Ficção
EU AINDA SOU O FILHO
Por Henry Galsky
A comida estava boa. Mas Renato não conseguia dormir e resolveu fazer a barba. Nunca havia cumprido qualquer ritual para este exercício de higiene estética. Entretanto, resolveu abrir a torneira de água quente por um tempo. Alguns diziam - havia lido numa revista - que fazia bem para a pele. Mais uma das bobagens que Renato lia enquanto esperava compromissos importantes da vida cotidiana - uma consulta no dentista, um chá de cadeira de um superior.
Não sabia como devolver o prato de comida usado. Ou melhor, sequer sabia se era sua obrigação devolvê-lo. Ligaria para Denise, Soraia ou quem quer que fosse e perguntaria. Olhou pela janela e voltou a pensar sobre a chuva que continuava a cair. Não lia o jornal há muito tempo, mas sabia que aquele estranho fenômeno da natureza - da natureza? - já devia ter transformado o Rio de Janeiro num grande pântano. Era estranho pensar sobre o assunto. O Rio parecia tão distante quanto uma terra estrangeira qualquer e, somente naquele instante, lembrou-se de seus amigos na cidade. Deviam estar sob o domínio das águas, sem ir ao trabalho, sem levar os filhos ao colégio, sem buscar as mulheres na empresa, sem ir ao cinema e sem freqüentar suas aulas de ginástica. O tempo estava parado.
E pelo que viu na janela, não havia qualquer sinal de trégua. As nuvens pareciam ainda mais negras e a chuva ainda mais intensa. Aquilo tudo fez com que pensasse sobre a maneira como via as coisas. Na prática, era como se a chuva não existisse. Não pensava muito sobre o assunto, exceto por aquele momento. Na verdade, não pensava muito sobre nada. Vivia um dia de cada vez e o isolamento causado pelas chuvas parecia ter surgido no momento exato de sua existência.
Enquanto fazia a barba, notou algo interessante. A cada dia, ficava mais parecido com seu pai. Ele já havia morrido há alguns anos, mas conseguia se lembrar de sua fisionomia como se ainda estivesse vivo. Nunca havia estado muito presente em vida, mas a morte fizera com que ficasse mais próximo de Renato. Mais próximo do que nunca. "Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho"*, pensou. Mas não sentiu-se bem. Não havia cumprido seu desejo de ser pai. Sentia-se incompleto como se houvesse descumprido sua parte com a espécie humana. Se aquilo tudo fosse uma grande empresa cheia de metas e planos de carreira, Renato estaria demitido. Não passara adiante o objetivo primordial da existência humana. Não seria eternizado pela vida de um filho que jamais nasceu.
* "Dias de Luta" IRA! - Edgard Scandurra, 1986
