Sexta-feira, Dezembro 09, 2005

Ficção

O CRACHÁ DE SORAIA
Por Henry Galsky

Pela ótica da recepcionista, Renato deveria ser louco. Pelas suas respostas, pelo seu olhar e, principalmente, por suas atitudes. Afinal, em apenas dois dias na pousada, aquele hóspede um tanto misterioso parecia cultivar o hábito de entrar molhado no simpático hall de Media Luna.

Mas isso pouco importava a um Renato despedaçado por um mais um golpe em sua ausente vida amorosa. A cada dia, ele tinha mais certeza de que "romance" era apenas uma palavra que organizava a seção de filmes sem graça da Macedônia, sua vídeolocadora no Largo do Machado.

Percebeu que estava sendo observado logo ao abrir a porta da pousada. Na sala de estar da Media Luna, um grupo de jovens se esparramava pelos sofás e redes e assistia confortavelmente à televisão. A decoração rústica dava um certo ar caseiro e acolhedor ao local.

Mas Renato tirou a atenção do grupo. Todos se viraram para ele, como se Alien, o oitavo passageiro, tivesse imaculado o piso cor de telha com chuva. Ignorou-os sem qualquer constrangimento. Também teria dito um palavrão em voz alta se não estivesse tão cansado. Preferiu pegar a chave na recepção e subir direto para o quarto.

- Me vê a chave do 114, por favor - pediu com educação à recepcionista de sempre. Ela devia trabalhar em turnos de 24 horas, ao que parecia.
- Acho que já é a segunda vez que o senhor entra aqui todo molhado.
- Isso lhe incomoda?
- A mim, não. Mas ao senhor, provavelmente.
- Não trouxe guarda-chuva.
- A gente vende aqui na pousada.
- Não tenho dinheiro pra comprar.
- A gente empresta.
- Escuta - e olhou o nome da atendente no crachá antes de dirigir-se a ela -, Soraia, amanhã eu lhe peço, ta bom? Obrigado.
- Meu nome não é Soraia, senhor - e ela timidamente riu.
- Se esse não é o seu nome, por que você usa um crachá onde está escrito "Soraia"?
- É o nome da empresa em que trabalho. A gente aqui é prestador de serviço.

Renato não conteve o riso. Esqueceu-se da água, de Luise, de estar sem emprego, sem rumo e sem destino.

- E, afinal, qual o seu nome?
- Denise, meu nome é Denise - ela disse já colocando a chave do 114 sobre o balcão.
- Obrigado, Denise.

E Renato foi para o quarto, enquanto digeria aquela situação esdrúxula. Por falar em digerir, lembrou-se que não havia comido nada. Decidiu ligar para a recepção e pedir algo próximo a um jantar.