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Sexta-feira, Abril 21, 2006
Ficcao
UMA PRAIA QUALQUER
Por Henry Galsky
Depois de passar todo o dia no hotel, Renato chegou a uma conclusao simples sobre sua vida, mas que o deixava ainda mais atordoado: perdera por completo a nocao do tempo. E talvez por isso tenha ficado tanto tempo em silencio, sem falar, gesticular ou qualquer outra forma de comunicacao com o mundo exterior. Ele sequer sabia ha quantos dias havia chegado aquele lugar perdido num continente qualquer.
Sem rumo ou qualquer coisa para fazer, tomou a decisao mais obvia (porem nao menos perigosa). Iria sob chuva e noite sentar-se na areia da praia.
Passou por Denise na recepcao e sequer a cumprimentou. Agora tinha um guarda-chuva, mas recusava-se a usa-lo. Pouco mais de tres quilometros o separavam da praia. Caminhava lentamente - ainda sob a estranha e inconsciente filosofia do auto-flagelo - como se quisesse sentir cada gota sobre seus ombros (e, de fato, queria).
Para ele, pouco importava tambem que outros tantos visitantes estivessem na cidade. Definitivamente, estava so. Mas nao fazia qualquer juizo de valor sobre este fato. "Era algo dado", pensava. Se este era o fardo que a vida lhe impunha, paciencia. Aceitaria-o de bom grado. Ate porque, no final das contas, Renato sentia-se mesmo um inadequado diante das pessoas e dos lugares. Por isso continuava sua eterna peregrinacao em busca de novos lugares para sentir-se so e de novas pessoas com as quais nao relacionar-se. Assim havia ocorrido em relacao a Luise, Berenice e sua familia.
E assim, sob a seguranca tranquila de quem nao tem lacos com o mundo ao redor, Renato chegou a praia. Pensou em entrar na agua. Nao entrou. Ate porque mesmo o auto-flagelo inconsciente impoe seus limites. E a concretude nada filosofica de milhoes de litros de agua gelada era um deles. Aceitou-o na passividade de quem ja havia aceito coisas muito piores. Ja havia tirado seu time de campo em varias outras situacoes. Aprendera a lidar com a derrota. Na verdade, via-a como uma de suas mais fieis companheiras. Assim como naquele momento possuia a chuva, a noite, a areia e o mar. E sob a escuridao de um ceu totalmente nublado e sem lua, Renato sentou-se na areia.
"Praias sao todas iguais", pensou. Estava em Buzios, mas ali podia ser Ipanema. Ou Tel Aviv. Pouco importava. "Praias sao todas iguais!", gritou para ninguem naquela imensidao vazia. E comecou a rir alto sem motivo. "Praias sao todas iguais!", repetiu ainda mais alto. "O que muda sao as pessoas!", continuou a gritar. E repetiu sua impressionante descoberta muitas e muitas vezes pela madrugada. Aquela era sua teoria e ele queria aproveitar o momento da maneira mais intensa possivel. Aquele era seu momento especial. Aquele era seu momento. Aquele era seu. Aquele era. Aquele. E nada mais.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 7:08 AM - Comentários:
Sábado, Abril 01, 2006
Israel
REVIRAVOLTA
Por Henry Galsky
Nao foi por acaso que os dois maiores jornais israelenses escolheram a mesma manchete para definir os resultados das eleicoes: "reviravolta" parece ser mesmo a palavra da moda no cenario politico de Israel. E nao apenas pelo quantidade de votos que cada partido recebeu; nao apenas pela drastica queda do entao todo-poderoso Likud; nao apenas pela ascensao dos partidos pequenos. As eleicoes do dia 28 de marco ja fazem parte da historia do pais por todas as razoes acima. Mas tambem por nenhuma delas. Este foi o ano em que o eleitor deixou claro que a politica nao lhe eh mais tao interessante.
Apenas 63% dos cidadaos compareceram as urnas (o voto nao eh obrigatorio) apos uma das mais frias campanhas politicas dos quase 58 anos de existencia de Israel. Este eh o segundo menor indice da historia e perde apenas para as eleicoes de 2001, quando Israel enfrentava o auge da segunda Intifada palestina. Para ter a exata nocao do que este numero representa, basta saber que, ate 1999, o indice ficava proximo a casa dos 80%.
De qualquer maneira, o eleitorado israelense parece ter escolhido tres grandes ideologias genericas para representa-lo no proximo parlamento: a objetividade do Kadima - partido fundado por Sharon -, o tradicional voto na esquerda, e, por fim, o bem-humorado - e inesperado - protesto.
O grande vencedor nao pode (verbo poder no passado) ver sua vitoria. Apesar de Ehud Olmert ter sido eleito o proximo primeiro-ministro, esta muito claro que Ariel Sharon foi a grande escolha. Ou melhor, sua ideologia de retirar-se unilateralmente dos territorios palestinos e formar as fronteiras definitivas de Israel ate, no maximo, 2010. O Kadima argumenta que nao ha parceiros para a paz do lado palestino e, por isso, pretende dar continuidade a construcao da polemica barreira de seguranca. Olmert nao se fez de rogado e soube usar com sabedoria sua proximidade com o ex-primeiro ministro. "No caminho de Sharon" foi seu estrategico slogan de campanha. Concorrendo pela primeira vez, o Kadima mostra forca ao conquistar 29 das 120 cadeiras do Knesset, o parlamento israelense. Olmert pretende retirar praticamente todas as colonias judaicas da Cisjordania, mas deseja manter os tres maiores blocos de assentamentos. "Eh o 'sim' do povo de Israel ao meu plano. Se nao podemos negociar com os palestinos, vamos tomar nosso destino pela mao e agir unilateralmente", disse o novo primeiro-ministro logo apos o termino da apuracao.
No segundo escalao, o Partido Trabalhista conseguiu manter praticamente o mesmo numero de parlamentares (conquistou 20 cadeiras. Antes, possuia 19). Grande parte da sociedade israelense se identifica com os ideais de esquerda. Foi ela que fundou o pais e dominou o cenario politico de Israel por quase 30 anos. O ate entao desconhecido lider sindicalista Amir Peretz conseguiu seguir a linha de lideres historicos israelenses e o Avoda ( tem um acento no 'a') deve ocupar de seis a sete ministerios no novo governo. Entretanto, Peretz deve encontrar problemas numa possivel coalizao com o Kadima, jah que recusa-se a formar um gabinete com Avigdor Liberman, uma das grandes surpresas destas eleicoes, e a quem definine como "um novo tipo de Le Pen" (em referencia ao politico de extrema-direita frances). Os trabalhistas tambem buscam novas opcoes de coalizoes e podem vir a unir-se aos religiosos do partido Shas e tambem aos Aposentados.
Lieberman, um dos mais de um milhao de judeus russos que emigraram para Israel desde o inicio dos anos 1990, eh o lider do partido Israel Beitenu ("Israel, a Nossa Casa"), que conseguiu 11 cadeiras no novo parlamento - em 1999, apenas quatro parlamentares do partido estavam no Knesset. Lieberman defende uma polemica solucao para os problemas de fronteiras de Israel: a inclusao de parte da Galileia israelense - bastante povoada por vilarejos arabes - em troca da anexacao e expansao dos assentamentos judaicos na Cisjordania. Seu slogan em russo "nyet, nyet, da" ("nao, nao, sim"), que buscava identificar Olmert, Peretz e Netanyahu como "gatos dos mesmo saco", parece ter seduzido parte do eleitorado e, principalmente, dos imigrantes.
A grande surpresa foi a conquista de sete cadeiras pelo Partido dos Aposentados. No dia das eleicoes, jovens faziam boca-de-urna para o partido vestindo camisetas com o slogan de "Salve o seu avo". A ascensao do partido que tem como principal plataforma o aumento da aposentadoria eh vista pelos comentaristas politicos como um protesto contra o sistema politico. Eh o voto dos que perderam a confianca nos partidos tradicionais. O partido parece mesmo ter conseguido unir em torno de si as vozes dos insatisfeitos. E tambem de muitos jovens. Cerca de 10% de seus votos vieram de cidadaos com menos de 29 anos de idade e somente 60% de seus eleitores tem mais de 60 anos.
Tambem eh consensual que o partido Likud sai como o maior derrotado destas eleicoes. O a principio apelativo slogan de "Forte contra o Hamas" nao surtiu efeito. A direita neo-liberal israelense conseguiu apenas 12 cadeiras. Eh um numero bastante pequeno, levando-se em conta que, em 2003, o partido chegou a contar com 38 deputados no Knesset. Em relacao ao conflito com os palestinos, o Likud propoe a manutencao dos assentamentos. De fato, sua grande derrota ocorreu antes mesmo das eleicoes, quando Sharon deixou o partido para fundar uma nova legenda que o apoiasse em seu plano de retiradas unilaterais dos territorios reivindicados pelos palestinos. O atual lider do Likud, o ex-primeiro ministro Benjamin Netanyahu, sai como o grande perdedor destas eleicoes gerais.
Eleito para os proximos quatro anos, Ehud Olmert seguramente encontrara dificuldades para lidar com um espectro politico tao complexo. Por um lado, recebeu um voto de confianca para seguir em frente com as retiradas. Por outro, enfrentara as inumeras dificuldades para conseguir formar um governo capaz de atender a um parlamento tao distinto. No final das contas, o eleitor escolheu quem promete agir em detrimento daquele que faz os melhores discursos. "Os israelenses deixaram claro que estao cansados. Inclusive de protestar. Deixe-nos descansar. Ou nos aposentar", escreve no Jerusalem Post o pesquisador politico e diplomata Itzhak Oren.
 Viva
Voz por Henry Galsky às 5:15 AM - Comentários:
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