SOB UM OUTRO OLHAR
Por Henry Galsky
Nao foi o sol que lhe acordou. Nao havia sol. Nem o barulho das pessoas. Nao havia ninguem na praia, assim como parecia ocorrer em toda a cidade. Estavam todos em seus hoteis, pousadas e casas a espera de uma tregua da chuva. Mas ela nao vinha e os turistas acabavam por se virar da maneira como podiam. Divertiam-se entre amigos com jogos como mimica e ludo ou simplesmente se reuniam em rodas de musica que os permitiam lembrar-se de um tempo que ja havia passado. E foi uma parte do passado que salvou Rentao Vianna.
- Renato, Renato! Acorda! Voce esta vivo? Responde! - gritava uma Luise desesperada.
Mas ele nao respondia e parecia estar realmente doente. Ou morto. Pelo que Luise podia concluir de toda a cena, ele dormira na areia so, sob chuva, frio e vento. A praia era um grande deserto envolto por um mundo cinza de ondas, nuvens e vazio. O vento ininterrupto que soprava do mar abafava os gritos de Luise.
Entretanto, a missao de Renato neste mundo ainda nao havia terminado. E sua mente aos poucos captava ao longe - muito longe - algum tipo de som. Primeiro um zumbido, como de uma mosca que atrapalha o sono, depois algumas palavras ("vivo", "por favor") e, por fim, um choro triste de mulher. Seu cerebro demorou a responder. Mas respondeu. E ele abriu os olhos, para alegria de Luise.
- Gracas a D`us, Renato. Eu pensei que voce estivesse mor... - e Luise engasgou-se em seu proprio choro.
- Praias sao todas iguais - balbuciou Renato ainda longe de seu estado de consciencia normal.
- O que?
- Praias sao todas iguais
- Do que voce esta falando, Renato? Vamos embora. Eu estou de carro e vou te levar pra o seu hotel.
- Eu nao estou num hotel - respondeu com choro.
- O que?
- Eh uma pousada, Berenice. Uma pousada. Media Luna. Isso la eh nome pra pousada?
- Vamos pra la, entao.
- Eu sou Pedro Paramo, Berenice. Estou a procura de mim mesmo.
- Renato, eu sou a Luise, nao a Berenice - e ajudou-o a ficar de pe.
Mesmo sentindo-se muito fraco, Luise conseguiu com que Renato entrasse no carro. Se ela nao soubesse que Renato nao bebia e que estava fraco por ter passado a noite em condicoes hostis, Luise poderia ate ter pensado que ele estava bebado. Mas ela sabia que nao era este o caso e levou-o rapidamente a pousada.
- Rapido, por favor, a chave do quarto dele - pediu Luise.
- Eu ja falei pra ele usar um guarda-chuva nosso, mas ele nao quer - disse Denise mostrando preocupacao.
- As licoes ficam pra depois. Agora ele precisa de tratamento.
Ao chegar ao quarto de Renato, Luise surpreendeu-se com a quantidade de pequenos bilhetes espalhados por toda parte. Reconheceu seu nome num deles e, apos ajudar Renato a deitar-se, agachou-se. "Hoje: Luise-Sergio. silencio". Ela nao entendeu o significado, mas sabia que, naquele instante, nada disso era importante. Renato precisava de banho, medico, roupas secas e cuidado. Ela so nao conseguiu entender porque ele havia dormido na praia. Na verdade, neste momento Luise era mais uma a entrar no ciclo de questoes que povoava a mente dos que cruzavam o caminho desta incognita chamada Renato Viana.
