Israel
O QUE COBRE TUDO
Por Henry Galsky
O sol ilumina o asfalto. Não há sujeira na estrada, deslizes ou buracos. Apenas o silêncio corta uma das principais vias da região conhecida como Shaar HaNeguev (literalmente, o portão do deserto do Neguev). Se a geografia não dissesse que aqui é um deserto, jamais haveria como saber. No alto do letreiro no ponto de ônibus, é possível ler os números e as cidades para onde se pode ir com o transporte público: 363 para Ashquelon; 8 para Tel Aviv. Quem foi o responsável por esta numeração?
Um rabino pede carona - este deve ser o único país em que rabinos pedem carona e distribuem cds de músicas religiosas no sinal. Poucos dão carona. Mas há os que aceitam os cds. Um grupo de gente comum consegue carona sem dificuldade. Eles dizem que querem ver as flores ao longo da estrada. Falta pouco para a primavera.
É a época das flores e muitas famílias saem de carro no Shabat - o descanso semanal judaico e o dia em que oficialmente não se trabalha em Israel - com o único propósito de vê-las pelo caminho. São amarelas. Mas já foram vermelhas. Por mais bonitas que sejam, é estritamente proibidos colhê-las. A lei do Estado impede que elas sejam cortadas.
No alto de uma colina florida, no lado direito da estrada, o túmulo de Lili Sharon. A mulher do primeiro-ministro Ariel Sharon morreu há quase seis anos - em março de 2000 - vítima de câncer de estômago, aos 63 anos. Uma grade azul, com pouco mais de um metro de altura, cerca o local. Nada de homenagens oficiais. Nada de luxo.
Do outro lado da estrada, o rancho de Sicamor, propriedade da família Sharon. Nenhuma curva ousada ou arquitetura vanguardista, como se poderia esperar da residência de descanso do primeiro-ministro do país. A construção lembra uma casa comum de um condomínio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Por mais tranqüilo que tudo possa parecer, há uma forca silenciosa e inaudível que parece estar presente em cada canto deste país. A política. Foi neste lugar que Sharon sentiu-se mal, no dia 4 de janeiro deste ano, e foi levado para o Hospital Hadasah, em Jerusalem, onde se encontra até o presente momento. E é para este local que a família deseja que seja transportado quando morrer. Para ser enterrado ao lado de sua querida Lili.
Após a retirada de Gaza, em agosto de 2005, o ativista de direita Noam Federman entrou com um pedido na Suprema Corte para que o túmulo de Lili fosse retirado da colina. Argumentava que, de acordo com as leis israelenses, aquele não era um local pré-determinado para ser um cemitério. Ora, por que não houve reclamações na época de seu enterro, cinco anos antes?
Federman desejava vingar-se pela retirada de Gaza promovida pelo então saudável primeiro-ministro Ariel Sharon. Uma das medidas aplicadas por Israel foi retirar também os cemitérios judaicos do território palestino. O bom-senso prevaleceu e seu pedido foi negado pela Suprema Corte.
Agora que a morte de Sharon parece inevitável, o assunto deverá voltar à tona e Lili mais uma vez deverá ser acordada de seu descanso eterno. Ao menos, sabemos que as flores que cercam o local jamais serao cortadas.
