Ficção
A FOME PRIMITIVA
Por Henry Galsky
- Soraia? - Renato perguntou em um tom de voz mais alto que o desejável.
- Você parece se esquecer rápido demais das coisas. Meu nome não é Soraia.
- É verdade, me desculpe. Denise, não é isso?
Ouviu-se um silêncio na linha que parecia denunciar mau-humor. Renato conseguia compreender .
- Escuta - ele continuou - lamento por esquecer seu nome tão rapidamente. Não era minha intenção.
- Acontece. Em que posso lhe ser útil?
- Queria pedir alguma coisa pra comer. Não comi nada o dia inteiro.
- O cardápio está em cima do criado mudo. Ao lado da cama.
Renato não havia percebido a presença do caderno cor de vinho ao lado do abajur. Abriu-o rapidamente, afinal não queria irritar ainda mais aquela recepcionista tão, digamos, cheia de personalidade. Escolheu cação, um peixe sem espinhas. O preço era salgado como crepe do Chez Michou: 25 reais a porção.
- Denise, esse cação dá pra dois?
- Seu Renato, vou lhe ensinar uma coisa: aqui em Búzios nada dá pra dois. Os pratos são sempre pra uma pessoa só.
- Sinto um tom de nervosismo em sua voz, Denise.
- Nós mal nos conhecemos. Não acredito que saiba identificar meus sentimentos. Muito menos pelo meu tom de voz.
- Tudo bem, Denise. Então, por favor, vou querer esse cação. Pode ser?
E Denise sequer respondeu. Ela devia estar de fato ofendida pelo esquecimento de Renato. Aliás, essa era uma de suas características marcantes. Esquecia-se de tudo com bastante facilidade. Aos outros, soava feio mesmo. Parecia falta de interesse ou desleixo. Mas não era. Tratava-se apenas da porção disléxica de sua personalidade.
Renato aguardava sua refeição com a ansiedade de quem sente a fome mais primitiva. De fato, aquele era um crime reincidente à natureza humana. Diante das incertezas da existência, a fome era o móvel da sala. Fixo, grave e espaçoso. Não haveria ser humano que pudesse passar a vida sem comer. Renato era apenas mais uma amostra insignificante, molhada e - pior dos crimes da contemporaneidade - sem dinheiro dessa espécie decadente que reinava sobre o Planeta Água. Mais água do que nunca.
