos dois? Um namoro "adolescente", palavra que Renato tanto detestava e que agora passara a adjetivar algo tão importante em sua vida. Era hora de encerrar o assunto.

- Escuta, infelizmente tenho de ir. Como vocês devem ter notado, estou todo molhado. Tenho de voltar para a pousada. Foi um prazer, Sérgio.
- Mas você já vai, Renato? A gente podia fazer alguma coisa - disse Luise.
- Eu gostaria muito - mentiu - mas preciso realmente me secar.
- Onde você está hospedado, Renato?
- Na pousada Media Luna. Sabe onde fica? - "Por que dizer 'sabe onde fica'? Dá a impressão que você quer que ela realmente lhe encontre, seu idiota", pensou.
- Sei sim, Renato. A gente se fala ainda por aqui em Búzios. Tomara que essa chuva pare logo.

Quando Luise mencionou a chuva ininterrupta, Renato virou as costas para o casal e tomou o rumo da Media Luna. Gotas de lembrança de um passado feliz e "adolescente" o acompanharam por todo o caminho de volta. Renato estava mais confuso do que nunca e também um pouco triste. Parecia que todos conseguiam seguir em frente, exceto ele. Não correu e preferiu percorrer o caminho lentamente. "Um pouco mais de chuva não lhe faria mal", pensou. Renato mais uma vez impunha-se um flagelo.